Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por Arlindo Macedo

Notas da Histria do nosso futebol

09 de Dezembro, 2019
A história oficial do futebol angolano teria de começar pelas décadas de 1920-30-40, porém, vamos aqui cingir-nos ao tempo de Angola já independente. E não se iria festejar a independência sem se jogar à bola; seria incaracterístico de um povo amante do futebol.
Assim pensando e fazendo, em 8 de Fevereiro de 1976, mesmo sem haver ainda federação, convidámos o vizinho e amigo Congo-Brazzaville, que nos havia dado ajuda durante a Luta de Libertação, para jogar um trumuno de amigos, que perdemos por 2-3. O gosto havia ficado, porém, o jogo seguinte só seria um facto mais de um ano depois, a 1 de Junho de 1977, quando encontrámos outro amigo para jogar: Cuba. E vencemos por 1-0.
Nesse mesmo ano, os meses que se seguiram foram para a gestação rápida e o parto do primeiro emblema desportivo do pós-independência: o Clube Central das Forças Armadas Primeiro de Agosto, criado na data homónima e que coincidia com a criação das FAPLA, o braço armado do MPLA.
Quando Angola ascendera à independência, o Clube Recreativo da Cáala, do Huambo, era o campeão de futebol (1975) da nossa terra. Então e de facto, a bola angolana estava a ser dominada pela região Centro-Leste, naqueles que eram os últimos anos de colónia e havia ali muito tropa estacionado vindo
de fora: Ferrovia de Nova Lisboa (campeão de 1974), Futebol Clube do Moxico (1973) e Benfica de Nova Lisboa (1972).
Até parecia predestinação, pois, os dois maiores radialistas do futebol da época, em que não se aventava ainda virmos a ter televisão, eram também natos dali: Carlos Pereira (Novo Redondo, hoje Sumbe, Kwanza-Sul) e Rui Carvalho (Cutato,
Kuando-Kubango). Este último, aliás, foi mesmo o pai do termo “GIRABOLA” (1972), no tempo em que o campeonato angolano era oficialmente denominado "Campeonato do Estado Ultramarino de Angola" portanto, antes da nossa independência.
Ainda relacionado com o futebol, o mesmo Rui Carvalho, ainda em miúdo (Anos 40), havia imaginado um microfone que nunca vira e esculpiu a peça em madeira, para brincar aos relatos, e curiosamente o pequeno escultor não ficara longe da realidade (ver foto). Ele havia imaginado e rabiscado também um jornal desportivo de bolso (a que chamou “Tejolo Quente”, já que antigamente também se gravava texto em pedra...), onde
confirmava a sua veia para o jornalismo desportivo quando um dia crescesse (ver foto); de resto, como o seu alter-ego: Carlos Pereira, apodado de “Rei dos Coqueiros” e quem também baptizou de “Kurikutelas” o estádio do Ferrovia(rio) do Huambo.
Se a história de ambos não se confundir com a das emoções do ressurgimento do futebol angolano no pós-independência, será por falta de proximidade com o desenrolar dos factos. Naquele mesmo ano de 1977, Rui Carvalho era nomeado director-geral da Rádio Nacional de Angola e escolhia para director da Rádio Huambo, a Carlos Pereira. E ambos seriam, juntamente com Elísio de Gregório (Rádio Lobito e Rádio Benguela) os primeiros percussores do radialismo do futebol, que tanto viria galvanizar o bairrismo pelo país e impulsionar gradualmente a circulação de pessoas, no caso os prosélitos do futebol, que ligavam por ar e terra as províncias do país, ali onde fosse possível contornar os focos de tensão militar.
A televisão era ainda um evento recente no país e os seus meios técnicos parcos, além de limitados à sede, em Luanda. A nível da Imprensa, a agência ANGOP havia sido fundada e o diário nacional, “Jornal de Angola”, refundado como jornal da nova Angola independente, embora mantendo a infraestrutura o parque tecnológico herdados (do antigo diário “A Província de Angola”). Tal situação, em termos de publico ou audiência, favorecia por algum tempo a Rádio Nacional, herdeira de todos os antigos rádios-clubes e capacitada para chegar mais próximo e mais rápido ao ouvinte; aliás, a cobertura radiofónica do futebol acabava por servir de ‘’correspondência” para a imprensa e a televisão.
O tempo passava e decorria já o ano de 1979, quando políticamente se decidiu realizar umcampeonato de futebol visando regressar a uma vida normal, para a sociedade, animar o país e interligar as suas regiões. Curiosamente, a competição foi criada por despacho do então secretário de Estado da Educação Física e Desportos, Ruy Mingas.
Até ali perduravam as imagens e memórias de um passado recente do futebol angolano; muitos emblemas haviam desaparecido ou simplesmente ficado inactivos. Se o Centro-Sul havia sido o último reduto dos grandes, em Luanda haviam perdurado o domínio do ASA (de Joaquim Dinis “Brinca n’Areia”), campeão angolano de 1965, 1966, 1967, 1968; e o Sporting de Luanda (de Chico Negrita, Manecas e Geovetty), campeão angolano em 1941, 1942, 1944, 1946, 1947, 1955, 1956, 1963.
Outros grandes emblemas de Angola haviam sido Futebol Clube do Uíge, “Os Dinizes” de N’dalatando, Sagrada Esperança da Lunda-Norte, Sassamba da Lunda-Sul, Lusitano e Sporting, ambos do Lobito; União da Catumbela, Portugal de Benguela e Sporting de Benguela, todos de Benguela; Recreativo da Cáala, Ferrovia e Benfica de Nova Lisboa, aliás, Mambroa, todos do Huambo; Ferroviário e Benfica, ambos do Lubango; e Os Independentes de Porto Alexandre, aliás, do Tombwa, do Namibe, campeão angolano em 1969, 1970 e 1971.
A criação da Federação Angolana de Futebol (FAF), também em 1979, resultou da crescente pressão do generalato (Generais N’dalu, Orlog, Toka, D. Matross e outros) e materializou-se como orientação do então Presidente da República e Comandante-em-Chefe, José Eduardo dos Santos, ao Secretário de Estado Ruy Mingas, para se enviar uma delegação à Suíça (país-sede do Comité Olímpico Internacional [COI] e de várias federações internacionais desportivas, como a FIFA) para ali se formalizar a adesão de Angola àqueles principais organismos.
Um ano mais tarde (1980) era reconhecida a FAF, aceite simultaneamente na Confederação Africana de Futebol (CAF) e na Federação Internacional de Futebol Association (FIFA). A partir dali Angola podia aspirar às competições internacionais, inclusive de clubes.
Além de lazer e entretenimento, o futebol era visto também como um modo de se manter e preparação combativa, como se dizia, das forças armadas e para-militares. Assim e sucessivamente nasciam novos emblemas afectos aos militares, depois do Clube Primeiro de Agosto, das Forças Armadas; nasceu o Interclube, da Polícia Nacional, e o Dínamo Sport Clube, das Tropas Guarda- Fronteiras. Mais emblemas congéneres surgiram ainda, com realce para o Clube “Onze Bravos” do Maquis, do Moxico, e o Grupo Desportivo da Chela, da Huíla.
Em 1980, havia sido concluída a primeira edição do “Girabola” e podia-se finalmente dar uma carreira internacional aos nossos emblemas e à selecção de Angola. Também nesse ano e de maneira controversa, nascia o Atlético Petróleos de Luanda, resultante da inactividade do Clube Atlético de Luanda e absorção do seu nome e património pela maior empresa do país e concessionária do petróleo angolano, a Sonangol. Superando em meios a concorrência, não tardou a ser campeão nacional, dois anos depois (1982) e em crescer rapidamente como o maior emblema nacional com mais títulos ganhos (15 actualmente, contra 13 do eterno arquirrival, Clube Primeiro de Agosto).
Fora das quatro linhas, vivia-se a génese do que viria a ser o único canal de rádio desportiva do país, pois a sua confunde-se com a história do próprio futebol, em particular, e do desporto angolano em geral.
Tudo começou em 1977, quando na Rádio Nacional de Angola se arranjou um quartito e instalou-se o que viria a ser o primeiro ‘desk’ da informação desportiva nacional, ali na Avenida Comandante Gika, sede da RNA. Sem desporto concretamente em Angola, e porque era um tabú falar da antiga potencia colonial, em termos positivos, só à boca pequena se recordava o Benfica e o Sporting e o Porto, até que, acasalando a paixão desportiva de Rui Carvalho, com a gestação de tempos novos, lá se sentiu um impulso e cima, logo abraçado pelo sénior redactor e amante dos desportos, Júlio Sousa e Silva “Julecas”.
Foi ele quem deu as primeiras instruções da técnica jornalística a um jovem igualmente apaixonado pelo desporto, mas ainda iniciante nas lides da radiodifusão, Fernando Calanguinha, que se havia de tornar no primeiro redactor, depois editor desportivo da RNA. Em 1978 e proveniente do Lobito e do Huambo, onde havia caído exactamente nos trilhos de Carlos Pereira, tornei-me no terceiro a juntar-me àquele pequeno núcleo que iria dar origem à Redacção Desportiva da RNA. Ainda em 1981, mas por apenas um ano, reforçou-nos o Alfredo Ferreira (1981) e mais tarde, também fugazmente, o José Cunha (1982), que depois iria dar alma ao desporto na TPA.

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