Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Nova poca

19 de Julho, 2018

Pós-Mundial, Acto I

Tenho a dificuldade de chamar responsável a quem não toma medidas. Isso representa que tal não se importa. Não me parece responsável aquele que possa impedir algo, mas deixe suceder. E curiosamente, numa Era em que o Planeta ganha o conceito da responsabilização, haja ainda quem possa permanecer irresponsável.

Não é responsável aquele que dirige pensando apenas no seu mandato, no seu tempo, sem iniciar algo que possa apenas atingir o sucesso quando já estiver nas mãos de outro. Infelizmente esse é o pensamento da maioria aqui entre nós em Angola. Somos ainda povoados por ideias de que o que importa é o aqui e agora, sem nos motivar algo que seja feito a pensar no futuro do país como sociedade e nação, na sua economia e desenvolvimento.


Eu acho que vivemos ainda uma época em que não importa a qualidade da governação, nem haja necessidade de projectos além do projecto da permanência. E até me pergunto se é humano ainda assim, ou desumano, castrar a gerações seguidas o potencial da sua expressão, realização e alcances na vida.

Recordo quando em Angola fazíamos coro com os povos ofendidos – na época havia a Guerra Fria e crescia o Movimento dos Não-Alinhados a bloco algum em teoria – quando o Terceiro Mundo se rebelou com a designação diferenciada de Países desenvolvidos e Países não-desenvolvidos. Nós – e com toda a razão – clamávamos que não era correcto dizer-se Países não-desenvolvidos, mas, sim, Países em desenvolvimento.

Quarenta anos depois, não se fala mais de guerra fria nem de não-alinhamento, porém, continuamos à procura do desenvolvimento.

Quarenta anos depois, dizia eu. Nós talvez estivéssemos 12 anos adiantados, talvez - porque em doze anos pouco ou nada fizemos pelo real motivo que então havia. Mas era preciso renovarmos a cada 4 anos, esse gostinho real pelo futebol, parágrafo. Não é socialmente rentável usar o futebol apenas a prazo e como propaganda. De contrário, venham os paladinos da bola com poder de decisão e mostrem que entendem de futebol, a começar por perceberem as vantagens políticas e sociais do futebol.

Senão, vejamos agora a Croácia em pleno 2018, os excertos inteiros feitos à mensagem à sociedade croata, do seleccionador vice-campeão do mundo, Zlatko Dalic.

Acto II

“O seleccionador da Croácia, Zlatko Dalic, tem criticado a realidade social do seu país e o comportamento dos políticos. Em uma carta aberta publicada antes das celebrações em Zagreb, após o regresso da Rússia, o treinador exorta os políticos para não usar os sucessos da seleção em seu proveito e anunciou que os jogadores vão doar os prémios do Mundial (estimado cerca de 23 milhões de euros) para uma fundação infantil.

"Esta geração mostrou que um grupo de grandes jogadores pode atingir o pico global, independentemente da nação, do orçamento ou da importância do estádio”.Este é um excerto da carta de Dalic subscrita também pelos jogadores da Croácia, vice-campeões do mundo de futebol.

“Eu escrevo estas linhas por causa da situação difícil na Croácia. A Croácia é o país mais pobre da União Europeia [dos 28 países, é a terceira com o menor PIB per capita, com 11.700 euros, apenas atrás da Bulgária e da Roménia], governados por membros do que tem sido considerada como uma organização criminosa. A Croácia é um país do qual milhões de pessoas saíram nos últimos 20 anos. Hoje, na Croácia, os nossos aposentados [reformados, pensionistas] não são capazes de cobrir as suas necessidades básicas, os jovens não podem pagar a educação, a saúde está em colapso e o Judiciário protege o grande capital e é corrupto”, escreveu Dalic em seu nome e dos atletas também.

“Peço aos políticos e a todos os representantes das autoridades que levaram o povo ao inferno da miséria, do desespero e da pobreza, para ficarem longe da equipa nacional croata. Você não é bem-vindo ao nosso vestiário, não queremos tirar fotos ou lidar com você. Vocês são os que fizeram da Croácia as pessoas mais pobres da Europa. Temos crianças que nunca viram o mar, e a Croácia tem mais de mil quilómetros de costa [são 1.880]. Temos filhos que passam fome para dormir porque seus pais, desempregados, não têm o que dar para comer.

“As pessoas que fizeram isso ao nosso país não são bem vindas. (...) Toda a equipa informa que doará os prémios da Copa do Mundo da Rússia [23 Milhões de €uros!] a uma fundação para crianças croatas. Esta fundação financiará férias de verão para as crianças que nunca viram o mar Adriático. Os membros da equipa de futebol croata estão com o povo da Croácia e vão fazer o que puder para ajudar, além de vitórias. Todas as crianças croatas terão a oportunidade de passar pelo menos sete dias na costa croata. É o mínimo que podemos fazer pelos mais vulneráveis ​​", conclui o seleccionador e atletas da Croácia na sua carta aberta.

Acto III

Eu sei que o leitor se porá a interrogar como é possível ler isso depois de ter visto a Presidenta Klinda Grabar-Kitarovic conquistar o Planeta, tanto quanto a sua selecção. Klinda é uma excepção, admito eu. Mas confesso que a mensagem dos vice-campeões mundiais Croatas é uma sensibilização aos nossos políticos.

O futebol de Angola está no estado em que está e periga mais ainda porque não existe projecto nenhum que integre desporto e emprego, juventude e desporto, futebol e política, etc. E é uma pena, quarenta e tal anos depois...

Adiante, o Mundial não foi só a Croácia. Nem a ausência de Angola que se repete (e pode prolongar até 2030).

Acto IV

Já lhe chamam o Mundial do Var. Em repouso todos nós tivemos um sentimento de injustiça. A Croácia fez a despesa, mas a França venceu por 2-1, com apenas duas abordagens da área croata. Um auto-golo na cobrança por parte de Griezmann de uma falta que lhe haviam feito; o outro, por uma penalidade de mão, via VAR. Dois movimentos que deixaram dúvidas e discussões. Dalic viria a comentar que nunca se marca penalty assim, numa final...

Foi o Mundial da bola parada. O objectivo por bolas paradas determinou as partidas. Os treinadores fazem bem em trabalhá-los para isso e esta Copa do Mundo termina como um endosso a esse esforço. Houve uma percentagem maior de golos de bola parada, do que nunca na história.

Quando nos damos conta de que neste Mundial 43,19% dos golos vieram de bolas paradas, tal equivale ao dobro da Copa anterior. Se o futebol vai para a bola parada, então, o VAR deve vir em seu auxílio. Isso é uma franja solta ainda, em que a FIFA está agora a reflectir, depois de ver tanto objectivo em ‘set pieces’ ... de origem não revista no ecrã do quinto árbitro, ou vídeo-árbitro.

"Houve um efeito de Pep Guardiola sobre a estrutura das equipas, com e sem a bola. Na Copa do Mundo, havia muitas equipas que queriam obter a bola jogada, também muitos outros estilos diferentes de jogo, a bola parada foi muito importante; na Liga dos Campeões há um golo a cada 45 cantos, na Copa do Mundo havia um a cada 30. Eu acredito que o VAR influenciou as defesas nos cantos ", disse Andy Roxburgh, antigo treinador escocês.

No entanto, as equipas com mais posse de bola (Alemanha, Argentina e Espanha) caíram logo e os contra-ataques triunfaram mais. "Antes a posse de futebol foi importante, mas agora equipas como a Dinamarca, Suécia e Islândia têm dado luta e para combater isso é complicado. É muito difícil jogar entre as linhas. As equipas ofensivas precisam de repensar a forma de atacar. O futebol está a evoluir e torna tudo mais difícil. Agora você tem que pensar quantos metros jogar e quantos deixar de lutar atrás. ", sentenciou o táctico.

Um mundial de força física e contundência. No futebol do século 21, sem uma guarda pretoriana, os generais pouco podem fazer. Foi uma Copa do Mundo em que Cristiano, Messi, Neymar não marcaram significativamente. Foi uma Copa do Mundo em que a meritocracia foi toda para aqueles que defendem.

Terminou a estreia mundial do VAR, que apesar de estar meio-verde, tem o resultado final de que ele dá mais justiça. Terminou um Campeonato do Mundo marcado pelos pequenos comboios de marcação nas bolas paradas, um meio de poupar que surtiu efeito nos jogos que pareciam encalhados.

E nós, angolanos, será que aprendemos algo, será que tirámos ilação alguma e construímos uma lição, disso?
Arlindo Macedo




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