Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Ns entre grandes e pequeninos

25 de Abril, 2019
Os “Palancas Negras” continuam nas nuvens e só aguardam por saberem vão ter. E sem isso não será fácil poder antever até onde poderão chegar. Depois de o Vice-Presidente da República, Bornito de Sousa, ter felicitado os Sub-17 por lograrem colocar a bandeira do País no próximo Mundial juvenil, acredita-se que o Executivo vai estando com o desporto.
Não faz também muitos dias, outros jovens angolanos estiveram em cena. Entre eles havia uma particularidade, que era terem lá chegado à custa dos seus próprios pais. Não faz oito anos, a ginástica angolana também começava assim, à custa dos pais dos pequenos atletas. Serviu isto para chegar ao nosso paradoxo, uma dificuldade de decidir entre o benefício e o custo, para não levarmos o desporto apenas a brincar.
Desportistas individuais com margem de progressão internacional devem ser apoiados pelo Estado. Lutadores como Demarte Pena (MMA), que chegou a ser recebido pelo antigo Presidente, José Eduardo dos Santos, ou agora, Kiriana Neto, que se acaba de sagrar campeã mundial de jiu-jitsu brasileiro Sub-8, nos Emirados Árabes Unidos, tal como outro jovem angolano, Victor dos Santos, campeão mundial na sua categoria Sub-15.
Tudo isto tem uma envolvente muito mais séria e importante, que a banga. Tratam-se de carreiras quantificadas para sucesso, se o país for o primeiro a fazer caso disso. A campeões jovens e em progressão acresce dar um exemplo de perseverança na carreira, tal como agora faz a antiga judoca, Maria de Fátima ‘Faia’, que abraçou as MMA e entrou para o circuito da UFC, onde já alcançou o primeiro título regional. Ora, são estes atletas que clamam pelo bom senso nacional.
Como eles, existem atletas individuais na canoagem, vela e xadrez que merecem a atenção dos supra-gestores do desporto nacional, para que as suas carreiras de sucesso se possam elevar.Agora e no grau talvez mais apetecido, de todos, pode estar a aparecer o segundo angolano concorrente ao ‘draft’ da NBA, nos Estados Unidos. O extremo Sílvio de Sousa sucede, na tentativa, ao primeiro angolano ‘draftado’ em 2017, o também extremo Bruno Fernando, actualmente nos Maryland Terrapins.
Ora, estas gemas do nosso desporto parecem todas eles feitas à sua custa e das próprias famílias. Mas isso não lhes impede de se vestirem de Angola ou se identificarem com ela, ali para onde forem. Aos 44 anos de país, Angola já devia saber o que quer desportivamente e passar a agirem conformidade. Este país, desportivamente, não tem agenda; não nos falta muito para aprender no desporto, porém, mais do que saber fazer, importa começar-se a fazer.
Os activos desportivos de um país não merecem desperdício, pois a idade e margem de progressão não esperam. E se forem bem sucedidos, esses atletas serão sempre de Angola. Mas não a qualquer preço... Os craques angolanos de desportos individuais têm valor de mercado e devem ser vistos como valores do património nacional enquanto se tratarem de nacionais e valiosos para o país. Só esta visão e filosofia pode saber fazer do desporto angolano, um factor de desenvolvimento.
Vejamos alguns exemplos parecidos connosco. Burundi lutou tanto para alcançar o seu primeiro CAN, que conseguiu. Agora e feito o sorteio, os dirigentes do futebol daquele país centro-leste-africano trouxeram esta má noticia: o país não está economicamente preparado para poder participar na fase final! Noutra região interior do continente e sem qualquer rebuço, o Ministro dos desportos do Mali lançou pessoalmente uma operação de colecta de fundos para ajudar asselecções nacionais.
Angola vai conhecer a verdade se, nos próximos dias, os “Palancas Negras” forem postos na agenda do Executivo. A edição de 2019 da Copa das Nações Africanas será organizada pelo Egipto, que já sediou o torneio mais vezes do que qualquer outra nação do continente. Isso tem gerado burburinho e o professor de direito da Universidade de Kent, Alex Magaisa, lança o que diz ser uma luz sobre o que ele próprio chama de política do futebol africano.
“Uma reportagem sobre o novo Secretário-Geral da CAF chamou a minha atenção e desencadeou uma questão fundamental: existirá uma convenção no futebol africano em que o Norte da África detenha o monopólio dessa posição na CAF? “Eu observei que, desde 1961, o papel do Secretário-Geral tem sido compartilhado da seguinte forma: 1961-1982(egípcio), 1982-2010 (egípcio), 2010-17 (marroquino), 2017- 19 (egípcio); e 2019-????(marroquino).
“Têm sido o Egipto ou o Marrocos, e o resto contenta-se com papéis subordinados”, sublinha aquele universitário. “De facto, tem sido uma dinastia com os 3 egípcios que antes ocuparam o posto (um avô, o filho e o neto respectivamente): 3 gerações do clã Fahmy. Eu vejo que a federação do Egipto parece ter feito muito para apoiar a CAF desde o início, mas seria isso fonte de um endividamento continental?”, questiona-se o Professor.
“Como é que, num continente de mais de um bilhão de pessoas, um papel é compartilhado entre tão poucos? A ironia é que a CAF lutou bravamente pela inclusão africana no futebol mundial e, no entanto, a mesma mensagem não parece apelar a si própria. “Sim, só pode haver um Secretário-Geral da CAF de cada vez, mas o padrão desde o início não pode ser atribuído apenas a um acaso. Para adaptar um ditado comum, uma vez pode ser considerado acaso e duas vezes, coincidência, mas três vezes? Há nisso um padrão!”, argumenta Alex Magaisa.
A 12 de Abril, o Comité Executivo da CAF tomou decisões radicais, que incluem o despedimento do então Secretário-Geral, Amr Fahmy, por alegada má conduta, e anomeação de Mouad Hajji, até ali adjunto do primeiro, como novo Secretário-Geral da CAF; e realizar uma auditoria externa - organizacional e financeira. Não foram as únicas deliberações, mas ressalta dessas primeiras que o antigo secretário havia primeiro acusado o Presidente Ahmad de má governação, subornos, corrupção e assédio. Em Março, Ahmad veria declinado o seu visto de entrada nosEstados Unidos, para um concelho mundial da FIFA, em Miami.
Coincidentemente ou não, os EUA alegaram que o Presidente da CAF tem vindo a receber críticas crescentes dos seus próprios apoiantes em África, por um estilo de tomada de decisão cada vez mais autocrático. Como se sabe, os norte-americanos encabeçam uma luta titânica contra a corrupção que já levaram à queda da direcção da FIFA, de Joseph Blatter.
Esse estilo de Ahmad tinha antes ocasionado uma carta aberta do membro do Comité Executivo da CAF, Musa Bility, ex-presidente da federação liberiana, que questionou a autoridade de Ahmad para tomar decisões aparentemente unilaterais sobre a realização da Taça Africana de Nações, bem como sobre a ética em torno de um acordo para um novo patrocinador de apostas desportivas, cujas receitas se adivinham milionárias.
Outro membro do mesmo comité, Isha Johansen, de Serra Leoa, pediu de forma semelhante mais unidade africana e transparência na tomada de decisões da CAF. Tanto Bility quanto Johansen, foram defensores activos de Ahmad, durante a campanha eleitoral que o levou a derrubar Issa Hayatou, em 2017, do posto de Presidente da CAF. Isso levou a uma mudança radical da gestão da CAF, com Ahmad a definir como principal aliado, o Marrocos, confiando fortemente nos mesmos, mas não sem o prejuízo da perda do apoio inicialmente recebido do resto de África.
Com o declínio da influência egípcia na CAF, e o aumento muito rápido da influência do Marrocos, esta mudança está a causar uma preocupação pan-regional com os destinos da confederação, que passou a realizar as suas principais reuniões no solo marroquino, em vez da sede no Cairo. Das últimas decisões da CAF, salienta-se ainda a aprovação da criação de um comité de governança, porém, a nomeação do seu Presidente e Vice-Presidente deverá ser ratificada pela Assembleia-Geral da confederação.
Na sequência do concurso relativo à atribuição de direitos de transmissão televisiva terrestre para os países subsarianos, a oferta da União Africana de Radiodifusão (AUB) foi mantida, sob certas condições, para discussão entre as duas partes. Os telespectadores angolanos ficam assim na expectativa de um bom desfecho das negociações. O Comité Executivo da CAF aprovou ainda, por unanimidade, a decisão de aumentar a doação alocada a Associações Nacionais afiliadas, de 100.000 para 200.000 dólares. Foi igualmente aumentado o prémio em dinheiro para os 24 países participantes na fase final do CAN do Egipto.
O Comité Executivo também aprovou uma proposta do Presidente da CAF para a organização do Fórum de Governança para Associações Membro em Abidjan, na Costa do Marfim, em Outubro de 2019. Para os clubes angolanos, que não respeitam ainda as normas de auditoria e prestação anual de contas, como a CAF e FIFA recomendam desde 2005, será importante ir a Abidjan saber se a paródia financeira vai poder continuar.
Entretanto, o VAR poderá apresentar-se no CAN do Egipto, segundo admitiram fontes próximas do gabinete de estudos técnicos da confederação. Antes disso, todos os árbitros seleccionados para o CAN do Egipto serão primeiro submetidos a seminário, no Marrocos. A terminar esta crónica deixo uma menção honrosa à selecção de hóquei em patins de Angola, que alcançou em Montreux, na última semana, o quarto lugar entre os cinco maiores contendores mundiais da modalidade.
Não havia memória anterior de algo tão elevado na modalidade, começando pela vitória sobre a antiga campeã mundial, Espanha, o que augura boas expectativas para o campeonato do mundo. Claro, lá estaremos, naquela base: entre grandes e pequeninos, não levar Angola para fazer figuras tristes. Arlindo Macedo

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