Jornal dos Desportos

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Opinio

O adeus do "Canhoto"

14 de Novembro, 2015
Na estrada da vida, o ser humano protagoniza feitos ao redor de qualquer causa colectiva ou individual, que pela dimensão e grandiosidade, torna-se difícil encontrar adjectivos para os caracterizar.

Gilberto Amaral, o “canhoto capitão”, despediu-se recentemente dos relvados, depois de cerca de duas décadas ter contribuído com o seu saber e humildade para o desenvolvimento do futebol angolano, ajudando a levar para o patamar em que se encontra, pelo que é digno e merecedor de ser venerado por todos os compatriotas e não só.

É inquestionável que os seus feitos, sem olhar a meios, fundamentalmente no período conturbado que o país passou, no final da década de 90 e em princípios da primeira década de 2000, que nos escusamos de referir, estão ligados à projecção e divulgação do nome de Angola, além - fronteiras.
A sua passagem pelo futebol egípcio, onde durante algumas épocas impôs-se ao serviço do Al Alhy do Cairo, um dos maiores clubes do continente africano em termos competitivos, desportivo, organizacional, massa de adeptos e de infra - estruturas, confirma o que atrás se descreve.

Depois de ter marcado uma época no Petro de Luanda, onde depois de ser formado pelo “mestre” Carlos Queiroz”, aos 17 anos de idade foi lançado na equipa sénior petrolífera pelo então treinador Jorge Ferreira (brasileiro), num “derby” do futebol nacional com o 1º de Agosto, naquele país árabe, não obstante as convulsões de ordem política e social que se faziam sentir, devido as chamadas “primaveras árabes”, em que é difícil qualquer estrangeiro impor -se dado o nível competitivo elevado e organizacional do seu futebol, mas também às questões de âmbito cultural, totalmente diferentes da África ao sul do Sahara, o “canhoto”, para além de se ter transformado no “menino bonito” dos cerca de 23 milhões de adeptos do Al Alhy, amealhou uma série de títulos colectivos e individuais.

Entre outros, foi considerado por mais de uma vez, o melhor estrangeiro a actuar no futebol egípcio. Conquistou vários títulos nacionais, três vezes campeão africano de clubes e várias Supertaças, facto que permitiu participar em três campeonatos mundiais de clubes.

Gilberto passou igualmente, pelo futebol do Chipre, onde representou o Limassol (1ª liga) e da Bélgica onde jogou pelo Liércie (1ª liga), integrou aquela que ficou conhecida como a “geração de ouro” do futebol angolano, que em 2001 venceu o “Africano de Sub-20” da Etiópia e participou no mesmo ano, no “Mundial” que ocorreu na Argentina.

Constam ainda, na brilhante “folha de serviços” do atleta, que jogou como lateral esquerdo, médio ala esquerda e “pensador” de jogo, alguns títulos de campeão nacional das camadas jovens e de seniores pelo Petro de Luanda, com quem venceu algumas Taças de Angola e Supertaças. Fez parte da seleção de Angola, que em 1999 venceu a COSAFA, prova destinada aos países da África Austral.

É certo, que uma significativa franja de pessoas, é de opinião que as homenagens são relativas, não deixa de ser verdade que pelos seus feitos em prol do desenvolvimento da modalidade e pela acção social que desenvolve(u) no seio da juventude, sector do qual se constituíu em ídolo de alguns jovens e adolescentes, merece ser alvo de algum reconhecimento.

No âmbito da sua simplicidade e humildade, recordamos um facto que nos marcou pela positiva, quando em 2009 em serviço na cidade do Cairo, capital do Egipto, com cerca de 174 quilómetros de extensão (a mesma que separa Luanda à cidade do Dondo, no Cuanza-Norte) e cerca de 50 milhões de habitantes, para efectuarmos a cobertura de uma missão do Santos FC, nas competições da CAF (Confederação Africana de Futebol), Gilberto no meio da turbulência do trânsito que se assemelha ao de Luanda, fez questão de deslocar-se para junto dos seus compatriotas a fim de os encorajar e colocar ao corrente acerca do futebol árabe e das vivências egípcias.

Esse tipo de homens com 'H' grande, que ao contrário do que sucede e é usual em circunstâncias idênticas, continuam a primar pela simplicidade no relacionamento com as pessoas de qualquer extracto social, a evidenciar que a fama, os louros e a sua condição financeira não “subiu à cabeça”, e constitui exemplo positivo para os homens e mulheres de todas as idades, é merecedor não só da consideração e respeito, mas de todo o tipo de veneração dos angolanos e não só.
Leonel Libório

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