Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O atrevimento do Desportivo da Hula

26 de Janeiro, 2019
O suposto “atrevimento” do Clube Desportivo da Huíla liderar o Girabola Zap 2018/2019, numa altura em que se apresta a terminar a primeira volta da prova, não pode, nem deve ser encarado como acaso. Deve, isso sim, ser visto como fruto de um trabalho estruturado e bem planeado, que tem levado a que os rapazes de Mário Soares consigam exalar o perfume do seu futebol e, em consequência, somar os pontos que lhe permitem, nesta altura, estar no pelotão da frente.
Naturalmente que, em tudo isso, conta igualmente a sagacidade, a sorte, a resiliência e a crença. Tem sido essa a mensagem, que o técnico Mário Soares incute aos seus pupilos no sentido de, a cada jogo, encararem com seriedade e dentro de uma competitividade que consegue impelir à sua equipa que, aqui e ali, supera os seus adversários, somando pontos sucessivamente.
Verdade seja dita, os militares da Região Sul, como também são conhecidos, mesmo com uma pré-temporada atípica, como de resto tiveram todas as equipas concorrentes, conseguiu tirar o melhor partido destes quesitos e relançar-se na competição. A fórmula inicial e acredito que até agora tem sido essa: ganhar em casa e pontuar fora.
Foi assim que Soares e pupilos conseguiram se guindar na tábua de classificação e manterem “pendurados” lá em cima, quão lebres, estorvando a concorrência, como que guardando lugar de alguém…
Deste jeito, o Clube Desportivo da Huíla, como já o disseram em bastas ocasiões os seus dirigentes, não pretendem ser campeões, querem apenas salvaguardar um lugar ao sol e fazerem a época de sonhos. Quiçá até, almejarem um lugar para as competições africanas, onde já estiveram em 2014.
Para alegria de muitos, o campeonato ficou com uma pitada diferente. A pitada de um “outsider”, que se “atreve” a alcançar os lugares cimeiros e até a liderar a prova. Um campeonato cheio de vicissitudes onde quase tudo acontece, desde as faltas de comparências, as remarcações de jogos de forma abrupta, equipas com dificuldades mil, no ponto de vista financeiros para honrarem os seus compromissos, enfim, com greves pelo meio e tudo mais. Porém, é este o nosso campeonato. É precisamente este, o nosso Girabola Zap 2018/2018.
Em relação à outras evoluções, temos visto de facto, um Petro de Luanda ascendente e, por incrível que pareça, um 1º de Agosto descendente.
Os sucessivos empates do campeão nacional e as alegres vitórias dos petrolíferos do Catetão acabam por inverter as tendências do ano passado, em que os militares estavam na mó de cima e (...) na moda. Hoje, porém, a realidade é outra.
Apesar de atípico, o campeonato decorre mesmo com mil e uma dificuldades para as equipas intervenientes. Os casos flagrantes são os do Progresso do Sambizanga, Académica do Lobito, Saurimo FC e outras que, de certeza, irão começar a chorar como fazia o Leão de Cabinda que, de momento, recebeu alguns “biberões” e parou um pouco o seu choro amargo e persistente. As classificações desses intervenientes justificam bem o imenso sacrifício que fazem para, jornada após jornada, estarem presentes nos jogos marcados. Hoje, equipas há que palmilham as estradas do país (infelizmente a sua maioria em estado paupérrimo) para conseguir estar a tempo e hora no local do jogo. Sair de Saurimo para Luanda ou Benguela, de autocarro ou comboio é extremamente duro.
Mas, temos que perceber que é precisamente isso, que estava a reservar o futuro para quem não soube cuidar e prevenir-se da sua chegada. Num passado recente, o esbanjamento e a falta de planificação estratégica foi “moda” de muitas agremiações que, perante “vacas gordas”, davam largas à sua alegria efémera e não ousavam poupar os recursos disponíveis, nem tão-pouco investir.
Hoje, infelizmente, as coisas inverteram. As “vacas” emagreceram e não há “gorduras” para ninguém. Apesar de o campeonato ser uma realidade, temos que admitir que, até a conclusão da época, muita tinta irá correr por debaixo da ponte. Ou seja, muitas equipas continuarão a ter à mesa, “pão amassado pelo próprio diabo”. Serão imensas as dificuldades que terão, para sustentar os plantéis com salários regulares para os atletas, cumprindo as questões contratuais, os prémios de jogo, a salvaguarda do pessoal administrativo, enfim, a sustentabilidade de toda a engenharia para manter a equipa no rumo certo. Tudo isso incorpora custos marginais, que só poderão ser superados com uma gestão parcimoniosa.
Enfim, a grande satisfação é que o nosso campeonato continua a evoluir de maneira fogosa, com bons “trumunus” e com o “atrevimento” do Clube Desportivo da Huíla, no pelotão da frente. Bem-Haja!
Morais Canâmua

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