Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O calvrio dos jogadores

28 de Julho, 2015
Ser jogador de futebol, é uma profissão de sonho, para a maioria das crianças. É verdade que são poucas as que atingem esse objectivo, mas menos ainda alcançam o estatuto de profissionais. Apesar dos salários elevados, que acompanham a ascensão no mundo da bola, a maioria enfrenta problemas financeiros, quando pendura as botas.

A série de problemas, com diferentes características, reacende um tema pouco abordado no dia a dia do futebol nacional e não só: até que ponto, os atletas são preparados para o pós-carreira? Por que têm tantas dificuldades para encontrar nova profissão? Como caminhar da fama ao anonimato, sem tantos percalços? A falta de respostas à essas perguntas, ajuda a explicar o porquê dessa espécie de calvário que muitos atravessam.

A carreira de um jogador de futebol, de basquetebol, andebol ou de uma outra modalidade, envolve a competição, a concentração e os treinos. Todos devem ter uma vida regrada e isso, não é comum a todas as pessoas.

Aos 30 anos, quando todos estão a começar a vida, eles estão a enfrentar o final da sua carreira desportiva. É preciso impor-se e reorganizar tudo isso. No final da carreira, não é só uma mudança de profissão, mas de identidade. É preciso separar o personagem que foi até então, para ser o cidadão comum. Infelizmente, alguns jogadores não se controlam e acabam de forma estranha.

Nem todo o jogador de futebol guarda “um pé de meia” para viver após o fim da carreira desportiva. Todos sabemos que dinheiro não é e nunca foi problema para os jogadores de futebol. Diz-se na gíria, que o que eles ganham, mensalmente, um cidadão normal jamais ganha a vida inteira.

No nosso país existem vários atletas, que ganharam mundos e fundos, e hoje, vivem na solidão, sem eira nem beira. Não souberam gerir os fundos que tinham. Alguns deles contribuíram para a solidificação da modalidade, no país, mas não encontraram o respaldo, da parte de quem de direito.
Um destes casos, está a viver o antigo internacional angolano, Eduardo Laurindo da Silva, que hoje está “entrincheirado” no bairro Camazingo, na cidade do Lubango.

“A vida é muito dura para nós. Vivemos aqui, em péssimas condições, sem ninguém se lembrar dos antigos feitos. Vivemos, por milagre, nesta reles casa (…)” conseguiu desabafar Laurindo, com uma lágrima no canto do olho, cuja entrevista ao Jornal dos Desportos, foi inserida na edição do passado dia 9 do corrente.

Aos 23 anos, em 1967, o Belenenses, foi o destino do jovem prodígio. No Clube da Cruz de Cristo, chegou, viu e venceu. Durante cinco épocas, fez as delícias dos adeptos e fãs nos relvados de Portugal e da Europa. O Futebol Clube do Porto foi o destino a seguir, depois das valiosas prestações com a camisola dos Belenenses Futebol Clube, onde permaneceu três épocas, ao lado de grandes nomes do futebol português na altura, como Oliveira, Fernando Gomes, dentre outros.

Em 1976, regressou a Angola, integrado na caravana “Havemos de Voltar” conjuntamente com outros futebolistas, que na altura evoluíam na diáspora, como Domingos Inguila, João Machado, Benje e outros.

Contrariando todas as expectativas, Laurindo vive hoje graves dificuldades financeiras, apoiado na família que o viu partir, ainda criança, para cumprir o sonho de jogar futebol profissional em Portugal. A falta de dinheiro leva o antigo treinador do Progresso a uma desesperante espera.

Mas não é o único caso no nosso país. Há outros exemplos de jogadores, que deram tudo de si, em prol do nosso futebol e hoje estão no anonimato. Ninguém conhece os seus paradeiros!

Maus investimentos, litígios familiares, ausência de formação para enfrentar o pós-futebol, são núcleos que ajudam a explicar a “queda” de muitas vedetas do nosso desporto. O Sindicato dos Jogadores e da Associação de Treinadores de Futebol, recentemente remodelada, acabam por ser o apoio, em recurso aos muitos reformados da bola, homens que têm grandes dificuldades em descobrir um novo espaço na sociedade.

Um estudo feito por mim, demonstra que na Inglaterra, três em cada cinco futebolistas do campeonato inglês declaram falência, cinco anos depois de terminarem a carreira. No nosso país, onde os salários são inferiores, são seguramente muitos mais.

As nossas autoridades desportivas deviam fazer algo para acudir e ajudarem os desportistas, que por este ou aquele motivo, não souberam gerir de forma eficiente as carreiras depois de se aposentarem.
Até terça-feira.

POLICARPO DA ROSA

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