Jornal dos Desportos

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Opinio

O Campo de So Nicolau em dois momentos: as artes cnicas e o desporto como tubo de escape

29 de Janeiro, 2018
O presídio de S.Nicolau era dos locais mais sinistros que o regime colonial usava para deportar os nacionalistas angolanos, vítimas das torturas mais abjectas e dos fuzilamentos em série, muitos dos quais nunca mais voltaram às suas casas, reaver parentes, vizinhos e amigos, tendo pago com a vida por se baterem pelo justo ideário libertário. Alguns destes heróis pagaram com a passagem pelas brasas ardentes de um crematório, numa incineradora à moda fascizante das câmaras de gás nazi.
Este é o retrato real e objectivo que se colhe da leitura do livro de memórias, intitulado “S.Nicolau antes e depois”, da autoria de João Neves Eduardo Lolwelw ( Filho Sofrido), herdeiro de um grande nacionalista já falecido e que foi aí presidiário largos anos em companhia da família, de sua graça Bolwele João , mais conhecido por “Velho Formiga” ou “Kifuetete”, que afrontava o truculentoo Lima, Tiramanta e outros tantos sanguinários, cantados por Elias Dia Kimuezu, em seu próprios domínios barbaramente coercitivos, com manifestos subversivos à mistura, reafirmando a incontornável causa independentista. O que não era pouca tripa!...
Mas nem tudo se esgota no incomensurável e inenarrável sofrimento horrendo que era imposto pela vetusta máquina repressiva colonial, sobravam raríssimas oportunidades para o espaço do lazer, conforme testemunha o autor em dois momentos, através da prática das artes do espectáculo ( música, dança e teatro), bem como do desporto, sobretudo do futebol.
1º-momento: F. Sofrido conta-nos que o convívio natural entre co-sofredores “gerou um ambiente salutar entre presos celibatários, mas animados de bons sentimentos e a pugnarem pelo matrimónio e não só”, acrescentando que “os grupos de danças folclóricas liderados pelos professores Bica e bamba facilitaram esse entrosamento. Do convívio salutar entre grupos (sóicio-culturais) surgiram namoros que se constituíram em famílias pelo resto da vida.” Destacando-se entre as distintas bandas musicais, o solista Mussa, os vocalistas paixão Franco e Manuel Bamba, sem esquecer os grandes “mestres de baile”, Araão Nguengo e Honorato Landu ( que viria a ser, com a adopção do multipartidarismo em 1991, líder do PLDA e mais tarde embaixador itinerante), bem como os conjuntos Ngomas e Jiholokoko, para gáudio da audiência.
No que se refere ao teatro, o nosso autor documenta que “ o saudoso Adolfo João Pedro ( que viria a ser juiz do TPR no pós-independência) fazia parelha com a Paulina Manzambi Cuco”, observando que “Contrastavam pela altura, o que contagiava de risadas os espectadores com momentos agradáveis.”
2º- momento: os poucos monetos de diversão no tenebroso campo de S.Nicolau era repartido não só entre a danºa e o teatro, mas sobretudo pelo Desporto, designadamente o futebol. Filho Sofrido recorda que “Muito antes de ser organizado o desporto praticava-se o futebol, com a bola feita de meias e de um líquido viscoso, branco e elástico, extraído dos ramos de certas árvores e enrolado em papéis embrulhados em forma de esfera”, enfatizando que “Quando S.Nicolau começou a sofrer um povoamento maciço de presos, criaram-se grupos desportivos”, com nomes declacados das equipas que evoluíam no futebol português e não só, tais como Académica,Benfica, Sporting, Porto e Juventus ( esta última italiana), compreendendo a zona da fazenda. No Tomé as equipas eram Belenenses e Desportivo do Tomé, enquanto que nas salinas existiam os clubes Salgueiros e Beira-mar, esta última treinada pelo técnico Colombo. Ao total aunto quea área das salinas. Ao total eram 8 equipas, o que já dava para anima um campeonanto, com os contendores a dispurem as partidas entre si, mais do que um evtentual quadrangular de todos contra todos na fazenda, onde haviam quatro equipas, metade das que existiam na cadeia.
O nosso servidor lembra que o baixinho Pedrito do B. Mar tornou-se “preso afamado pela sua habilidade futebolística, aplicava fintas e toques a cabrito aos adversários; o lateral esquerdo do B.Mar , era Pedro Van-Dúnem, não esquecendo Terra, ponta de lança com os seus fogosos remates, bem como Roberto Brooks de Sousa e Santos, Carlos Francisco(Kalifa), Simão António da Silva (Reis), todos imbuídos de cultura desportista, salutar do ponto de vista físico e mental, passatempo que animava o olhar cintilante dos colonos.” O nosso depoente destaca que “embora adolescente fazia também poarte do trumununo no seio dos makotas ( mais velhos); os portugueses trocavam olhares e opiniões acerca do jogo jogado localmenet e em Portugal.”
F.Sofrido invoca : “quem não se recorda do velho Cuco, presidente do Porto, dada a sua forma de ser, tido como excelente e fantástico humorista no seio da colectividade”, pontualizando os remates feitos com muita força e ânimo por “ João Ebo Manual António, mais conhecido por Ebo, o seu remate não alcançava mais do que dez metros de distancia, o que provocava risadas no seio da malta amante do desporto; os remates do Tumba Tumba, das fintas; do kaissara comentados entre os espectadores; dos dribles , onde se evidenciavam as mestrias dos putos daquele tempo, João Neves, Loth filho,” entre outros craques entre os presidiários e seus herdeiros. O nosso protagonista faz apelo não só as virtualidades futebolística dos co-sofredores, como das brutalidades em pleno jogo dos coetâneos Orlando Simão António e do nosso falecido colega Simão Roberto Suzama, que não sabiam jogar a bola de trapos improvisada.
Enfim, mas a alegria dos desgraçados dos presidiários, como de qualquer pobre despojado da sua dignidade humana em qualquer rincão do mundo onde existam “deserdados da terra”, dura(va) pouco tempo, mais precisamente nos dias que sofriam retaliações, quando havia notícias de que os “irmãos cambutas” infligiram derrotas atrás de derrotas à tropa tuga, nomeadamente nas matas dos Dembos, do Mayombe ou da Frente Leste, em virtude da generalização da luta armada de libertação nacional à escala nacional, a partir da segunda metade de década de 6o, -Lima e seus comparsas vendo os seus privilégios de classe de colono de “ barriga grande que lhe fazia prosperar”(glosando o poeta A. Jacinto) a desagregarem-se, dada a progressão irreversível da luta armada travada pelos nativos contra os colonizadores-, epopeia que culminou com a Revolução dos Cravos e a libertação dos presos políticos que defendiam a Causa independentista nos próprios domínios da sua brutal força repressiva: o campo de S.Nicolau e Ca. Ltda.
NORBERTO COSTA

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