Jornal dos Desportos

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Opinio

O CAN e os antipatriotas

01 de Julho, 2019
Em 2003, há 16 anos precisamente, fui o enviado especial do Jornal de Angola aos Jogos Panafricanos de Abuja, Nigéria. Uma greve naquela cidade, na sequência do aumento do preço de combustível deixou as caravanas todas sem transportes na Vila Olímpica. Para fazer chegar as suas selecções aos recintos nos quais iam jogar, diversas delegações alugaram táxis. A nossa selecção de xadrez, com Adérito Pedro, Eugénio Campos, Aguinelo Amorim e outros, discutia a medalha de ouro, e perdeu a hipótese de a conquistar por falta de comparência. Ou seja, porque a delegação angolana não foi capaz de alugar um táxi, custava menos de três mil kwanzas. O Estado havia aprovado um orçamento de cerca de quinhentos mil dólares para àquela competição, e apesar disso Angola perdeu por falta de comparência. Como estava no hotel e me apercebi da notícia, claro que publiquei a tal negligência e a respectiva consequência: perca do título. Em Luanda, a notícia suscitou muitas reacções tal como em Abuja. Reunião de emergência no Hotel Sheriton no qual estavam hospedados o ministro e o seu vice da altura. Do encontro resultaram ameaças de que não ia regressar no mesmo avião, que tinha sido fretado com o dinheiro do Estado. Respondi na hora aos senhores, que eu estava em serviço (exibindo o passaporte verde) e o dinheiro era público. Daquele dia até terminar a competição, eu era a ovelha negra do grupo de jornalistas presentes em Abuja. Antes do meu nome, ganhei um prefixo: antipatriota. Em 2006, há 13 anos, novamente enviado especial do Jornal de Angola ao Egipto, para cobertura do CAN. Tinha estado com os Palancas Negras em Espanha, durante 15 dias de estágio e de preparação. No decurso daquele período, a equipa nacional fez uns jogos de preparação com umas equipas alemãs como o Herta de Berlim do Nando Rafael, e o Gilberto, de quem se suspeitava uma lesão, foi utilizado, por autorização do médico da selecção. Na véspera do CAN, os Palancas defrontam Marrocos em Marraquexe e Gilberto lesiona-se. Na hora de saber quem ia tratar do jogador, a FAF lavou as mãos. Gilberto à época era jogador do Al Ahly do Egipto. Soube da informação, e publiquei o abandono do Gilberto. Outra confusão. Outra vez, voltei a ser antipatriota. Jornalista que queria destabilizar o grupo de trabalho. O seleccionador nacional deixou de falar para mim, não aceitava responder as minhas questões na conferência de imprensa, e quando o fizesse, era de maneira inamistosa. Treze anos depois, os nossos colegas que cobrem o CAN do Egipto ganharam o mesmo prefixo. São antipatriotas por estarem a noticiar factos. E os factos são que a FAF é má gestora de crises. Por conta disso, os Palancas Negras ficaram um dia sem trabalhar durante o estágio, e ainda assim os jornalistas são os antipatriotas. Ou seja, o patriota é quem suscita a crise, e nós que a tornamos público é que não somos. Jornalismo é informar com verdade, sobre todo os factos de interesse público. Qualquer coisa diferente disso, pode ser propaganda. E esta, não é feita por jornalistas.

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