Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O cancro do futebol

21 de Abril, 2018
O futebol, para além de ser o que é, no ponto de vista desportivo e social, tem virtudes mil que o tornam no desporto rei cá entre nós e, por via disso, arrasta multidões e inflama paixões. Por outro lado, para os que estão directamente ligados com toda engenharia do futebol a coisa não parece ser tão linear assim.
É que no seu submundo, o futebol encerra situações tão embaraçosas, muitas das quais, chegam a provocar dúvidas ao próprio diabo, já que, tal como se diz, quando a gorgeta é demais, levanta desconfianças. Infelizmente, e isso mesmo a nível de outras paragens, a corrupção no futebol acaba por ser um mal que corróe o tecido futebolístico, abrangendo na maior parte dos casos, os clubes, os treinadores, atletas e.... árbitros e com isso, a falsificação de resultados.
Esta na verdade, é uma doença crónica com que se debate o futebol. É preciso ensaiar para já, formulas para irradicá-la e, a partir dai, banir os corruptos e corruptores e construir um edifício futebolístico sem mácula e longe deste cancro maligno.
Depois de há algum tempo atrás Horácio Mosquito ter vindo à terreiro e falado alto e abertamente sobre corrupção no nosso futebol pensava-se que a partir daquela altura, tudo mudaria. O que se assistiu a seguir foi uma romaria de medo e cobardia, deixando Mosquito picar a sua própria bóia, no alto mar. Ou seja, quando se adivinhava que o futebol nacional daria um salto de qualidade rumo à transparência que se reclamava, eis que, ninguém assumiu entrar no coro que Mosquito fazia, acabando este sem véu e \"afundado\" nas águas da amargura dos que insistem neste caminho.
Aqui, o estranho é que, cá entre nós se torna difícil assumir que haja corrupção. A resposta é sempre linear e rápida: se há corrupção é porque existem os corruptos e corruptores. Em bastas ocasiões quase se levantaram casos flagrantes mas, todos eles terminam no silêncio. Ou seja, tornam-se mediáticos mas, depois, caem no saco do esquecimento.
Naturalmente que os mais fortes acabam por mover cordelinhos na sombra para abafar este ou aquele caso que não joga com os seus interesses. Muita tinta já escorreu por debaixo da ponte por conta desta matéria mas, infelizmente, ou as provas não aparecem ou são insuficientes para se puderem tomar as medidas em conformidade com os preceitos legais.
Há dias, fomos surpreendidos com mais um caso de suspensão da árbitra de primeira linha, Maximina Bernardo por, alegadamente ter sido corrompida para prestar favores ao Benfica de Luanda num jogo entre esta equipa e o Sporting de Cabinda, isso referente ao Girabola 2014. O Conselho de Disciplina da FAF, por aquilo que foi amplamente noticiado, puniu a suposta prevaricadora com três anos de suspensão, sem contudo ter instruído um competente processo para averiguar as causas, em face das informações produzidas supostamente pela direcção do clube encarnado da capital. Ora, aqui parece que as coisas não batem pelo certo. A ciência do Direito ensina que todo suposto prevaricador, enquanto cidadão e coberto pela Constituição e leis asssessorias, observa-se-lhe o princípio da presunção da inocência até que o caso passe em julgado e isso, em última instância.
No caso vertente, o Conselho de Disciplina da FAF parece não ter nem sequer ponderado essses aspectos básicos e partido, unilateralmente para punição desastrosa, como havia feito há dias com os técnicos Agostinho Tramagal, do 1* de Maio e Simão Paulo, técnico de guarda-redes no F.C. Bravos do Maquis e, ainda com o vice-presidente da própria FAF, Adão Costa. Há aqui de forma bastante visível, um atropelar de normas elementares que podem levar ao descrédito uma estrutura cuja funcionalidade deve regular o andamento e a evolução operacional do Girabola e outras competições sob alçada do órgão reitor do futebol nacional.
A Senhora Maximina Bernardo acaba agora punida, antes mesmo de ser \"julgada\" porque, em meu modesto e humilde entender, ela teria que ser ouvida mesmo com as alegadas evidencias que o Conselho de Disciplina diz ter. Por outro lado, volta-se à velha questão: se há corrupta, tem de haver corruptor. Ou seja, se se diz que há provas concludentes no caso de Maximina Bernardo que é genericamente acusada de ter recebido cerca de Um Milhão e poucos de Kwanzas, terá que haver quem fez entregou do valor à árbitra. Este sim, é o corruptor.
E agora pergunta-se: quem é? Porquê o Conselho de Disciplina não divulgou o nome do dirigente encarnado que eventualmente terá entregue o valor à árbitra?
Ao ser assim, ao tentar escamotear um dos parceiros da \"negociação\", o Conselho de Disciplina agiu de forma parcial e feriu a verdade dos factos, comprometendo a árbitra Maximina Bernardo cujo percurso nos anos que acumulou com apito na boca é, até certo ponto notável. Além disso, tendo o caso decorrido em 2014, salvo erro, porquê apenas agora se despoleta? Parece que, também aqui, existem algumas incongruências que decorrem do facto do mesmo caso, sua natureza e consequências terem prescrito em função do tempo em que teve lugar e o tempo que se trás à tona.
A conceituada árbitra já alegou que não aceita a suspensão e que irá recorrer noutras instâncias procurando a verdade desportiva, já que ela aponta os mesmos \"vícios\" que aqui tentamos explicar. Ainda que Maximina Bernardo venha a ser considerada culpada o que se exige, efectivamente é que o processo seja conduzido com lisura, franqueza e com bases assentes no direito, para que tudo se esclareça. Naturalmente, como poderão compreender os leitores, este não é seguramente o único caso visível de corrupção no nosso futebol.
Tenho dito!
De certeza que os há aos montes mas, infelizmente, ninguém consegue provar por A+B. Afinal, quem são os corruptos e quem são os corruptores? Será a corrupção no nosso futebol, um mal necessário? Temos que agir. A realidade impõem que nos unamos para combater este mal que pode afundar o nosso futebol e provocar consequências maléficas insustentáveis.
Os indícios que se revelam mostaram que amiúde, a corrupção se manifesta aqui e ali, pelo que, em nada nos adianta, taparmos o sol com a peneira, como soe dizer-se. Devemos encarar a realidade de frente. Em nada valerá fazermos com a avestruz que, diante de verdades cruas e nuas, coloca a cabeça na areia...
Tenho dito!
E tenho quase a certeza que, neste andar de se enveredar um combate sério às más práticas, muita coisa virá ao de cima e oxalá aí, possamos ter a felicidade de ver juntos e de mãos dadas, os corruptos e corruptores, porque na verdade eles são como gémeos seameses com um único coração e estômago.
Ao Conselho de Disciplina da FAF auguramos que alcance o discernimento que se põe e que não se precipite no julgamento dos casos. Tenha sempre a percepção que as matérias do futebol têm de ser resolvidas em sede do futebol mas apelando sempre a universalidade do âmbito. No fundo, o direito não pode, nem deve parecer estar torto.
O nosso futebol precisa de dirigentes, treinadores, atletas e árbitros sérios. Comprometidos com a causa. Patriotas. Dignos. Com escrúpulos. Honestos e justos. Precisa, de homens bons. Com futebol no sangue. Ai sim, todos os riscos da corrupção se diluem e vem ao de cima o resultado justo e a verdade desportiva.
Tenho dito!
MORAIS CANÂMUA

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