Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O clamor dos cones

28 de Julho, 2015
Há dias, comovi-me ao ler numa das edições deste jornal, uma matéria à volta do abandono a que está votado Eduardo Laurindo da Silva ou simplesmente Laurindo, que em abono da verdade, é uma referência obrigatória do nosso futebol.

De facto, chamou-me a atenção a abordagem feita pelo jornalista Morais Canâmua, meu amigo e compadre, a quem reconheço grande tributo ao ofício e particularmente ao diário de informação desportiva.

Aliás, o Canâmua, faz parte de um grupo de figuras ligadas a este diário, em que me inspirei quando comecei a actividade jornalística, em 1995, na Huíla. Do leque constam ainda, o actual director-adjunto, Policarpo da Rosa, com quem tenho partilhado esta rubrica “A duas mãos”, Victor Silva, hoje administrador não executivo das Edições Novembro, Fontes Pereira, o malogrado Gil Tomás, só para citar alguns.

O clamor, que o “meu velho camarada” Canâmua se referiu a Laurindo, levou-me a sugerir ao director Policarpo que na abordagem de hoje, centrássemos a nossa opinião em torno de figuras que muito deram ao futebol e que estão votadas ao abandono.

Como ex-craque, Laurindo estreou-se no FC do Cunje, Bié, passou depois pelo Vitória Atlético Clube até alcançar o profissionalismo, em Portugal, na verdade muitos são os ícones do desporto-rei no país que estão no “esquecimento”.

Ex-jogador do Clube da Cruz de Cristo, o Belenenses, FC Porto e Beira-Mar FC, de Portugal, é um exemplo da desatenção de que são alvo muitas outras estrelas, que ajudaram a elevar o nome do futebol angolano dentro e fora das nossas fronteiras.

Hoje, como já se tornou hábito, não só no futebol como em outras esferas da sociedade, as pessoas são reconhecidas, maioritariamente, à título póstumo.

Um exemplo vivo é o de Domingos Adriano “Minguito”, malogrado futebolista, que ao serviço do Vitória Atlético Clube do Bié apontou o golo inaugural do Girabola, nome por que é conhecido o Campeonato Nacional de Futebol da I Divisão no país.

Minguito ou “Tio Minguito”, como também era apelidado nas lides do futebol bieno, ficou com o nome gravado nos anais do futebol nacional, por apontar o tento inaugural da maior prova do desporto-rei no país. Corria o ano de 1979 e foi diante da Académica do Lobito, equipa da província de Benguela.

Na verdade, é de louvar a iniciativa da Associação dos Amigos do Reggae de Angola (NARA), que em parceria com a Associação Provincial de Futebol (APF) do Bié e da Emissora local da Rádio Nacional de Angola (RNA), homenageiem o ex-atleta.

A homenagem à título póstumo, a Domingos Adriano, que acontece em Agosto, com a promoção por essa organização de uma prova de futebol infantil, denominada Taça “Cidade do Cuito,” tem um valor incomensurável. Deve reconhecer-se isso.

A disputa dessa Taça, enquadra-se nos festejos da cidade do Cuito, que assinala a 31 de Agosto, 80 anos da sua existência, devia ser concebida pelas estruturas ligadas ao desporto e ao futebol, em particular, enquanto o homem estava em vida.

Era muito mais sensato, para que o próprio jogador sentisse no peito, a honra de ver os feitos reconhecidos por quem de direito.
As lendas devem ser reconhecidas, enquanto no activo e não à título póstumo, como ocorre com frequência em Angola. Penso que o reparo não é, simplesmente, feito ao futebol e ao desporto, mas a todas as esferas como a música, por exemplo.

Nomes como os de Joaquim Dinis, Justino Fernandes, Inguila, João Machado, Benje, Chico Lopes, Mateus César, Praia, Salviano, Napoleão, Jaime Chimalanga, Chiby, Jesus, Ndunguidi, Nzuzi André, Abel, Savedra, Fusso, Tandu, Chico Dinis, Ndongala, Mesquita, Garcia, Lourenço, Vata, Lufemba, Maluka e outros, que fizeram furor nos idos anos de 80 e 90, devem ser sempre tidos em conta, nos anais do futebol angolano. São figuras que se converteram em verdadeiros ícones da modalidade.

Esta é razão mais do que suficiente, para que não estejam hoje “esquecidos” como está o antigo craque Laurindo e tantos outros. É triste, a situação de muitos ex-craques do futebol angolano, que estão hoje atirados à penúria.

É verdade, também, que muitos destes nomes sonantes emprestam, ainda hoje, a sua experiência ao futebol, como são os casos de Jesus, Ndunguidi, Nzuzi André, João Machado e outros, mas ainda assim, é preciso que se dê uma atenção mais significativa.

Penso ser exigência mínima, mas claro, há muita gente ligada ao dirigismo desportivo e ao futebol que nada fazem para o efeito.

SÉRGIO V. DIAS

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