Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O corte da ltima meta

16 de Agosto, 2018
Atravessamos, enquanto membros da tribo desportiva, uma semana pouco alegre. Sem motivo para sorrisos estridentes, que, por entre todas as crises, caracteriza o nosso dia-a-dia. Domingo despertamos ao corrente de uma notícia ruim, lúgubre. Na Benguela das acácias floridas se tinha calado, para todo o sempre, um ícone do desporto angolano. \"Morre aos 95 anos Alberto da Silva \"Pepino\"\". Foi assim que alguns postaram nas redes sociais, difundido a infausta informação em tempo real.
Recurso para a confirmação do ocorrido, seria, se calhar, esforço em vão. A fonte era familiar, e sendo assim não havia razões para dúvidas. Na sequência de complicações respiratórias o homem, que, na sua plenitude, desafiou distâncias e temperaturas altas, não resistiu. Colocou um ponto final à passagem na vida terrena, diga-se de passagem, carregada de boas façanhas.
Pepino não foi apenas um desportista. As suas virtudes transcendem o mero estatuto de desportista. Era, se calhar, mais um artista ao seu jeito. As suas acções sensibilizavam a todos, desde adolescentes, jovens e adultos. Teve feitos, que mais ninguém conseguiu lograr ao longo das últimas cinco décadas. Sequer há registos de ter havido um outro \"gladiador de estradas\" antes dele.
Ligar Huambo e Benguela a pé, como o fez, já com 53 anos de idade, é obra para poucos. Mas conseguiu-o com todo sucesso, só ao alcance de lebres destemidas, o que terá sido um incentivo para a outra etapa, dois anos depois, já a ligar Benguela a Luanda, vencendo, quase num fôlego, os 700 quilómetros que separam as duas cidades.
Depois que trocou o atletismo pelo ciclismo, fez da bicicleta uma companheira inseparável, sendo que o exercício regular contribuiu, bastante, para a frescura física, que poucos na terceira idade podiam ou podem esbanjar. É que com Pepino os anos passavam, com eles a idade avançava, mas a lucidez, a simpatia e o sorriso fácil permaneciam, quase invencíveis, no rosto.
Talvez por isso mesmo, a sua morte nos tenha colhido de surpresa. Pois, era um potencial candidato a transpor a linha dos cem anos e, quiçá, agregar a este número mais dez ou um pouco acima disto. Mas, entendeu partir o desafiador de quilómetros, que vimos, em 2005, já perto dos 83 anos, a travar a sua bicicleta, de forma triunfal, defronte à sede da Assembleia Nacional, depois de ter pedalado a partir da sua Benguela natal.
Mas não mergulhemos na catadupa de lágrimas, porque o homem que terça-feira baixou à terra no Cemitério da Camunda, deixa obra gigantesca. As gerações de ciclistas das últimas quatro décadas viam nele um verdadeiro poço de virtudes, uma verdadeira fonte de inspiração, e nada vai mudar este quadro. O seu nome ficará intrinsecamente ligado ao ciclismo e ao desporto angolano.
Não tarda, insta-me a consciência, teremos provas com o seu nome, o que até devia ser feito antes, sendo verdade que as homenagens valem mais, quando o homenageado esteja presente. \"Grande Prémio Pepino\" ou \"Taça Pepino\" poderão constar, provavelmente, num futuro que se pode prever breve, ao calendário de modalidades em que mais se destacou o herói que, na noite de sábado, cortou a última meta da sua façanha pela terra.
Matias Adriano


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