Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por NORBERTO COSTA

O desporto no imaginrio angolano (I)

08 de Janeiro, 2018
Na literatura angolana, a exemplo do que ocorre no \"real imaginário\" dos demais países do mundo, desde Moçambique, Cabo Verde, Brasil, Estados Unidos, Portugal até à Rússia, passando pela França e Itália, sem prejuízo da Holanda, Espanha e Alemanha, muitos são os plumitivos que se inspiram no desporto para produzir os seus escritos, nomeadamente crónicas, poemas, romances e etc., mesmo que o destaque vai para o pendor memorialístico de figuras relevantes do espectáculo e as crises cíclicas que atravessam as suas sociedades; cenário de que o desporto não anda arredio, quer em chicotadas psicológicas para treinadores que volta e meia passam de bestiais a bestas, quer em escândalos financeiros, quer ainda e sobretudo no desempenho dos atletas, que são os verdadeiros fazedores desta festa...que é desporto, nada alheia à crise \"que estamos com ela\" (pano para outras mangas).
Os escritores angolanos não fugiram, à partida, ao jogo do lúdico desta regra, tendo no desporto um dos núcleos temáticos do seu \"savoir faire\" criativo, com destaque para o futebol, atletismo e do boxe, sem esquecer o basquetebol e o andebol. Na verdade, os que não exploraram o tema do desporto são as excepções que confirmam a regra à escala do planeta, pois os jogos tradicionais ou mesmo às escondidas também mobilizam a atenção dos mais distintos escribas...
No que às letras angolanas diz respeito, vem-nos à mente o caso modelar do poeta Agostinho Neto, em \" Adeus à hora da largada\", quando faz alusão aos \"meninos negros a jogar a bola de trapos nos areais ao meio dia\", acentuando o contraste preto no branco, entre a pobreza do nativo e a riqueza do colono, sem prejuízo da invocação dos golpes de \"show man\" dos descendentes africanos nos palcos internacionais da música, como nos ringues de boxe e nas pistas do atletismo, como fora o caso do afro-americano Joe Louis. Aliás, mérito igualmente recuperado num dos poemas do moçambicano José Craveirinha e num outro do poeta santomense Francisco J. Tenreiro (dois porta bandeiras das letras dos PALOP), num manifesto diálogo intertextual, alargando-se a visão analítica às vitórias conquistadas nos palcos do jazz, por outros heróis da \"afirmação universal da negritute\". ( Refira-se Louis Amstrong e pares na música, no boxe Mohamed Aly, Pelé e Eusébio no Futebol. Em obediência, ao interesse geral e à actualidade, regras elementares de ouro do jornalismo, J.Weah seria para aqui chamado com a sua dupla ascensão: no mundo do futebol, 1995, e no plano máximo da sua intervenção filantrópica e cívica, quiçá política, feito PR há dias, entrando com os seus valiosos dois pés, em 2018. De resto, (temas para outras conversas).
Já António Jacinto no seu célebre poema \"O grande desafio\" articula o tempo e o espaço, invocando que \"antigamente a gente punha atabalhoadamente os livros no chão para disputar um grande desafio\", transportando o cenário para a desigual luta anti-colonial em gestação clandestina. AJ reelabora a metáfora com os trumunos travados na infância e adolescência que povoam a sua memória individual e, quiçá, o imaginário colectivo, num rasgo de intertextualidade como seu companheiro de geração da \"Mensagem\" nos meados do século transacto, quando ainda se sonhava com a força da imorredoira \"Sagrada Esperança\" libertadora, na Anangola e na Liga Africana, localmente, e no Club Marítimo Africano, no Centro de Estudos Africanos, na diáspora; tempos em que se simulava uma partida de futebol entre estudantes universitários africanos evoluindo nas universidades portuguesas, reunindo em duas virtuais equipas, para se conspirar resolutamente contra a ordem colonial, ainda que em surdina. O que não ficava só pelo trumuno no pelado. O teatro e a literatura protestárias andavam paredes meias com as palestras na CEI e no CEA, com funjadas de fim de semana à mistura para matar as saudades da família e amigos, bem como celebrar o reencontro identititário com a mãe-terra.
Do futebol na poesia angolana não é tudo.

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