Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por Norberto Costa

O desporto no nosso imaginrio(fim)

22 de Janeiro, 2018
Como já ficou visto, a representação do futebol nas letras angolanas é transversal à criatividade escrita das mais diversas gerações literárias, quer da mensagem, da Cultura, da Guerrilha, 70, como da geração de 80. Na verdade, o tema não escapou à trama da ficção narrativa de uma figura de peso do burgo cultural luandense. Trata-se de Domingos Van-Dúnem, prosador, dramaturgo e membro fundador do Ngola Ritmo, em 1947, cujo maestro do conjunto era o seu primo Liceu. No seu conto \"Uma história singular\" retrata as peripécias de um craque do futebol que jogava no Sporting do Atlético, de sua graça Xiquito, que já mexia com a multidão nos trumunos onde se iniciara no mundo do futebol.
Na prosa de Domingos Van-Dúnem, em termos de espaço, sente-se o pulsar do Bairro Operário e a baixa de Luanda antiga. Comparativamente, tipifica \"personagens de carne e osso\" como intelectuais, bessanganas, trabalhadores braçais, bêbados, loucos, desportistas e até prostitutas, para não variar, como se colhe nas \"Estórias antigas\", do seu \"mano mais novo\" Aristides Van-Dúnem, no poema \"Namoro\" de Viriato da Cruz e nas \"quitatas\" dos versos de António Jacinto. Aliás, quem passa pelo B.O. encontra o caldeirão da cidade, a fusão entre a fronteira do asfalto e o musseque (ou museke?). Velhas makas de grafia...para novas crónicas.
O protagonista do plumitivo de mão cheia, Domingos Van-Dúnem, era extremo esquerdo: \"ponta esquerda com uma brasa que nenhum guarda redes conseguia ver ( o seu remate). O autor pinça um quadro do espectáculo que caracteriza o mundo do futebol: \"Nem Matoso que era o melhor do museke Braga\".
Infeliz e desgraçadamente, Xiquito viu interrompida a sua carreira que prometia brilhante. Teve pouca sorte, ou o azar, ao contrário dos seus patrícios que singraram até ao fim da sua carreira nos pelados locais e nos relvados da (então) metrópole e não só, como fora o caso dos seus conterrâneos de nomeada no mundo do futebol tuga. Guardadas as devidas proporções, cada um com a habilidade futebolística forjada à sua maneira, conforme a mãe-natureza lhe brindou o dote.
O habilidoso da \"...história singular\" fora acometido por uma grave doença pulmonar que lhe levou desta para melhor. Certa noite \"tossiu e até escarrou sangue(...) a tosse não quis mais parar e morreu.\" A trama do trágico destino do futebolista em causa, perdidos nalguns vícios nas horas vagas da \"boa vida\", exprime a crueldade da fatalidade que marca o fim da estória: a morte prematura na flor da idade.
O defunto baixou à tumba ante os lamentos, gritos e choros de familiares, amigos e até fãs que acorreram desesperadamente ao cemitério para o último adeus ao craque que lhes deu muitas alegrias. Tal era a audiência de que gozava! Fãs que não perdiam uma partida, onde o seu ídolo fosse evoluir, pois Xiquito brilhava de jogo em jogo, de tal sorte que atraiu, inadvertidamente, para si várias parceiras.
\"Tinha quatro namoradas\"- lê-se a dado passo do desenrolar do enredo. Por sinal, um dos vícios contraproducentes para a prática futebolística, que uma das mais velhas da estória desaconselhava a Xiquito.
Infelizmente, as damas do subúrbio não queriam saber. O ídolo era motivo de disputa entre as donzelas da época narrada, que chegavam a travarem-se de razões, indo mesmo a vias de facto para ver quem ficasse com o craque de DVD. Debalde! O destino cruel falou mais alto, frustrando as suas expectativas. Desafortunadamente, a morte de Xiquito, no contexto de uma sociedade semi-urbana ou semi-rural (dá tudo no mesmo), dominada pela mentalidade mágica foi atribuída ao feitiço. O imaginário local acusava de tal prática feiticista o potencial padrasto, que o finado não queria que namorasse com a mãe, facto que foi invocado pelo orador na hora da leitura do elogio fúnebre, como a vingança do galanteador da progenitora do futebolista.
Nestes termos, à luz do diálogo inter-textual, ambos textos, de D. Van-Dúnem e de Wanhenga Xitu têm como pano de fundo o feitiço: enquanto que as equipas criadas por W. Xitu buscam pretensamente o mesinho para tramar o adversário e influenciar o resultado final a seu favor - qual dos \"paus\" o mais poderoso!?-; o personagem de D. Van-Dúnem, Xiquito foi tomado por uma \"onda\" enviada por quem queria esposar a mãe contra a sua vontade e invejava o seu desempenho futebolístico fora de série, no contexto colonial, em que a prática desportiva serviu como tábua de salvação do nativo colonizado, ascendendo socialmente, vencendo as barreiras da discriminação social e racial.
Finalmente, e para fecho de conversa vários são os autores angolanos da nova geração do imediato pós-independência que se têm ocupado da temática do desporto, sobretudo do futebol, na sua produção literária, como é o caso de António Fonseca, Jacinto de Lemos e Ismael Mateus, cuja exploração crítica da sua temática iremos fornecer-vos, prezados leitores, em próximas edições, sem prejuízo da leitura comparativa com as obras dos autores já citados que se reportam ao pelado e aos relvados das disputas da vida futebolística, arredores e cercanias.

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