Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por SILVA CACUTI, EM COPENHAGA

O desporto que chora

25 de Novembro, 2019
Não tenho mais dúvidas de que acabou extinta aquela estirpe de dirigentes, que se dizia ser desportista que estava na política por empréstimo. Ao mesmo tempo zarpou o que restava dos ricos, que diziam estar a gastar só parte de suas fortunas seculares e de origem familiar, investindo no desporto.
\"Wanga wabu\"! Também passou a era dos pára-quedistas. Aqueles que não tendo sequer jogado ou não brilharam nos campos, mas que, colocados na gestão de federações e clubes, deram alegrias que ainda são lembradas, a cada momento de tristeza do nosso desporto de hoje. Nostalgia!
Hoje parece que cada \"macaco\" está no seu galho. O político na política e o desportista no desporto. Foram afastados da gestão dos clubes, federações e departamentos governamentais os ditos pára-quedistas. A gestão da política desportiva do país está entregue a verdadeiras estrelas, campeões.
Não sei se é por ingratidão, mas com todas as benfeitorias acima apontadas o desporto ainda chora. Chora como nunca! De forma tão histérica, que apela à reflexão.
Urge saber onde foi que falhámos. Divagamos a apontar causas. Falamos de desorganização. Será? Costumo a dizer que há um nível de organização que não é alcançável sem o mínimo de condições.
Embora os nossos dirigentes desportivos evitem falar, não compreendo o seu silêncio, tenho notado que um traço comum dos dissabores que, de modo geral, pintam o nosso desporto, é o dinheiro.
Não é cedido ou, quando o é, só em cima do joelho. Tal facto belisca toda a programação desportiva que tem seu tempo, seus ciclos. Os ex-praticantes que mandam o desporto sabem do que falo.
Assim que, não adianta assacar responsabilidades à federação \"X\" ou a \"Y\" se recebeu o dinheiro do Estado para uma missão a faltar 15 ou menos dias. É estragar dinheiro. Foi assim com a delegação da FAF no CAN do Egipto, com a Missão Angolana aos Jogos Africanos de Rabat e com o basquetebol masculino no mundial. Com as senhoras do basquetebol no Torneio de Pré-Qualificação de Maputo, o governo não tem qualquer culpa! Simplesmente lavou as mãos e deixou o bom nome do país a mercê de quem quis ir. Muitas federações estão caladas, mas sentem o choro de que vos falo.
Chegamos ao ponto de não ter um campeonato de basquetebol, por culpa de uns impagáveis cinco milhões de Kwanzas. O hóquei em patins parou por menos. Quem nos viu e nos vê! O basquetebol, que foi e ainda é dos nossos maiores orgulhos, está a definhar. Sem presidente de direcção e, me parece, o lugar não atrai candidatos. No andebol valem algumas engenharias, que só Pedro Godinho sabe como faz. Mas Godinho já anunciou a saída e a fasquia é grande para quem ficar. Ainda assim, já vemos a RDC vir \"cassumbular\" activos por aqui, aqueles que nós não temos nem políticas, nem dinheiro para os segurar. Muitos atletas estão conformados a jogar por Angola. Andam insatisfeitos, de tanta demora sentem que o país não quer recompensar pelas conquistas que obtiveram em palcos desportivos. Cobram prémios. Dizem, não confrontei, que a participação angolana nos Jogos Olímpicos de Tóquio não está acautelada no OGE em aprovação. Outra maka mais!
É, pois, hora de chamar os gestores da política desportiva a despertarem. Seria bom, mas não temos o sector empresarial estruturado, para que assuma as despesas com a realização do desporto. O Estado tem de cumprir o imperativo constitucional e dar prioridade à manutenção das conquistas do nosso desporto. Tem de ser o Estado a dar o essencial, para que o empresariado faça o complementar. De modo contrário, vamos preparar-nos para o pior. Quando o desporto chora a sociedade ressente-se e pode ter perdas mais dolorosas!

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