Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O difcil recomeo

01 de Novembro, 2017
É tido e certo que o desporto angolense precisa de recomeçar do zero?
Em várias modalidades e regiões que já eram quase uma realidade desportiva, os gráficos apontam para vias de extinção que importa denunciar sempre e cada vez mais urge conter.

Sim, a nossa demografia desportiva é hoje um pânico maior que a nossa falta de sociologia desportiva ou das políticas de fomento e de rendimento desportivo ditadas pelas altas autoridades do MINJUD, a menos que persistam em eximir-se dos seus deveres de fiscais, a espaço executores, pelo menos orçamentais, o que já justificava terem uma política de seriedade com a despesa de finanças públicas, que sendo absorvidas pelos agentes desportivos, requerem cedo ou tarde, balanço.

Amiúde e cada vez mais nos últimos anos sou assaltado por notícias de causar inveja, e eu que julgava que a Angola desportiva era como a welwitschia, não secava a sua essência por falta de água, perdão, dinheiro. Julgava que nada mataria, apagaria em nós, esse afã desportivo que mudou, de facto. Mudou com as gerações, mas éramos nós que as devíamos educar. Portanto, falhámos aí!

Falhámos como sociedade e como sistema desportivo, pois não mostramos um pingo de desenvolvimento que restasse. Sim, eu fico estupefacto como só uma academia de Kinshasa tenha mais que 2 mil alunos futebolistas, quando todo o meu país não tem federados 2 mil juvenis de futebol!

Eu fico perplexo como uma das várias academias de basquetebol de Dakar tenha só ela 2 mil basquetebolistas entre infantis e jovens, e que a mesma esteja prestes a iniciar o papel de centro africano escolhido pelo projecto da NBA dos Estados Unidos da América, tal como já havia criado na Índia e na China, para concentrar ali os talentos de cada região. E depois trabalhá-los ‘à NBA’… E nós, nada, sempre orgulhosamente sós e a falar só em português…

Ora, isso tem que me deixar a pensar: se Kinshasa vive em clima de guerra, mas debita; Dakar não é uma das economias africanas mais fortes, mas, tem desempenho para sustentar várias academias da bola ao cesto e uma delas ser ainda a escolhida da NBA, então, que futuro ‘pavimentou’ de facto o basquete no meu país?

Mas tiro o chapéu! Já eram conhecidos alguns esforços de certas figuras do desporto nacional, como Zé Carlos Guimarães, pelo que fez em Cabinda, agora no Cuanza Norte, e Alberto de Carvalho, que começou a empreender algo no Cuando Cubango, tudo projectos para semear o basquetebol.

Agora e como se noticiou, dois homens do futebol desencadearam também o seu papel individual a bem de um desporto que está a morrer sozinho, sem parecer tanto. Realmente o parente pobre da nossa alta-competição já mal sai de casa para ir apanhar um pouco de sol e aragens do estrangeiro…

Então e em recentes eventos, o antigo capitão ‘Akwá’ movimento um torneio de futebol para iniciados, enquanto o ‘coach’ Agostinho Tramagal promoveu um ‘workshop’ para difundir e fortalecer nas bases o chamado desporto-rei. E quem achar isto pouco, que mostre à sociedade, também , o que fez, tem feito ou fará pelo futebol ou outro desporto, dado que o desporto angolano precisa mais do que nunca, de voluntários.

O país desportivo está cada vez mais a precisar muito de iniciativas pessoais, dado que as instituições e agentes desportivos parecem estar cada vez mais como os carros com os tanques já na reserva e prestes a entrar em pane seca, que é ficar sem combustível, sem ser desta vez por problemas logísticos e operacionais, mas, sim, por lacunas funcionais.

As iniciativas individuais e de pequenos grupos que se podem mobilizar e organizar em torno de objectivos simples como um torneio entre prédios ou do bairro, são todas bem-vindas à luz de um desporto para todos.

O extraordinário dessas iniciativas é o forte incremento institucional na base do desporto. O prédio e o bairro costumam ser sempre os primeiros clubes do jovem.

Assim é preciso apelar a cada adepto e desportista, para contribuir e usar a sua imagem e exemplo para fortalecer um papel de liderança na orientação de muitos jovens sem um ‘role model’ ou exemplo de liderança. As figuras públicas angolanas são também elas pouco ligadas ao desporto, que para muitos não passa de ir para o ginásio exibir-se.

Com uma base social dinâmica, que ultrapasse o impasse das grandes instituições do estado – veja-se como o projecto de futebol jovem já esfria desde 2014 e o do desporto na escola perdeu todo o cheiro a açúcar que tinha em 2013 – será imperativo doravante não ficar à espera da repetição desses eventos para desencadear finalmente as suas conclusões, que podem apresentar expressamente envoltas em teias de aranha, mas, são válidas e necessárias.

Apesar dos pesares, é a nível das associações de treinadores que mais ausência atribuiria, seja pela sua falta de envolvimento directo ou indirecto, primeiramente; e depois pela sua falta de sentido de oportunidade e aproveitamento destas iniciativas para aparecer, mostrar a sua existência, explorar modalidades de parceria que dêem perspectivas de utilidade futura a essa mesma associação.

As associações de treinadores são conhecidas por serem a maior concentração que há por metro quadrado, de treinadores na sua maioria desempregados, mas, que não devem passar para fora a ideia de bando de autênticos inúteis. Os treinadores são responsáveis morais pelo desporto nacional, e suas associações de classe mais, ainda.

Depois de ter descido até às associações de treinadores, só me resta concluir que o nosso desporto já precisa de alguma iniciativa mais, e disso não haja a mínima dúvida, pois, a hora para desencadear um movimento cívico pelo desporto é esta!

Nas escolas e empresas, que costumavam ser regulares nos seus calendários desportivos anuais, os grupos culturais e desportivos dessas instituições devem mobilizar-se e explorarem como dar as mãos e trazer a público a sua atitude voluntariosa, mas determinada, em relação ao desporto. Sem uma cultura de recreação e desporto, os nossos jovens vão continuar subdesenvolvidos, acredite!

É conhecida a máxima segunda a qual ‘Estado é Estado!’, porém, a pessoa Estado não pode recobrir tudo; então é precisa a intervenção da sociedade civil, porém, entre nós isto não goza da mais pequena tradição, ainda. Haver grupos e associações de fins humanistas, culturais, recreativos e desportivos, ou simplesmente de bairrismo, é muito saudável para uma sociedade e um país.

E se as mesmas criarem à sua volta programas e festividades actividades gímnico-desportivas para os jovens próximos de si, mostrando a capacidade de os mais jovens se organizarem em prol da promoção dos seus próprios objectivos, então, para além de satisfazer-lhes direitos considerados inalienáveis, como a saúde, ou o desporto, também lhes mostrará que se o Estado não fizer, fará o povo.

No entanto, eu dou em passo já em frente e acima: pode o MINJUD promover esta acção social do desporto se por ventura recomendar às federações, como subsidiadas do estado que são, que passem a cumprir certos pressupostos como parte dos objectivos que o Estado gostaria de ver garantidos no sector?

Certa delegação de poderes, o que implica sempre deveres e obrigações deveriam bramir como chicote a exprimir uma política de seriedade e rigor no sector, que, de resto, é um infindável rosário de contos e conclusões de conselhos e mais conselhos que, na prática, parecem não ser seguidos, ou já estariam a dar flor…

O MINJUD deve sobretudo antecipar-se ao factualismo dos conselhos consultivos ficarem o pêndulo da balança, retirando ónus aos titulares do sector, até porque o consultivo deve assessorar e não substituir o executivo, donde se infere que mais do que os conselhos, serão os três novos titulares do sector a responderem, em breve, pelo bem e o mal que nele pousar.

É preciso o MINJUD mostrar também iniciativa, e depois, acção e trabalho!
É preciso igualmente o MINJUD mostrar controlo, ao invés de passar por ‘kamba’ dos agentes desportivos. E o mais incrível é que ao ministério basta apenas mandar cumprir o elementar, a norma, o regulamento, a lei. Se isso fosse seguido à risca, o desporto hoje seria menos calamitoso. E menos reduzido quase à capital…

Se os clubes de futebol e basquetebol e andebol, por exemplo, antes dos seus jogos tivessem por obrigação levar e fazer jogar primeiro as suas equipas de jovens, seria, além de um regalo, uma real promoção do desporto no seio dos seus continuadores, para além de uma preparação desportiva anual e suportável, cujos frutos multiplicariam tudo quanto antes se pudesse imaginar, por fazerem os putos ficar quase sem jogar. Mas, é deveras penoso quando um pai diz aos filhos mais jovens que infelizmente o que tem não chega, pois, os seus irmãos grandes comem tudo e deixam nada.

Algo vai ter que mudar. É preciso mudar, porém, ninguém parece querer premir a tecla ‘ENTER’ da mudança. Ninguém parece estar interessado em meter a mudança na velocidade seguinte, com mais tracção, menos desvio de rota, e não dar esse impulso esperado será, além de estranho, também suspeito. Vamos esperar para ter a certeza do que é realmente.

Afinal, a quem pode agradar ou servir a desmoronação do edifício do desporto angolano?
Há vezes que eu acredito em que há mais descaso, do que caso, e isso decorre do hiato de preparação, experimentação e maturação que tiveram uns dirigentes, outrora, e estes, na actualidade. Os nossos homens já foram melhor preparados, por mais que custe ou fira dizer ,ou ouvir disto. Os homens vêem-se pelas acções e eu gostaria de ver as acções deles na actualidade.

Seja como for,o chefe mandou também mehorar o que estiver melhor. A melhoria do melhor, dá trabalho, mas é possível. O melhor do desporto angolano é por enquanto o subsídio do estado, porém, devia ser a mobilização da juventude. Ora, o MINJUD tem arcaboiço para isso, mas, primeiro, devia expor a sua ideia e políticas a seguir, para fazer da comunicação o seu primeiro jogador em campo. Uma sintonia é sempre necessária para a mudança.

A melhoria do melhor implica igualmente o património desportivo do estado ser gerido por forma a maximizar a prática pelos desportistas e o desfrute pelos cidadãos, não constituindo o bicho de sete cabeças que virou a parceria público-privada em um negócio lesivo ao desfrute das instalações. E o que não fizer bem ao desporto deve ser revisto pelo desporto, não pelo negócio.

Ainda no património do desporto de Angola, importa o pastor não dispersar o rebanho e perder cabeças, pelo que, todos os edifícios de infra-estrutura da prática do desporto que forem do parquet estatal, assim devam permanecer, até se poder justificar em hasta pública a alienação de imóveis do desporto. E rever naqueles casos de abuso que parecem ter tido êxito, exceptuando a casa do desportista da ilha de Luanda.

Ao tempo da sua criação – e tal parece continuar como se viu ultimamente com o monumento dos Heróis – os monumentos e outros símbolos públicos são escolhidos sem a contribuição do cidadão, então, a casa do desportista da ilha, que ambicionara a proximidade do mar, depois representou uma incompatibilidade com o desporto de alto rendimento, onde o treino invisível precisa de ser controlado.

Irónico como sempre, o antigo treinador brasileiro do futebol do Petro, António Clemente, ironizava que aquela não era casa de desportistas nenhum, pois, jamais se vira uma casa do desportista ter tantas saídas e mais saídas do que entradas…

O problema está em que por vezes nem se trata da alienação em si, que nalguns casos se poderia justificar e ser rentável; a gravidade é a da adjudicação directa viabilizando que por via de um simples papel e despacho timbrado, entre um ou mais particulares em pleno usufruto exclusivo de um bem até então público. Ainda por cima sem gerar receita para o MINJUD ou as finanças públicas, muito menos qualquer fundo e acção social.

Aqui e em matéria de fundos e receitas, o MINJUD tem alguma fiscalização a precisar de ser também reforçada, mas que não será o caso de melhorar para melhor, mas de corrigir o mal que parece que há por ali, até prova em contrário da inspecção do Estado, que infelizmente não tem faro para alguns podres.

Seja como for, um bem tão preciso como o fundo de desenvolvimento desportivo, deduzido inclusive de cada ingresso em um recinto desportivo, ninguém lhe conhece o tamanho, nem o paradeiro. E a cultura de contas auditadas e publicadas deviam aparecer como uma das marcas da imagem do novo MINJUD e do novo Executivo.

Estas seriam algumas das primeiras melhorias do melhor, que o MINJUD pode abraçar para início de agenda pública, agora sob um novo comando, e jovem, mas com experiência dentro de quarto linhas de jogo, Seja como for, o Chefe mandou também melhorar o que estiver melhor, o que possa aludir a noções tácticas e técnicas capazes de transformar em uma partida interessante, o mandato que esta nóvel equipa governativa acaba de iniciar. A mudança para melhor não deve amedrontar-se diante de nomes, nem de títulos, para abraçar uma política de ‘compliance’ no desporto, graças à violação da qual, o desporto jovem anda de rastos e inconsequente.

Agora e em relação às emendas para correcção do que está mal – e que não é pouco! – devia-se começar por aprender a fazer orçamentos e a gerir contas virados para a sustentabilidade, o que é uma cultura de emagrecimento, mas uma dieta necessária, sem a qual o nosso desporto tem perdido a cada dia, a sua viabilidade. Há uma mácula nos exercícios financeiros e planos de desenvolvimento gorados. Ora, isso é desperdício. E prejuízo!

Alguns encontros metodológicos de administração e finanças, por um lado, e de metodologia do treino, por outro, são precisos para arejar as ideias que varram as secretárias e gabinetes deixados no ministério, para acolher senão novas ideias, pelo menos uma nova atitude vis-à-vis dos agentes desportivos, do público e das outras nações.

Hoje o MINJUD já está completo e pronto para marchar, sendo hora de pegar no estetoscópio e fazer um levantamento, em pelo menos um mês, sobre a nossa realidade desportiva e prescrever um plano emergente de salvação nacional da bola, tida como traço cultural da juventude e sociedade angolanas, que se pretende. Ou não?

O ideal é que o orçamento para 2018 possa contemplar acções cabíveis no tratamento do que for diagnosticado, e que não deve ser pouco grave. As subsequentes acções, políticas e práticas, para melhorar a sanidade do corpo desportivo nacional, coisa concebida como um harmónio de vasos comunicantes, porém, entupidos na sua maioria, é não entrar-se numa total desarmonia.

As assimetrias desportivas nacionais, inexistentes em 1975, ou 1990, tanto como hoje, sugerem que este seja o momento e ponto de uma urgente inflexão nos gráficos, por ser insustentável manter os mesmos a apontar continuamente para o chão. Se há limitações, se há incapacidades, se há constrangimentos e impedimentos, tudo isso deve ser diagnosticado e removido do caminho a percorrer em seguida, para, ao sairmos de 2017, podermos acreditar que se temos governo, vamos voltar a ter desporto.
ARLINDO MACEDO

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