Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O dinheiro, sempre

26 de Julho, 2018
Limitações financeiras, em período de grande recessão económica que se vive, têm vindo a penalizar, grandemente, a vida desportiva do país. O caudal do rio de lágrimas dos agentes desportivos corre sem norte. Choram os gestores de clubes, choram os das associações provinciais, choram os das distintas federações.
Há falta de dinheiro para tudo, constituindo tal quadro uma verdadeira ameaça à vitalidade desportiva nacional. Em razão da sua natureza, a actividade desportiva é financeiramente exigente, e não havendo meios não há como fazer desporto com perspectivas animadoras ou com estabelecimento de metas evolutivas e competitivas. Merecem quase o estatuto de heróis, os homens que se encontram hoje nas vestes de gestores desportivos. Estes fazem trinta por uma linha para poderem sustentar as suas acções. Os tempos são verdadeiramente outros, se comparados ao boom que se verificou num passado não muito distante, em que o nosso desporto respirava saúde por todos os poros.
Refiro-me não apenas à saúde competitiva, mas também a organizacional e a formativa. Em qualquer um destes campos, os clubes e mesmo as federações não estavam sujeitos a muita ginástica, como se verifica nos dias presentes, em que são quase obrigados à definição de prioridade entre uma e outra coisa.
Temos exemplos de selecções que, por entre limitações de carácter financeira foram obrigados a excluir os estágios pré-competitivos do programa preparatório para só suportar as despesas de viagem ao cenário da competição, em caso desta decorrer fora do país. Sendo que em ocasiões mais extremas acabou-se por abortar a própria participação.Por isso, por mais que nos custe, devemos entender clamores como de Artur de Almeida, que diz ter herdado uma FAF na bancarrota.
Devemos também entender as queixas que recaem sobre este ou aquele clube. Tem havido nos últimos tempos um flagelamento em direcção ao Kabuscorp do Palanca e ao Sport Libolo e Benfica.
Enquanto o quadro for este, não devemos, até por uma questão de coerência, exigir resultados competitivos fabulosos. Porque os clubes, que também têm responsabilidade na formação, estão condicionados. Por este andar, o futuro desportivo não se prevê risonho, mas ruim e medonho, num contraste com aquilo que já foi no passado.É doloroso ver que até no basquetebol, a nossa \"galinha de ovos de ouro\", o país está em derrapagem.
O poderio competitivo que deteve ao longo de quase três décadas ruiu. Hoje a bola ao cesto segue o mesmo rumo que o futebol, não faltando muito - passe algum excesso de pessimismo - para cair na vulgaridade.
Divisando as diferenças ou o desnível entre o passado e o presente de alguns desportos, aponta-se facilmente o dedo crítico aos dirigentes das federações. Mas se formos mais sensatos e coerentes, havemos de concluir que os actuais gestores trabalham em condições extremamente diferentes. Difíceis, numa só palavra.
Injecção de dinheiro nas federações, quer através de apoio institucional quer por meio de patrocínios deixou de existir. Pois, eram estes dinheiros que, mesmo mal geridos, como é sabido, permitiam uma gestão administrativa sem muitos apertos. Realmente, quando já se chega ao incumprimento no pagamento de prémios de jogos, é o fim da picada.É urgente que se definam para o sector desportivo, políticas concretas e realísticas, sob pena de Angola figurar nos últimos lugares do ranking africano em todas as modalidades.
O quadro, longe de ser animador, é assustador. E na falta de esforços no sentido da sua inversão, paira no ar a ameaça do país ver beliscado o seu prestígio.
Matias Adriano

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