Jornal dos Desportos

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Opinio

O "discurso" de Toms Faria

18 de Outubro, 2016
Para além de ser um fenómeno social, o futebol é uma actividade humana, por isso, indissociável da condição de falibilidade a que se sujeita qualquer um dos seus actores, com mais incidência para os que chamo de actores directos, que interagem numa partida de futebol, no caso os 11 jogadores e a equipa de arbitragem.

O que se escreve no parágrafo anterior, deve ser aceite e entendido só nas situações em que eventuais erros ocorram, distanciados de qualquer intenção premeditada de ferir a verdade desportiva, por via de actos nítidos e facilmente perceptíveis aos olhos de todos. Em latitude, pode-se compreender que alguns erros de árbitros e jogadores, pelo lapso de tempo curto que vai da infracção ao ajuizamento, podem ser “perdoados”, repito, desde que entendidos com alguma razão, no quadro da natureza falível do ser humano.

Se calhar, o mesmo não pode dizer-se em relação aos pronunciamentos dos actores indirectos (comentadores, treinadores, dirigentes, etc), que por beneficiarem de tempo suficiente para reflexão, em relação ao que pretendam dizer, obrigam-se à uma contenção verbal fruto da qual só se ganha admiração, respeito e consideração.

E, é isso, que faltou ao presidente de direcção do Atlético Petróleos de Luanda, Tomás Faria, pelo menos na entrevista publicada por este jornal na semana passada, em que disse, entre outras coisas, que “o 1º de Agosto não tem equipa para jogar com o Petro, apesar de reconhecer que tem bons talentos e bons executantes, mas não tem equipa forte para jogar com o Petro”...

Não encontrando nas palavras de Tomás Faria, elementos que sustentem o que disse em relação ao 1º de Agosto, achei deselegante o discurso do dirigente do clube do Catetão, à luz da interpretação extensiva do conceito de fair play, vinculado à ética no meio desportivo.

Da mesma forma que achei deselegante e conivente, o silêncio de outras tantas forças que directa ou indirectamente foram maculadas no discurso de Tomás Faria, pareceu-me que o homem forte dos tricolores decidiu-se por um exercício de imitação errada, useira e vezeiro que nos é dado a ver no mosaico futebolístico português, sobretudo, em relação ao Sporting e Benfica.

Na senda dos “ses” do dirigente da equipa da Sonangol que também disse, “Se for jogar com o Petro, 11 contra 11, sem influência de árbitros, estou para ver a equipa do 1º de Agosto vai vencer o Petro”, gostava de obter a sua resposta em relação ao que seria se o futebol vivesse de “se”!..

À propósito, um recuo aos últimos 13 jogos disputados entre as duas equipas, de 2010 à presente edição do Girabola ZAP, a estatística mostra que o clube militar venceu oitos vezes, perdeu três e empatou duas vezes, e nem por isso ouvi alguém fazer desse dado, algo demeritório aos tricolores.

Numa outra incursão à história, dos discursos de Tomás Faria denota-se outra incontinência verbal, por altura da novela “Keita”, quando o mesmo acusou o 1º de Agosto por toda a conduta errada adoptada pelo avançado Keita, este que veio a receber da FIFA, a razão do diferendo que o opôs ao clube tricolor.

Não é de todo mau, os discursos de Tomás Faria, talvez tenha razão quando no balanço da primeira volta do Girabola acusou os árbitros de “quando entram para fazer a vistoria às equipas nos balneários e depois acabam por tratar os atletas como se de seus empregados se tratassem”.

Falo em razão à Tomás Faria, tendo em atenção que pouco ou nada transpirou de uma necessária reflexão por quem de direito, sobre o "fair play "que deve acompanhar o discurso de qualquer dirigente desportivo, quanto mais não fosse da equipa, que é tão-somente a mais titulada do futebol nacional.
Carlos Calongo

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