Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O el dorado de fracassos

17 de Maio, 2018
Com a iminente dispensa do angolano Ary Papel pela equipa B do Sporting de Portugal, depois de Gelson Dala ter sido “despachado” ao Rio Ave, ganho razão naquilo que tenho vindo a defender em algumas tertúlias. Tenho dito, reiteradas vezes, que Portugal não é um porto seguro para os nossos futebolistas singrarem. Mais a mais porque estes, regra comum, têm alguma preferência pelos principais emblemas.
É certo que avultam relatos de angolanos que conseguiram alguma firmeza num Benfica, Sporting ou FC Porto, mas no tempo da outra senhora, quando todos defendíamos a mesma bandeira e tínhamos no \"Heróis do Mar\" o hino comum. Foi, então, a gloriosa época de jogadores da igualha de Inguila, Laurindo, Canvugi, Jordão, Dinis e outros tantos, cuja lista não cabe aqui.
Nos tempos mais recentes, ou, se preferirem, no período pós-independência, houve igualmente uma vasta legião de talentos que se fizeram às terras lusas. Mas dos que tiveram como poiso a Luz, Alvalade ou Antas, hoje Século XXI, poucos conseguiram se impor, sendo Pedro Mantorras a grande excepção. Sabemos que Vata e Abel Campos vestiram, também eles, a camisola da águia, longe do sucesso do menino do Santo Rosa.A passagem de Quinzinho e Djalma Campos pelo FC Porto não passou despercebida, sendo merecedora de algum realce. Mas no essencial acabaram sempre bem sucedidos aqueles que traçaram como destino clubes do segundo escalão. Paulão, Mendonça, Mateus Galiano, Túbia, Carlos Pedro, Saavedra e outros não tiveram razões de queixa, como teve, à guisa de exemplo, o \"nosso\" Akwá, que na Luz fez apenas trânsito para atracar, de forma inglória, no Alverca.
Tenho quase certeza que, se Ary Papel e Gelson Dala tivessem rumado para outras paragens estariam, certamente, a escrever uma linda história das suas carreiras. Infelizmente continuamos olhar para a velha potência colonizadora como o \"el dorado\", e o desfecho deixa sempre a desejar. Com o potencial que tem demonstrado, Gelson seria titular indiscutível num Esperance de Tunis, num Jomo Cosmo da África do Sul ou mesmo num Zamalek do Egipto.
A projecção ao serviço destes, podia despertar a cobiça de outros clubes, em que se pode incluir os gurus portugueses, mas já com outros estatuto, a exemplo de Bastos, que evoluiu do Rostov da Rússia para a Lázio. No fundo, o mal está no facto de cá entre nós pensarmos que quem faz golos fabulosos no Girabola, uma prova declaradamente pouco competitiva, já pode vestir a camisola de um Benfica , de um Sporting ou de um Manchester United, como se fez com Manucho Gonçalves. É pensar com os pés.
Não se deve elevar demasiado a fasquia. Atrevo-me em dizer que se Flávio Amado, Gilberto e Avelino Lopes em lugar de rumarem para o Egipto, o fizessem para Portugal, Espanha ou Alemanha, não teriam, certamente, construído o império da fama que conseguiram. É certo que a vida é feita de desafios. Mas nem todos desafios se apresentam ao alcance.
MATIAS ADRIANO

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