Jornal dos Desportos

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Opinio

O estado do nosso futebol

25 de Julho, 2019
Além disso o futebol é um dos principais vectores de inclusão social, capaz até de transformar mentalidades para o bem o não só, promove o emprego e acima de tudo é um grande meio de promoção da paz e unidade nacional, como é o caso do nosso país.
Mesmo em tempos de guerra, quando o assunto fosse “Palancas Negras em acção” todo os angolanos davam-se as mãos, independentemente das picardias que tivessem quer fosse de índole política, tribal, étnica ou religiosa.
Por isso é somente normal que a maioria dos angolanos, para não dizer todos, se revejam no despenho da Selecção Nacional de futebol. Eu só de opinião, que o futebol é uma espécie de religião principal dos angolanos, pois tem sido capaz de exercer muito mais influência positiva nos cidadãos do que a religião e a política, que na maior parte dos casos têm sido uma das grandes fontes de divisão e ódio entre as pessoas.
Assim sendo, quando as coisas não correm bem com a selecção principal, como aconteceu no recém-terminado Campeonato Africano de Nações do Egipto, o país entra em ebulição e todos querem encontrar os culpados e assim por diante, o que é próprio em países do futebol como acontece no Brasil, Itália, Argentina, Portugal e outros.
Mas a grande questão é: será que em função da nossa realidade, desde a independência até hoje, temos motivos de esperar grandes resultados da nossa Selecção Nacional, ou seja do nosso futebol a nível de África? Temos de ser muito realistas para responder esta questão. Tem-se dito que “querer não é poder e sonhar não é proibido”. É somente normal querer, que uma selecção nacional de qualquer modalidade, protagonize grandes façanhas em todas as competições em que esteja envolvida.
Por exemplo, quando a nossa Selecção Nacional de Basquetebol dá-se mal num Afrobasket, para nós é um autêntico escândalo. Não importa as circunstâncias, o adversário com quem Angola perca, não ganhar um Afrobasket é motivo de muita insatisfação para os angolanos. Porquê? Porque simplesmente somos os melhores de África! São 11 títulos conquistados de forma quase consecutiva.
Mas quando nos classificamos em décimo lugar ou numa posição inferior a esta no Mundial ou nos jogos Olímpicos, reagimos com muita normalidade. E se um dia ficarmos entre os cinco melhores do Mundo, tenho a certeza absoluta que faremos uma grande festa. Porquê? Porque sabemos que aí não podemos fazer muito.
Veja, por exemplo, que um dos melhores resultados de Angola numa competição Mundial, foi a vitória sobre a Espanha nos Jogos Olímpicos de 1992, se a memória não me atraiçoa, e até hoje tem sido motivos de grande regozijo para nós.
Tudo isto para dizer o quê? Que em África, quando o assunto for basquetebol masculino ou andebol feminino, nós somos como um “W 10 Mercedes tripulado por um Lewis Hamilton” e temos motivos de sobra para quererermos mais porque podemos, mesmo com as mudanças que o basquetebol africano esta a conhecer, com a Nigéria, Senegal, Camarões e outros países a se tornarem nos grandes adversários de Angola.
Mas quando o assunto é futebol, as coisas mudam drasticamente. Aí os “Mercedes e os Hamilton” são outros, como o Egipto, Camarões, Nigéria, Costa do Marfim, Gana, e outros países com grande tradição e responsabilidades acrescidas a nível do futebol Africano. Portanto, quando Angola joga no meio de selecções do quilate das que acima mencionei ,estaremos num despique muito desnivelado e as chances de sucesso da nossa parte são muito diminutas, ou seja, só podem acontecer por motivos de azar ou de força maior, por parte de equipas ou selecções como as mencionadas.
Dizer que a participação de Angola no recém-terminado CAN do Egipto foi um fracasso, significa dizer que tínhamos de nos apurar para a segunda fase, deixando a Tunísia ou o Mali de fora. Mas em minha modesta opinião e com todo o respeito que devo aos grandes fazedores de opinião a nível do futebol nacional e não só, não é realístico pensar assim.
Temos de ter em mente, o desnível que existe em termos de qualidade de jogadores. Aquela má exibição da nossa selecção, tem de ver com a qualidade dos nossos jogadores. No jogo contra a Mauritânia, deu para ver que os nossos jogadores não fizeram mais, porque não têm argumentos e qualidade necessárias para o fazer.
É imperioso ter em mente, que para se fazer uma grande selecção, primeiro deve-se construir um verdadeiro alicerce para o efeito o que implica objectivos bem traçados, políticas exequíveis, tempo suficiente e, acima de tudo, realismo. Isto não aconteceu, porque construímos em alicerce de areia movediça, onde o imediatismo e interesses políticos falaram mais alto, porque as circunstâncias do momento assim exigiram e não devemos culpar ninguém por isso.
Herdamos da época colonial grandes executantes e com eles fizemos algumas coisinhas. Depois, com a geração de alguns jovens que cresceram na fase depois da independência, conseguimos chegar ao nosso primeiro CAN em 1996 e dez anos depois fomos, pela primeira vez ,ao um Mundial. No entanto, não estamos a conseguir justificar estes marcos, porque falta-nos humildade. Não queremos ser realistas. É importantíssimo saber, quem somos nós futebolisticamente falando? Com a qualidade dos nossos jogadores até onde podemos chegar? O que devemos fazer para chegar mais longe?
Quando nós conseguirmos produzir dezenas de jogadores como Gelson, Bastos, Shows, e pô-los a jogar no futebol francês, inglês, alemão, holandês, e em outros campeonatos de verdade, como acontece com as grandes selecções de África, como Egipto, Camarões, Nigéria, Ghana e outras, aí sim, poderemos sonhar mesmos acordados.
Enquanto isso, vamos trabalhar internamente sem pressa, porque o nosso grande problema já está identificado, que é a falta organização, projectos exequíveis e realísticos e, acima de tudo, paciência. Nada de imediatismo. Temos como bom exemplo, o que se está a fazer na Fundação Eduardo dos Santos (FESA) e no 1º de Agosto, sem desprimor para as outras escolas e clubes existentes no país.
Entretanto, não podemos nos esquecer do efeito da crise financeira sobre o desporto angolano e do futebol em particular. Até quando teremos de suportar e nos submeter aos efeitos da crise financeira? Será que temos alguma solução em vista? Estas e outras questões serão respondidas no próximo artigo. Augusto Fernandes

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