Jornal dos Desportos

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Opinio

O estado do nosso futebol (II)

01 de Agosto, 2019
A semana passada terminei o artigo deixando as seguintes questões no ar: até quando teremos de suportar os efeitos da crise financeira sobre o nosso desporto e do futebol em particular? Será que temos alguma solução à vista?
Sim, por culpa da crise económica, o nosso país terá apenas dois representantes nas Afrotaças porque teve de abdicar de dois preciosos lugares conquistados com bastante suor e sacrifício em 2018 pelo campeão em título, o 1º de Agosto.
Por força desta situação, o Clube Desportivo da Huíla (CDH), na qualidade de finalista vencido da Taça de Angola e 3º classificado do Girabola em 2018, desistiu e ofereceu o seu lugar ao Kabuscorp do Palanca, que estando numa situação mais complicada, viu o seu desejo gorado e o Interclube também rejeitou representar o país na Afrotaças.
A desistência do Desportivo da Huíla foi menos estrondosa do que a do Kabuscorp do Palanca e do Interclube, porque pelo tempo em que os três emblemas disputam o Campeonato Nacional de Futebol da I Divisão, os militares da Frente-Sul sempre foram inferiores economicamente falando em relação aos outros dois emblemas.
Ainda por culpa da crise económica, o Girabola 2019/2020 vai arrancar com 15 equipas das 16 previstas, porque o recém-regressado à alta roda do nosso futebol, o Benfica do Lubango, desistiu e corremos o risco de outras desistirem a meio do caminho.
Entretanto em minha opinião e com todo o respeito que devo aos que tomam a dianteira nos assuntos do nosso desporto ou seja do nosso futebol, a crise financeira que por sinal se faz sentir um pouco por todo o Mundo que sempre dependeu do petróleo, não justifica este empobrecimento ou “mendiguismo” a que nos auto-submetemos.
O país não está assim tão desgraçado economicamente falando que não nos permita dar prioridade as coisas mais importantes. Sim, a crise existe e é um facto consumado. Mas não na proporção que nos submetemos.
Assim, é necessário saber lhe dar com os passivos que existem de forma realista por se fazer políticas aceitáveis em termos de planificação e gestão dos recursos económicos a serem alocados para o Ministério da Juventude e Desportos Minjud), que por sua vez fará a distribuição pelas federações em função das prioridades por si planificadas.
Isto implica dizer que no caso envolvendo os clubes que deixaram de representar o país nas Afrotaças, o que até certo ponto belisca a reputação do nosso Executivo, o assunto teria sido resolvido ou acautelado, porque dentro da planificação ou das prioridades estariam alocadas verbas para os clubes e seleções nacionais que merecem um apoio do estado. Pode parecer caricato, mas jogar nas Afrotaças significa representar o país que por sua vez tem o desporto como um vector de inclusão social e que muito contribui para a unidade nacional, paz e boa saúde para os seus praticantes.
Portanto é uma questão de nos organizarmos bem para não continuarmos a ser “ridicularizados” pela maldita crise. Por outro lado, a fase de corrigir o que está tal mal, com grande ênfase ao combate a corrupção e a caça das “vespas” que deram cabo do mel, pode estar a inibir alguns amigos do desporto, especialmente do futebol, de colocar os seus activos para o desenvolvimento da modalidade.
A ser verdade, então as coisas ficam ainda mais difíceis. No entanto, não nos esqueçamos que quem faz o futebol evoluir em qualquer parte do Mundo são empresários particulares. É assim na Espanha, Inglaterra, Alemanha e em outras paragens onde o futebol é uma autêntica fábrica de dinheiro. Por isso é importante promover, potenciar e incentivar pessoas singulares ou colectivas a apostarem no futebol e no desporto em geral. Com este tipo de políticas podemos ter um campeonato ou Liga muito bem disputada assim como acontece em países como Espanha, Brasil, Portugal e outros. Temos de imitar o que é bom e possível de realizar. Quando isto acontecer, vamos atrair outros investidores e consequentemente jogadores de grande valia técnica para o nosso campeonato.
Enquanto esta situação durar, se for uma realidade, então vamos ter de esperar que o Estado crie condições para que o futebol continue vivo não só para lá das nossas fronteiras, mas como internamente, pois o mais importante é manter a sua chama acesa, independentemente das circunstâncias. Em função do nosso histórico em termos de gestão e superação crises, acredito que a médio prazo este assunto deixará de ser um handicap do nosso futebol. Agora é imperioso que todos os amantes do futebol angolano tenham paciência. Temos de esperar pacientemente e cooperar para que o Estado e consequentemente todos os que fazem movimentar o futebol encontrem os caminhos mais curtos a trilhar para mudarmos o momento periclitante do nosso futebol.
No entanto, à medida que se vai criando as condições para superar a crise financeira, é importante que clubes como 1º de Agosto, Petro de Lunada, Progresso, Académica de Futebol de Angola (AFA) e outros continuem a trabalhar no sentido de produzirem jogadores de grande nível técnico ou verdadeiros artistas da bola, como se quiser.
Quando estivermos economicamente desafogados ou com planos bem traçados para a gestão do nosso futebol e com jogadores a altura então estaremos em condições de fazer do desporto-rei a verdadeira festa das multidões. Augusto Fernandes

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