Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O exemplo que nos faz falta(fim)

13 de Dezembro, 2018
Angola e Portugal poderiam cooperar enviando por um período professores de educação física, que o físico dos angolanos ia ficar grato por gerações e gerações a viver desse embalo. O nosso sistema de ensino não tem, muito o menos o sistema desportivo tem, este tal actor social que é o treinador e que, para a comunidade, se equipara ao professor, ou enfermeiro.
E se contássemos quantos deles temos nós, nem cobririam completamente as necessidades de Luanda em treinadores desportivos, nos clubes e associações recreativas, nas escolas e colégios, nos ginásios e jardins públicos. Esta é uma questão seríssima que ata as mãos e pernas ao desporto escolar, enquanto não temos hoje as valências para resgatar o instituto de formação INEF, que já tantos treinadores e seleccionadores deu a Angola.
Lá fora ainda, o governo francês é quem subsidia os professores e treinadores expatriados como missionários, a custas da Cooperação Francesa e que tanto tem ajuda os países africanos e asiáticos que com eles cooperam. Bem, não foi exactamente assim que Hervé Rénard veio cá parar, porém o desporto é um canteiro de cooperação internacional que os angolanos não regam. Talvez porque pensemos não precisar...
Voltando a bons exemplos lá de fora, um exemplo a seguir é o de federações de países que se têm feito à custa do saber colectivo e unidade dos seus filiados. Por exemplo, a Real federação espanhola de basquetebol não abre mão dos seus ex-seleccionadores, têm todos lugar honorífico que seja na sua comissão técnica e, sempre que haja a oportunidade, arranjam emprego para um deles ou indicam um se for oferecido um posto, especialmente fora da Espanha.
Vamos ver agora o nosso caso. Recordo um dia já neste século, em Joanesburgo, quando o Ministro sul-africano do desporto pedia solenemente ao seu homólogo angolano, quando se despediam na visita que o segundo fizera ao primeiro, tendo-nos pedido que ajudássemos a África do Sul a conseguir um treinador angolano de basquetebol para lhes ensinar como havíamos feito. Esse técnico, que nunca aqui se voltou a falar, também nunca saiu daquela conversa. E isso deixou-me a pensar, anos passados.
O esquecimento não fora para proteger o património nacional, mas simplesmente por descaso, pois nós tornámo-nos assim despreocupados, viventes de um dia de cada vez, e por isso temos estado a parar no tempo que corre mais depressa do que nós encontramos soluções para as nossas questões graves, mas nem por isso céleres.
De resto, também só tínhamos mesmo um treinador angolano de basquetebol capaz de segurar o inglês sem gaguejar em 24 segundos de posse de fala..., e este déficite não só nos rouba emprego, como também nos dificulta a comunicação e condiciona em muito a evolução profissional.
A coisa falhou também porque ainda não temos essa cultura participativa, e prontos. Vamos só a crescer ‘de per si’, mas carregados dos vícios com que se erra na vida. Os valores que eram nossos e andam desaparecidos só vieram dar espaço a má educação cívica sobre valores e princípios neles erradicados, como a nação e a união em torno dos símbolos e objectivos nacionais. E o pior é se nos deixamos ficar pelo formal, enquanto informalmente nos vamos parecendo a opositores.
Eu também só falo porque sigo o nosso desporto de perto, desde o seu surgimento oficial em 1978-79, até hoje, e acho naturalmente claro para mim aquilo que se passa, assim como o que nos falta fazer, porém parece que ninguém quer, que é crescer juntos e dirimir civilizadamente as nossas diferenças profissionais no seio classe sem criar desunião.
Os angolanos precisam de aprender a vencer, que é o inverso de ser convencidos. Precisamos todos de sair da zona de conforto e descobrir como se faz e deixa obra, ao invés de querer ser sem poder.
Por isso digo sempre que, para nós, é importante salvar economicamente esta juventude através de 3 grandes dádivas que a natureza nos dá: agricultura, energias limpas e um potencial incrível para a indústria cultural, que cria rios de emprego, pois talento nunca nos falta em nada quando queremos.
Assim o desporto tem um nicho importante para a economia nacional e o emprego, ao invés de nos limitarmos a ver o MINJUD mostrar o tão pouco que é feito com uns quase 70 por cento do seu orçamento anual só para a juventude, enquanto o desporto mal acresce, nem cresce.
Neste momento o basquetebol enfrenta o momento mais crítico e que é a renovação, o rejuvenescimento, a troca de gerações pelo produto que advém das camadas com maior juventude, mas que peca por um preparo menos eficiente e que me convence, a cada ano que passa, que já não temos mais no basquetebol os homens que havia.
Se juntarmos os poucos técnicos angolanos capacitados, que servem na actualidade o basquetebol ou aguardam por um novo emprego nele, é visível a insuficiência dos presentes para as ingentes tarefas da modalidade que ninguém quer, mas que estão na formação.
Daí o clima gerado em torno do seleccionador da selecção angolana. Não nos convencemos que perdemos valências sempre que falhamos os refrescamentos, ‘clinics’ e outros círculos do saber desportivo, donde o mais recente diplomado dos últimos tempos é o recém-regressado de Genebra e da Solidariedade Olímpica, Zé Carlos Guimarães.
Como de hábito não se aproveita o facto de a nossa praça se ter tornado placa giratória de treinadores e atletas, para criar com os nossos eventos que sirvam para trocas de conhecimentos; é mister que raramente admitamos que temos algo a aprender com quem chega de fora. Agora espero que o Zé Carlos venha animar proximamente uma palestra para o nosso círculo selecto de treinadores, mostrando o proveito de se trabalhar unidos para a modalidade e o país.
A bola ao cesto não é caso único, pois o fenómeno da superação é uma necessidade nacional transversal e ao mesmo um terreno fértil que só precisa de regadio. O ministério possui essa mangueira de água para regar-se a plantação do desporto nacional, pois o país que estamos a precisar é o de um Estado que além de soberano e reitor, seja um partícipe activo e líder.
E os líderes sempre lideram pelo exemplo .Arlindo Macedo

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