Jornal dos Desportos

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Opinio

O exemplo que nos faz falta (I)

10 de Dezembro, 2018
Nunca algo desportivamente tão precioso agora havia passado tão volatilmente pela opinião pública e deixado, a mim, um rastro de interrogações óbvias, mas que normalmente seria merecedor de alguma manifestação sóbria pós-vitoriosa.
Angola não sucumbiu na ‘Janela FIBA’ em casa e vai ao mundial de basquetebol mais prestigiado, o de seniores masculinos. Não pareça machista, pois, cada vez mais e sob a subjugação das sociedades às novas tecnologias, qualquer ecrã torna hoje o desporto no espectáculo mais seguido, se necessário na palma da mão. E com um volume de receitas até bafejando o boteco da aldeia mais remota, mas com parabólica, sem dizer já, também com Internet. Como espectáculo mais popular do Planeta e a proporcionar cada vez mais jogos imperdíveis em ambos os sexos e para ambos os sexos também – de resto o desporto está a ganhar cada vez mais qualidade no feminino e a atrair mais mulheres aos estádios ou sentadas na frente do televisor – isso é a carambola de um jogo que rende milhares e milhões.
E quando assim não for – veja-se agora a Fórmula Um, depois da NBA e da própria FIFA – existe o primado das audiências, que chegam a impor horários aos eventos, bem como influído na mudança de regras para criar mais tensão, emoção e também espaços no jogo para publicidade que paga essa cobertura em televisão, além dos direitos comerciais para ali poder estar.
Em seguida cabe ao marketing tratar do resto, que é multiplicar milhões por milhões, gerando o retorno do qual vai uma parte para os actores, mas a maior para os organizadores e detentores dos direitos. Infelizmente para o marketing em Angola, o mercado ainda faz gemer para se conseguir juntar cem mil dólares.
Voltando ao séquito da questão, referindo-me com trocadilho àqueles que parecem ter-se eclipsado do ruído após o apuramento mundialista da selecção de basquetebol de sénior masculino – aproveitando agora para desafiar a dar-se nome às selecções para abreviar a designação do escalão etário e da classe masculina ou feminina - é preciso não escamotear o que está a passar, pois é sério.
Será a desunião típica na nossa sociedade profissional? Não são os colegas capazes de se juntar nas dificuldades e partilhar os êxitos de uns e de outros como classe profissional que avança, ao invés de avançar aos puxões para trás? Os factores de união e coesão social como o desporto devem servir isso também e fomentar a união entre os cidadãos, e por maioria de razão e de coesão quando se tratar duma selecção nacional.
Mas não aqui, será? Pelo que eu vi, é. Aqui temos isso de uns sofrerem com as vitórias de Angola que forem também do seu colega. Digo isso porque 24 horas depois de nos termos apurado, o presidente da federação agradecia as felicitações que lhe havia endereçado por ter ganho o desafio de trazer a janela para meter Angola no mundial. Então ele contou que curiosamente só eu o havia felicitado...
E também senti na mídia a mudança de rumo rápida para novos acontecimentos, sem ao menos merecer um rescaldo digno e visível a nível nacional e particularmente dos media especializados, inclusive nas redes sociais. A partir daí fiquei a pensar se doravante as nossas vitórias não interessam a todos...
Sim, reconheço que para os antipatizantes de “Maneda” este tenha ganho. Reconheço igualmente que este não quis os louros para si e defendeu sempre que mundiais e selecções, são de Angola e do Estado, não apenas das federações, e concordo, aliás, é o normal. E temos de exultar juntos na vitória dos nossos símbolos e emoções nacionais, ou mobilizar-nos para corrigir os erros. Só não podemos todos sentar-nos no lugar do treinador...
Para isso existe ainda um termo em desuso: ‘fair-play’. Desportivismo é gostar de levar uma vida desportiva, mas também ser-se honesto e leal no jogo, digno na derrota, tanto quanto na vitória. Ora, se ganhou Angola e ganhou o basquetebol, não devíamos estar a contribuir juntos para o desafio que se segue, em vez de nos desunirmos e rezar contra?
A selecção continua a pedir o rejuvenescimento e parece ainda não haver consensos a respeito, com alguns jogadores sentindo-se pendurados, outros a procurar adaptar-se a diferente posições e movimentos, mas é nota dominante que a nova geração de treinadores infelizmente não produziu novos Olímpios e Morais, acusados de não ter partido pedra como haviam feito e muito, Palma, Romero e Victorino.
Para podermos ser os fortes às pressas que sonhamos é preciso conhecer e também saber aprender com os exemplos positivos análogos. E vivemos rodeados deles.
Lá fora – e vou circunstanciar assim – os países quando cooperam incluem também na sua agenda o desporto. Claro, as poucas excepções virão confirmar a regra, mas como angolano não gostaria de ver o meu país entre esses excepcionais pela negativa. E revanchismos não trazem progressos, apenas recuos.
Arlindo Macedo


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