Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O fim dos caloteiros

06 de Outubro, 2018
Novos ventos começam imperar no seio do futebol nacional, com a recente medida tomada pelo órgão que superintende a modalidade no país, ao exigir dos clubes que competem no Campeonato da I Divisão um comprovativo de que não têm dívidas nem como os treinadores, jogadores e muito menos com demais integrantes destas. É uma medida acertada e que põe fim a era dos caloteiros na maior prova do futebol do país.
E a declaração de fundos, que a Federação Angolana de Futebol (FAF) vai passar a exigir aos clubes que participam no Campeonato Nacional da I Divisão, que nos últimos anos ganhou o cognome de Girabola Zap, representa uma medida coerente e que pode acabar com práticas recorrentes, como as de abandono da competição a meio do seu curso.
Essa prática que se tornou viseira nas últimas duas épocas, não fossem as confirmadas desistências do Benfica de Luanda em 2017 e do JGM do Huambo, parecia não conhecer um fim no seu curso, pois pelo meio da disputa da maior prova do futebol nacional, outras ameaças de abandono foram surgindo. Diga-se de passagem, isso acabava por ferir a verdade desportiva e em nada beneficiava o nosso Girabola Zap.
Como se não bastasse isso, quando estamos a escassos 21 dias do tiro de largada da próxima época, já há indícios de duas equipas poderem anunciar, nos próximos dias, a sua desistência, no caso o Sporting de Cabinda e o recém-promovido Santa Rita de Cássia. Nas hostes do emblema da cidade mais ao Norte do país, fala-se que os pendentes com equipa técnica e jogadores arrastam-se desde a temporada passada, razão pela qual o seu vice-presidente (José Samy Muai) preferiu abandonar o barco.
E como um mal nunca vem só, os apoios provenientes do patrocinador oficial têm sido escassos e, pior do que isso, tardiamente chegam às hostes da direcção do clube. Ao que parece, nem o grito de socorro manifestado pelo elenco directivo do emblema leonino cabindense, comoveu o próprio Governo Provincial, que, em tempo de crise generalizada, não pode atenuar de todo a situação do seu representante.
Aliás, o actual quadro sombrio por que passa a equipa de futebol, vem se acentuando desde a época passada, onde conseguiu “sobreviver” graças ao empenho do mais alto mandatário da província, Eugénio Laborinho, que teve de mobilizar várias empresas de Cabinda, para que a equipa terminasse, pelo menos, o Girabola-2018.
Relativamente a formação católica do Uíge o quadro não foge à regra. Propala-se mesmo pelos quatro ventos, que a situação do Santa Rita chega ser muito pior daquela que se pinta nos Leões de Cabinda, pois a direcção do clubes não encontra saídas, para poder fazer face a uma prova tão exigente como é o Girabola Zap.
O seu presidente de direcção, N\'solani Pedro, já veio a terreiro manifestar que, para a realização de uma época sem sobressaltos, o clube precisaria, no mínimo, de uma verba na ordem dos 200 milhões de kwanzas. O líder do Santa Rita deixa no ar a ideia de que os esforços estão a ser empreendidos, para que o clube consiga arregimentar os apoios para fazer face a campanha da equipa na época, que tem início dia 27 do corrente mês.
De contrário, N\'solani Pedro avança, sem evasivas, que a equipa católica não tem como continuar na fina-flor do futebol nacional. Ainda assim, é imperioso que uma lufada de ar fresco impera nas hostes do emblema da província do Uíge, para que, efectivamente, as coisas mudem de rumo e o conjunto dispute a próxima época girabolística, para o bem do próprio futebol nacional. Caso contrário, perde a própria modalidade no país.
Como disse (e bem) o Morais Canâmua clubes como 1º de Agosto, Petro de Luanda, Interclube, Sagrada Esperança da Lunda-Norte e mais alguns poucos, alimentam-se directamente do Estado, por via de organismos afins a que estão filiados.
E, se por um lado estão essas agremiações que se podem dar por felizes por ter como “sponsores” instituições públicas, num outro surgem aquelas equipas, que nesta era de crise enfrentam um verdadeiro sufoco, para aguentar a pedalada de uma prova tão exigente em termos de honorários, como é o Girabola.
E isso obriga a que essas equipas busquem soluções mais conducentes, para se adaptar a nova realidade, em que os clubes devem procurar criar Sociedades Anónimas (SAD), de formas a arregimentarem verbas para os seus cofres e, desse modo, terem pernas para caminhar por meios próprios. É verdade que não é uma tarefa fácil, mas ainda assim, impõe-se uma política mais conducente em relação aquilo que é actual conjuntura do nosso desporto e da qual o futebol não se pode dissociar.
E com o campeonato às portas, é imperioso que se busquem soluções rápidas, para que, nos próximos dias, não surjam outras equipas a manifestar a intenção de abandonar a mais alta roda do futebol nacional. Aliás o futebol, como modalidade-rainha, movimenta paixões e faz a festa do povo. E numa altura em que a dança das transferências vai fazendo mossa, nesta que é a maior prova do futebol nacional, surge pelo meio a abertura das “oficinas” de grande parte das equipas, no intuito de afinarem as estratégias para uma prova que recentemente sofreu uma inovação. Como se pode notar, ao contrário das edições passadas, em que tínhamos um campeonato com início nos meses de Fevereiro ou Março e com término em Outubro ou Novembro, a edição do Girabola 2018/2019 arranca no final deste mês e prolonga-se até Maio do próximo ano. E fruto do reajuste que sofreu a prova à época passada, com claro propósito de harmonizar o seu calendário com dos demais países africanos, tivemos a 40ª edição da maior prova nacional disputada “contra-relógio”. Portanto, tivemos a disputa das 30 jornadas do campeonato num ritmo intenso e num período de pouco mais de seis meses, com jogos alternados a meio e em finais de semana. E que venha a 41ª edição do Girabola Zap...
Sérgio V. Dias

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