Jornal dos Desportos

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Opinio

O insultuoso telefonema

05 de Maio, 2017
Humilhação. Talvez seja esse o adjectivo que mais se aproxima ao tratamento dado pelo presidente do Atlético Sport Aviação(ASA) ao treinador João Machado. Visitando a prestação do ASA nos últimos anos, no Girabola, encontramos histórico de uma equipa que está sempre a lutar até à última jornada para se manter na Primeira Divisão. Quem tiver algum tempo, procure saber em que campo o ASA treina durante a semana. Por exemplo, na segunda-feira treina no seu campo, Joaquim Dinis, lugar que não se diferencia muito de onde os bois pastam.

Terças, quartas e quintas treina no Estádio 22 de Junho, propriedade do Interclube. E quando há disponibilidade financeira, a equipa trabalha as sextas-feiras no Estádio dos Coqueiros, e na ausência de dinheiro, treinador e os jogadores conformam-se com o rústico \"Joaquim Dinis\".

Tornou-se uma ladainha ver o jogadores do Atlético Sport Aviação (ASA) reclamarem os seus salários, de tal sorte que os treinadores fazem o papel de porta-vozes. Na previsão dos jogos, passam implicitamente mensagens de grito de socorro dos jogadores.

Com esse terramoto de problemas como é possível ao presidente do Atlético Sport Aviação (ASA) aferir a responsabilidade do treinador pelos resultados que a equipa vai tendo. E já agora qual é a sua quota parte de responsabilidade no meio de tudo isso. Não foi o presidente com o seus próprios pés que concorreu para mais um mandato?

Pois então no meio de maré de dificuldades como é que os treinadores são sempre as primeiras vítimas. É coerente ao presidente do clube ou a sua direcção acharem que nenhum treinador é capaz de orientar o Atlético Sport Aviação? É que a julgar pelas entradas e saídas de treinadores, que nem assistentes de bordos a trocarem de avião, talvez o mais recomendável é que o membro da direcção assuma ele próprio o ónus de orientar a equipa, deste modo fica garantido que a equipa terá os melhores resultados e pode discutir inclusive o título. Se não esse o entendimento, Elias José e os seus, têm de reflectir e buscar a solução dos mil problemas noutro lugar. Os treinadores podem ser despedidos, e são quando se justifica, mas neste contexto, saída e entrada de treinadores é um bode expiatório. O problema está nas condições que os jogadores e o clube não tem.

O primeiro, prende-se com o lugar onde a equipa trabalha durante a semana. Andar com a casa as costas é uma vergonha para uma equipa tri-campeã nacional, uma das poucas com presença inscrita na fase final da Liga dos Clubes Campeões Africanas, uma das totalistas da prova, a par do 1º de Agosto.

É necessário criar antes condições para depois ganhar a liberdade de despedir quando for necessário os treinadores, mas nunca ao telefone. É de uma falta de urbanidade proceder ao despedimento do treinador ao telefone. É uma humilhação para um profissional que um dia pode voltar a orientar a equipa, como já o fez noutros anos. Xenofobia à parte, despedir o treinador ao telefone só pode ser com angolano e para angolano. Com um treinador ocidental, dificilmente os dirigentes angolanos procediam dessa maneira (ainda bem, pois é sempre repugnável). Ou seja, o tratamento seria de longe outro e melhor. Nada contra, pelo contrário, é o recomendável. Porém, exige-se o mesmo em relação aos treinadores nacionais.

Diz o filósofo moçambicano Severino Ngoenha à propósito deste tipo de comportamento \" (....) que retomado por nossa conta as diferentes iniciativas do Ocidente em África, dividimo-nos entre nós, em os menos ocidentalizados e os mais ocidentalizados; entre os tradicionalistas e os modernos. Afinal de contas, é o próprio homem africano que se encontra dividido. Esta divisão da alma africana constitui o essencial da crise de consciência africana moderna. Esta crise revela a nossa grande fraqueza actual, e revela o perigo de submissão sempre presente e sempre actual\" (in das Independências às liberdades, pági.122, Paulinas Editoria, 2014).
Teixeira Cândido

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