Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O Largo do Treinador

17 de Maio, 2016
As chamadas "chicotadas psicológicas" nasceram com o próprio campeonato. Não são coisa de hoje. Vêm de há muito. Passa-se que em certa época elas eram feitas de forma mais ponderada e mais cá para os nossos dias ganharam outro cariz, transformando-se quase num espectáculo à parte. Tal é a forma sistemática como os treinadores acabam despedidos.

Já tivemos épocas em que a meio da primeira volta da prova metade de equipas tinham substituído os treinadores, situação que mesmo sendo compreensível em parte, porém muitas vezes roça os píncaros do absurdo. Afinal sendo o futebol fadado a três resultados é de todo pacífico que uma equipa ao lugar de vitórias umas atrás de outras consinta também alguns deslizes.

Amiúde a sensação com que se fica é de que os dirigentes de clubes interiorizam o conceito de que os treinadores, como se de milagreiros se tratassem, devem fazer tudo para somar apenas vitórias. Só assim se pode perceber que a uma equipa ganhadora baste um tropeço para o seu treinador conhecer o olho da rua. Não interessa enumerar os mil um casos que já nos foram dados a ver.

Poder-se-á dizer que em Angola os treinadores de futebol são verdadeiros heróis, que vão para cama comprometidos com o seu emprego e na manhã seguinte acordam no desemprego. Se calhar, ironia à parte, é hora de se ir pensando na construção de um monumento em memória desta classe. A exemplo do Largo das Heroínas, do Largo da Peixeira, também devia haver o Largo do Treinador.

Na presente edição do Girabola Zap podemos nos dar por felizes. Pois, à saída da 12ª jornada apenas quatro treinadores deixaram as equipas, nomeadamente Vaz Pinto (Académica do Lobito), António Teixeira (Recreativo da Caála), Robertinho do Carmo(ASA) e Miller Gomes(Kabuskorp do Palanca), sendo que este último caso não deve ser entendido como “chicota psicológica” já que resulta de um pedido de demissão do técnico.

Mas o que interessa deixar claro é que os despedimentos de técnicos nem sempre ocorrem com justiça. Os deslizes de uma equipa são determinados por um conjunto de factores. Afinal tanto podem ser consequência da falta de jogadores potencialmente capazes, do incumprimento da direcção do clube com os atletas ou da incapacidade do técnico em disciplinar o balneário.

Mas como a corda rebenta pela parte mais fraca, como diz a velha sabedoria, o treinador é neste xadrez o elo mais fraco, a quem em última instância é assacada toda responsabilidade. Porque quando as equipas mergulham na onda de maus resultados não se procura estudar as causas. O dedo crítico é logo apontado ao treinador, mesmo que os atletas tenham salários e outras luvas em atraso, factor que, em regra, desarticula a estrutura psicológica do grupo.

Portanto, é deselegante quando são os treinadores a pagar a factura de um exercício administrativo deficiente. Os dirigentes também devem ter a coragem de assumir os seus erros. Já que não podem ser chicoteados, porque eles é que andam de chicote em punho para juncar às costas dos treinadores, ao menos que reconheçam corajosamente que no vocabulário da língua portuguesa existe uma palavra à qual, de quando em vez, deviam obedecer: demissão.

Seja como for, já é salutar que estando o Girabola Zap na fase em que está, o número de "chicotadas psicológicas" seja contado aos dedos de uma mão. É sinal que já vai havendo da parte dos nossos dirigentes uma mudança de mentalidade. De resto, trocar treinador só por trocar, sem uma profunda avaliação das razões da sua decadência não resulta em nada.

O Recreativo da Caála que em 2010 terminou "ex-aequo" com o campeão Interclube, depois de ter prescindido dos préstimos de David Dias, no único caso que a história do futebol angolano regista de um treinador despedido por ganhar, pode falar por mim. Não ganhou nada com isso, pois não fosse, já devia ostentar um título na sua galeria. Os nossos treinadores, reitero, são heróis. Erga-se um monumento para eles...
Matias Adriano

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