Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O Mundial nosso, que Deus nos d

07 de Julho, 2018
Passaram 12 anos, vá lá, duas gerações de jovens futebolistas nossos, que não fizemos à medida. Os outros jovens africanos que o Mundial mostrou, desfrutam de mais sentido de comunidade que nós; os do Marrocos, Nigéria, Senegal e Tunísia, não se lhes perde o rastro, nem se fazem rogados ao próprio país, que um dia os viu partir.
Eles têm comunidade e ela comunica-se; não são como nós, cuja comunidade seria também a soma de todos os nacionais, que partiram e procriaram fora de Angola, sem ressentimentos da pátria, e que hoje envergam a sua camisola nacional.
É um facto que muitos deles perceberam, que não tendo podido ascender à selecção do país que os acolheu, e a muitos viu nascer e crescer, apareceu quem lhes conseguisse acender uma chama patriota e levá-los ao Mundial. Angola havia logrado isso, a partir de 2002, tendo sido essa a força que levou ao Mundial de 2006, na Alemanha.
Será um sentimento genuíno, de pai arrependido, que nos fará hoje evocar os nomes do Wilson, que se foi daqui ainda infante, ou do Matuidi, que nem sequer cá nasceu, ou do Quaresma, com costela materna de Malanje? Quanto outros mais, angolanos anónimos em Portugal, haverá na forja e andarão na fila de espera, por um lugar numa selecção jovem da Espanha, França, Itália, Portugal ou algures e, até, nenhures?
A Seleção angolana tem melhorado os seus resultados, como reflecte a subida do ranking em 2017. Obviamente essa média envolve também os Sub-17, Sub-20 e Taças de Clubes da CAF, mas ainda ficamos longe da melhor posição alcançada em 1998, no 50º lugar. E este ‘rank’ já Angola havia conseguido durante a guerra civil; presentemente ocupamos o 137º lugar, sinal de que estamos a todos os níveis, pior que então.
Éramos 100º lugar em 1993, cinco anos depois atingíamos a 50ª posição do ranking FIFA-Coca Cola, nossa melhor posição de sempre. Até 2001 baixaríamos para a 55ª, logrando com a qualificação ao Mundial, jogos de preparação e da própria Copa, voltarmos ao 55º posto dessa escala mundial.
De 2014 a 2016 dispensamos completamente, tendo baixado até 143º lugar. Até 2017 evoluímos para 141, tendo chegado a 2018 em 137º lugar. Pode-se dizer que a caminhada iniciada em 2016-17, prossegue, porém, falta-nos mais que o bom ritmo, a melhor das sementeiras. E como vamos semear as bases do futuro? Eis a grande questão do momento.Enquanto se pensa nisso, urge o País dizer o que quer do futebol, se será um desenvolvimento igualitário e na base das iniciativas e capacidades de cada grupo desportivo, ou se haverá um plano concreto para Angola passar a tratar o futebol como Marca?

Mundial como montra
de nações raçudas
países com atitude

Enquanto se pensar naquilo, saiba-se que os angolanos que evoluem fora e com nome já internacional, chegavam para fechar um ‘team’ completo. Eis alguns dos seus nomes, idade e paradeiro: Aurélio Buta, 20 anos - Royal Antwerp; Bruno Gaspar, 27– Fiorentina; Wilson Eduardo, 27 – Sporting de Braga; Danny da Costa, 24 - Eintracht Frankfurt; Djalma Campos, 30– PAOK; Hélder Costa, 23– Wolverhampton; Jonás Ramalho, 24– Girona; Manuel Benson, 20– GENK; Núrio Fortuna, 22– Charleroi; Tonny Vilhena, 22– Feyenoord; Valentino Lázaro, 27– Hertha Berlin; João Mário, 25 – West Ham, por empréstimo do Inter Milan.
A nível da diplomacia do futebol tem havido também empecilhos, o primeiro dos quais um certo excesso de orgulho nacional, que nos tem levado a contactar esses atletas como se eles não tivessem onde cair mortos; não menos verdade é que alguns atletas esticam também demais a corda, lembrados do país que um dia gastava dinheiro a rodos.
Sucede ainda que alguns possuem dupla nacionalidade e esperança de jogar pelo país seu hospedeiro, ou eventualmente têm problemas pendentes do passado e continuam a não assumir a representação dos Palancas Negras. A verdade é que, com todos eles, tem de haver uma diplomacia de respeito recíproco e angolanidade no meio.
Em 1996, o então seleccionador Carlos Alhinho trouxera uma mão cheia de expatriados, para os Palancas Negras; mais tarde, a partir de 1998, Oliveira Gonçalves também havia logrado convencer alguns, que se tornaram fundamentais para levar Angola ao seu primeiro Mundial FIFA, único até aqui e cada vez mais distanciado do nosso poder e futebol.
O futebol mundial já se globalizou em termos práticos e, até, missionários; o que Zico ainda hoje faz pelo Japão, dirigindo no Brasil o estágio de jovens craques nipónicos, que Afonsinho recebe na sua academia, é um exemplo da sinergia que Angola precisa de conquistar, com o concurso dos seus pesos pesados nas ideias, por exemplo, de um Sporting, que dispõe dum ambiente propício em Alcochete para se ‘trabalhar talentos jovens’ inclinados por Angola, mas a viver e crescer em Portugal.
As selecções africanas, que mostraram a sua ‘jovem guarda’ criada nos países europeus onde residem e cresceram, revelam um trabalho forte das suas federações de futebol, decididamente em conluio com os seus respectivos governos.
Na maioria das nações africanas, é tal o papel social do desporto, que os governos costumam ser os primeiros empenhados em resultados; e se for o caso, é o ministério ou secretaria de estado do desporto que se vai encarregar do protocolo e financiamento da ‘perfilhação’ desportiva dos seus nacionais expatriados. Não apenas em futebol, mas também em atletismo e basquetebol principalmente.
Em Angola, poderá não haver um projecto, mas se houver um sentido de missão, depressa haverá ideias para um plano de resgate de talentos, aliás, acção de que devia ser transversal na cultura, pois, a Marca Angola não repousa no desporto exclusivamente.
Na nossa sociedade ainda somos metade ou mais, indiferentes à academia, às artes e literatura, notando-se o fraco apoio institucional para se lograr exprimir a grandeza e riqueza que o país tanto tem desperdiçado com talentos mal aproveitados, além de uma falta de ‘scouting’ e, em grossa medida, falta de suficiente amor pátrio colectivo forte, para sermos unidos e comunidade de facto.
É inadiável que as estruturas e elites com poder, passem angolanamente a abraçar e a tornar genuinamente uma causa nacional, fazermos das formas possíveis e massivas, promoção da Marca Angola. E deixarmos de ser falados apenas por razões negativas.

África no seu
melhor de sempre

África não entrou no Top 16 do Mundial da Rússia, mesmo jogando no verão europeu, mas, África cresceu. O continente reúne, pela primeira vez, vários países na mesma etapa geracional, algo que vai reiniciar a Alemanha, Espanha, Portugal, entre outros que chegaram ao fim de uma geração. Nós precisamos de ver o nosso nome ali entre esses países, se quisermos sair do buraco e anonimato.
De todos, Nigéria e Senegal foram os que mais perto estiveram de entrar no Top 16; fica difícil decifrar entre Marrocos, Nigéria ou Senegal, qual dos três foi o mais forte, algo que me parece ter pendido para os dirigidos do francês Hervé Rénard, que a exemplo do sérvio Vesko, podiam em seus devidos tempos ter guindado o futuro do nosso futebol a outra escola e rotinas. Na realidade, Vesko foi quem forjou a equipa com que Oliveira Gonçalves ganhou em 2001 o CAN de Sub-20. E Rénard sabe-se que nem chegou a começar...
Senegal partiu deixando à FIFA o pedido de revisão das regras. A federação senegalesa de futebol, lembra que japoneses se recusaram a atacar a Polónia só para garantir a classificação. E os últimos africanos deixaram a Rússia por causa de cartões amarelos. Apesar das reclamações do Senegal, a FIFA elogiou o critério de desempate dos cartões e respondeu que os casos de falta de atitude competitiva nesta Copa foram isolados. E Akira Nishino reconheceu que havia pedido à equipa, para segurar o resultado.
E o Japão viria a tombar, de virada. Falando do golo sentenciador do belga Chadli, o seleccionador derrotado, Nishino, considerou o contra-ataque perfeito por que não esperava: três passes, cinco protagonistas e sete toques em 9,35 segundos, menos do que correu Usain Bolt (9,58 s) para bater o recorde mundial dos 100 metros.
Mas, o Japão faria mais proezas para além de chegar onde chegou, com o nível competitivo alto que revelou e o recado que deixou ao mundo para a Copa que vem. No final da derrota com a Bélgica, deixaram o balneário limpo e uma mensagem escrita em russo: obrigado. Quando lá chegaram, os empregados de faxina iam desmaiando de incredulidade. Já nas bancadas, desde a Copa de 2010, na África do Sul, a claque nipónica tem escala de serviço, para quem deve deixar a bancada impecável após o jogo.
Mas, quem diria? Perder, eliminados, e ainda limparem o balneário...
Esta lição serve para nós Angolanos de todo o mundo: só seremos aquele grande povo uno e indivisível, quando tivermos atitudes grandes e líderes genuínos humildes.
ARLINDO MACEDO

Últimas Opinies

  • 15 de Julho, 2018

    A festa da bola que chega ao fim

    Hoje é dia decisões no Mundial-2018. A prova cerra as cortinas com a disputa da final inédita entre a França e a Croácia, as duas selecções mais regulares desta montra de futebol que a Rússia acolhe desde 14 de Junho e que justificam, acima de tudo, a sua presença neste jogo mais aguardado da prova.

    Ler mais »

  • 14 de Julho, 2018

    Bolseiros feitos pedintes

    Durante esta minha presença em Moscovo, despertou-me a atenção o facto de diariamente dezenas de jovens cidadãos nigerianos passearem-se pela cidade, num constante vai e vem, sobe e desce entre avenidas, comboios e autocarros, feitos viajantes de destino incerto.

    Ler mais »

  • 14 de Julho, 2018

    Vencidos com honra

    Inglaterra e Bélgica jogam esta tarde, em São Petersburgo, para o terceiro lugar da XXI edição do Campeonato do Mundo de futebol. Depois de as equipas terem chegado às meias-finais não era, certamente, este o desfecho que auguravam. Pode ser até uma posição honrosa, para aquilo que eram as suas estimativas iniciais, mas deixou de ser a partir da altura em que o curso das coisas permitiu sonhar mais além.

    Ler mais »

  • 13 de Julho, 2018

    Duas histrias escritas em vermelho aos quadrados

    Talvez os traços mágicos da caneta artística de Sérgio Piçarra, tivessem aqui um bom motivo, para construir uma banda desenhada e cuja história aos quadradinhos se desenrolasse, sobre os feitos protagonizados pela selecção da Croácia.

    Ler mais »

  • 13 de Julho, 2018

    Momento decisivo

    Não pode haver dúvida. O desporto não é apenas uma festa, é também um espectáculo, não muito dissociado da própria Sétima Arte.

    Ler mais »

Ver todas »