Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O nosso amadorismo nacional

20 de Junho, 2019
O espelho da desconfiança é um reflexo condicionado. No nosso caso, em que a sociedade tem vivido sob os ecos de episódios que deixam a cada dia manchas alargadas de reprovação popular, passou-se a julgar ser tudo o mesmo e serem todos iguais. Bem, espera-se que o tempo venha dizer de sua justiça, qual a verdade.
Os “Palancas Negras” são aqui o sujeito da acção. Iam eles entrar na segunda semana de treinos, no mesmo dia em que o cheque do seu subsídio começou a produzir efeitos, uma segunda-feira, dia 10 de Junho. E esse cheque só entrara na conta da federação na sexta-feira anterior, ainda por cima à tarde.
Para quem conhece o nosso sistema angolano, os benefícios desse cheque, destinados a uma caravana no estrangeiro, era coisa para levar não menos de 72 horas, isto é, 3 dias, senão mais ainda. Só que a vida da selecção não podia parar, porque o preparo está planeado para ser diário.
Explicar isso aos atletas não seria difícil se, pelo meio, não se tivesse levantado suspeitas de que também os dinheiros oferecidos pela CAF estariam mal parados. Por feliz coincidência, nesse mesmo dia, a confederação enviou um ofício pedindo que lhes indicassem uma conta para onde transferir a primeira tranche de 250 mil, do prémio de qualificação de Angola, no total de 500 mil Dólares.
É que os guineenses gabaram-se de ter recebido 15 mil cada um, e para delegações de 23 atletas, isso daria 345 mil Dólares; aí os “Palancas Negras” nem fizeram sequer contas e caíram naquilo que se não foi uma mentira, então será o caso de esses 15 mil serem o seu ganho, dum total de 500 mil quando a segunda tranche estiver paga pela CAF.
Por essa lógica, então os “Palancas Negras” hão-de receber mais que eles; quando no mesmo dia 10 reuniram, ficou acordado, dos 250 mil Dólares ofertados pela CAF, serem 150 mil para os atletas, restando 100 mil para todo o staff técnico, que vai além dos treinadores. A novidade foi que, doravante, o prémio do seleccionador é igual ao do atleta. Quanto à segunda tranche, nada foi ainda decidido no seio do grupo angolano.
Entretanto, nem só de prémios falam os dinheiros dos “Palancas Negras”. Pagar o estágio ao hotel, transportadores terrestres, proprietários das instalações desportivas usadas, asseguramento, água e iluminação, é algo que, adicionado à “semanada” dos atletas e staff incluindo os treinadores, não será pouca massa.
Para se obter essas divisas, das duas, uma: ou a FAF empobrece os 320 milhões de Kwanzas indo comprar divisas no paralelo, ou por via oficial e bancária, adquire essas divisas por quase 60 por cento menos.
A partir daí não é difícil entender o esforço administrativo para superar estes percalços cuja origem está no nosso “modus operandi” angolano, e como quem dá a ignição a isso é o cheque do custo operacional da missão, então é por demais evidente que a origem desta problemática foi, e tem sido invariavelmente, o circuito do dinheiro e os timings, cada vez que as verbas caiam na posse do ministério de tutela, que usa para o efeito, unidades orçamentárias suas para intermediários através das respectivas contas bancárias. E a massa ainda por cima, chega cortada, portanto encurtada.
Assim e diante dessa estranha forma de governança, os problemas das delegações desportivas angolanas tem sido a sistemática operação e atraso com que se desencadeia a sua execução, quem sabe, explorando uma boa quebra de rins que os angolanos adquiriram cada vez que se trate de viajar e lidar com um sem número de constrangimentos só nossos, mesmo, e que assim têm moldado a nossa idiossincrasia, também.
Para os atletas angolanos expatriados, o país vive num atraso ainda. O esforço em trazê-los para a selecção é descompensado pelas vicissitudes de estar-se numa Equipa Nacional de Angola, que não vive do ar, mas que enfrenta sistematicamente as mesmas agruras administrativas e amarguras de viagens. Infelizmente a política não é tão sensível, logo nem compreensiva, com as questões da metodologia desportiva.
Foi uma questão oportunamente levantada porque se cria há muito que na FAF se andava a malbaratar um milhão de dólares recebidos da FIFA, que nunca chegaram, nem chegarão enquanto a auditoria feita aos últimos quase 20 anos da federação, não estiverem sancionados pela FIFA. E esta só financia, até 2 milhões de dólares, projectos e não associações, que tenham sido aprovados primeiro pela própria federação internacional.
A FAF espera o sinal verde da FIFA para avançar com um projecto de centro especial de treinamento nos Campos do São Paulo, em Luanda, que são organicamente afectos ao governo provincial. Há já ideias avançadas, embora o nó do problema esteja na disputa sobre a gestão das galerias que o projecto contempla para aquele espaço.
Mas, antes disso arrancar, espera-se a FAF reentrar numa vida normal com a FIFA. Esta continua a subsidiar cada federação membro em 250 mil Dólares/ano, para custos de administração, consumíveis, etc. E esse é quase o valor gasto em cada jogo feito fora do país, por uma selecção “AA” de futebol! Daí ser fácil calcular quantas centenas de milhares de Dólares custa anualmente a vida de uma selecção “AA” de futebol...
Quando quis fundamentar a indignação com a partida dos “Palancas Negras” para o estágio, sem primeiro garantir as finanças, é-se livre de deduzir que a Senhora Ministra dos Desportos pretendia que a selecção congelasse o seu plano e esperasse em casa pelo aproximar da hora do primeiro jogo. Como disse, o país tinha outras prioridades, mas, esqueceu-se a Ministra dos Desportos, que a sua liderança não estava a segurar a bandeira certa. Se não for ela a proteger e promover o desporto, então quem o fará?
Com esses antecedentes, à data do início da segunda semana de preparação, dos “Palancas Negras”, não admiraria, quer o transtorno do plano de preparação, quer a chegada atribulada ao destino, já que os atrasos te fazem ficar no fim da fila de espera para conseguires algo como 35 lugares duma vez, num voo. Mas qual voo? Nos primeiros logo após chegar a massa. É portanto um efeito dominó...
Assim, o efeito dominó levou a que a selecção embarcasse tardiamente por não ter exactamente todas as companhias aéreas e voos para os Cairo de portas abertas e cadeiras vazias à espera dos angolanos do costume. E foi uma dádiva autenticamente, conseguir estar domingo passado no Cairo, finalmente. À frente estava um jogo de controlo com a África do Sul, ontem.
Antes do jogo, com a viagem elo meio, há que recuperar e treinar, mas treinar onde? O Cairo está cheio de equipas sedeadas ou em trânsito e que batem Angola de 10 a 0, quando se trata da diplomacia desportiva; felizmente o apoio das nossas embaixadas e consulados nunca foi regateado pelos diplomatas, de quem só se terá a agradecer sempre, contudo, a diplomacia desportiva é mais do que isso e Angola não a faz, talvez porque isso custe algum dinheirinho mais.
A verdade é que certos países conseguem com cunhas, coisas que outros só vêem a passar, e é como tudo, e em tudo, no mundo actual e viciado. Sem esses “lobbys” entras a perder em qualquer jogo e competição. Os outros países parecem aprender isso e muitos mais, mais rápido do que nós, a julgar pelos transtornos que vivemos no nosso país há repetitivos vinte e tal anos, desde que o desporto passou para esfera política da acção, em ruptura com o primado da especialização.
O seleccionador de Angola já foi campeão do mundo, em Sub-20. SrdjanVasiljevic decidiu bem ao pegar no telefone e ligar ao seu colega da África do sul, acordando amigavelmente em cancelar o jogo treino entre os “Palancas Negras” e os “Bafana-Bafana” da África do Sul. Para o sérvio pesou o receio de contraírem lesões, após sucessivos dias a improvisar e readaptar a equipa às condições encontradas no dia-a-dia, já marcadas pelo fracasso da operação financeira resultante da postura do MINJUD.
Esta é uma lição de amadorismo que não deve ser esquecida pelo País, e que infelizmente tem o protagonismo da Selecção Nacional mais representativa do País – e o que seria de outras, como a de hóquei-em-patins, com potencial para conquistar uma medalha do Mundial, a partir de 7 de julho, porém, largados à sua sorte e caídos na maior ignorância do país, e ainda mais, do próprio sector do governo. Arlindo Macedo

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