Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O po e o futebol

13 de Junho, 2019
Em casa onde faltar o pão, todos vão ralhar, mas ninguém vai ter razão. As recentes águas agitadas no panorama desportivo muito por conta do tema futebol e sub-tema selecção nacional tornou-se elucidativo de quaisquer dúvidas que restassem sobre a geopolítica do futebol na sociedade e economia nacional.
Tanto ou mais importante em termos de impacto nacional e de valoração da artefacto Nação, que o carnaval, a festa do CAN e similarmente da Copa do Mundo FIFA, são realmente marcos desportivos da maior marca desportiva em já qualquer país do Planeta. E daí, a importância particular que tem nos contextos sociológico e cultural, empregador e económico, mercantilista e industrial. Coisas que ainda nem ligamos...
E eu acredito que nunca antes, nem outro evento em que participássemos, ficasse o país tão empolgado e as armas nas trincheiras em posição de segurança, com a nossa selecção sobre o relvado dum palco mundial. De facto, actualmente os palcos do CAN tornam-se palcos do mundo, com mais de mil milhões de telespectadores.
Talvez a excepção ou terceiro momento mais mediatizado e conservado em ouro, para nós, angolanos, se haja tornado a nossa maior olimpíada de sempre, em 1992, em Barcelona, quando o basquetebol masculino de Angola derrotou a Espanha e ripostou sem complexos o “Dream Team” original. De resto, não houve e nem haverá maiores audiências desportivas no país.
O Executivo teve a oportunidade de corrigir a dinâmica imprimida ao assunto, que, como se sabe, é gerido na sede do ministério da tutela, o MINJUD. Até gostaria de começar pela postura nem sempre muito cordata e humilde de boa parte da nomenclatura angolana que se ofereceu ao exercício de cargos públicos, mas que rapidamente adquire um semblante e maneiras de importância que subjuga literalmente a opinião publica, em vez de lhe procurar corresponder e servir.
Na rubrica orçamental CAN do Egipto, onde constam 65 milhões de Kwanzas, aquilo não pode ser um número emergido da federação, mas do cálculo mental que erra por demasiado excesso de optimismo e também erra por excessiva diferença; face aos 650 milhões pedidos realmente pela Federação para o CAN, aqueles primeiros 65 milhões apenas representam uma brincadeira de mau gosto e um enorme défice orçamental...
As coisas já começaram mal, a partir daquele primeiro momento, e não é bom decalcar orçamentos de anos anteriores e supostamente sem a devida correcção cambial. De resto, aqueles mesmos 65 milhões mal chegariam para uma campanha anual apenas de (3 a 4) jogos de qualificação.
Não é suposto haver no MINJUD este tipo de pré-avaliação na elaboração orçamental, nem um Plano Estratégico que limite a participação internacional à excelência
internamente vista, que é o fundamento que devia haver para as despesas com as representações desportivas nacionais. Mesmo levando em conta que importa viajar para ir adquirindo experiência, são necessários critérios em tempos de restrições, pelo que as prioridades devem estar estabelecidas. As prioridades existem tanto entre sectores, por exemplo a Saúde e a Cultura, como existirão entre as missões desportivas, por exemplo os “Palancas Negras” e as “Pérolas”.
É um facto que se faz tudo para afirmar a igualdade dos géneros, mas existem comparações impossíveis. Aqui estamos a falar de algo capaz de parar a Nação inteira, mesmo na diáspora. Estamos, portanto, a falar de uma questão nacional, naturalmente maior que a do andebol ou basquetebol ou hóquei em patins de Angola. São as tais comparações impossíveis.
De resto, a falta de sensibilidade para a questão emana já do próprio quotidiano do fenómeno desporto em Angola, com suas virtude e vícios, os últimos dos quais se tornaram já tão processuais, que episódios de contraste não há de faltar.
De reparar, antes de mais, que um caso tão antigo como a preparação da deslocação da selecção, obteve apenas a metade do valor solicitado, que são 320 milhões de Kwanzas; e depositados numa sexta-feira à tarde (!), o que equivale a deixar estar assim, para se tentar operacionalizar na segunda-feira a seguir, dia 9.
Os timings com que se trabalha são arreliadores e arrepiantes porque os processos eivam de sinais de governança pouco saudável, mas rotineira e que já se processa com normalidade. Deste modo, nem todo o valor solicitado é chegado ao destinatário, pois alguém no ministério tem a capacidade estranhamente não questionada, de nunca dar o total recebido para o efeito. A alegação aparece como sendo a necessidade que há de o ministério pagar também outras despesas...
Os timings e os cortes são, em conclusão, as maiores pedras no sapato das missões desportivas de Angola, e particularmente daquelas que têm compromissos que não se compaginam com o nosso deixa andar. Ademais, mesmo em países africanos mais estáveis, talvez mais democráticos também, houve ministros que caíram da cadeira por menos atrevimento com laivos de ultraje nacional.
Angola, cansada de guerra, a sarar das feridas, e das caídas também, devia passar um mês de futebol merecido, já que o nosso país logrou passar do sofrível e chegar a uma oportunidade de se confrontar com os demais a um nível que move, sem dúvida, o patriotismo nacional em larga escala. E quando não se olha para isto com a mesma expectativa que a opinião pública nacional, fica-se a um passo de errar politicamente de forma crassa.
A política não deve descaracterizar o desporto, tal como descaracterizou o carnaval, virtualmente uma festa para a satirização; a política deve ser presumidamente a acção acertada e seguida quase cegamente pela população. Qualquer coisa longe disto será ainda política, mas pouco fadada a simpatia, nem a um efeito duradouro e sustentável. E eis porque se pode tornar também socialmente perigoso brincar aos futebóis...
Os “Palancas Negras” são, por assim dizer, o nosso embaixador de boa-vontade, que espalha pelos lares a febre nacional do futebol com as cores nacionais e funciona como um barómetro, ou termómetro, consoante o que se pretender medir na sociedade. É um facto que a importância do futebol vai muito para além da política, pois além da indústria do espectáculo, o desporto e o futebol em particular, podem criar emprego, segurança social, integração nas comunidades, daí gerando sustentabilidade e um futuro mais sorridente.
Assim e arrematando a conversa, sem os termos sustentabilidade e governança mais presentes no vocabulário e agenda de quem governa, será ainda crítico gerir Angola e produzir resultados que valham e durem.
É preciso sairmos do achar-se normal ao paradoxal. Se Angola é rica em rios mas a água não chega a todos; se Angola tem aproveitamentos hidro-eléctricos mas desenvolveu mais a cultura das turbinas e geradores; e se Angola ainda tem dezoito cidades mas a maioria vai acabar por voltar a ser vilas, é lógico que a razoabilidade interrogue sempre estes absurdos que vivemos quotidianamente.
Para o desporto, e de todos absurdos quanto vemos, nenhum foi maior, ainda, que o desmoronar das valências daquele instituto, INEF, que costumava formar a ciência desportiva nacional e que tantos treinadores e selecionadores deu a Angola, hoje desempregados na maioria e trocados por treinadores de gesta rápida entre nós, também eles trocados por vitórias a um ritmo assustador, todavia lançando no descrédito e desemprego uma classe técnica nacional depreciada, abandonada, quase inanimada e não tarda, extensamente vegetalizada.ARLINDO MACEDO


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