Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O Petro(leo) de Toms e a reaco dos adeptos

21 de Setembro, 2019
O Petro de Luanda, na quarta-feira, tirou a barriga da miséria ao ganhar ao Sagrada Esperança, por 1-0. Na próxima segunda-feira vai ao reduto do Ferrovuário do Huambo. Os sócios e adeptos esperam que os tricolores se mantenham na senda vitóriosa, porque a verdade nua e crua é esta: sócios e adeptos que morrem de amor pelo seu clube, seja entre nós ou fora de portas, varia sempre. Por conta disto, é comum dizerem que quando um treinador está a orientar bem e a acolher vitórias passa a ser um técnico bestial, isto é, muito querido, amado, aplaudido. Mas, quando colhe apenas desaires, derrotas atrás de derrotas, fracassos na disputa de títulos de campeão...recebe então o rótulo de besta, algo como um " Zé Ninguém", no capitulo de ganhos.
Mesmos os presidentes dos clubes passam por estas vicissitudes. Ainda recentemente em Portugal, à frente do Sporting, Bruno Fernandes conviveu com esta maldita sorte e, aqui entre nós, tudo indica que é por este "calvário" que trilha quem orienta e dirige o Petro de Luanda, que só vê navios desde 2009, sem lograr "vestir-se" com as faixas de campeão nacional.
É que, só por mera analogia, os adeptos são como um povo que abomina o presidente de um país pelo fracasso das suas políticas. Sobretudo, quando são de um grande clube. A reacção é fulminante. No Petro de Luanda, o empate com o Kampala City, para as Afrotaças, e a derrota frente ao Desportivo da Huíla, para o Girabola, atiçou a ira dos adeptos, chegando a ponto de já vociferarem para o afastamento do presidente da direcção do clube, Tomás Faria.
A actual direcção do Petro de Luanda acusou o toque e está, obviamente, preocupada com as promessas que fez aos sócios e adeptos do clube e, por esta razão, é que, certamente, escreveu para o Conselho de Administração da Sonangol, no sentido de ver postergado o fim do mandado para além de 2020, posto que tem de cumprir ainda com as promessas feitas.
Digamos que diante dos seus sócios e adeptos, a direcção quer sair de cabeça erguida. Pelo menos com a conquista do Girabola. A curiosidade - na falta do esclarecimento, oficial ou oficioso - está em saber se a Sonangol, hoje por hoje apostada noutro modelo de gestão empresarial público - privado, se ainda continuará ou não a reservar o mesmo orçamento para o Petro, em números que, não sendo embora do domínio público, abastaram sempre as sucessivas direcções que assumiram os destinos do clube da zona do Eixo-Viário.
Dito de outro modo: a empresa continuará a ser como uma espécie de "barril com petróleo" suficiente para fazer funcionar toda a máquina desportiva e competitiva do Petro de Luanda?
Esta curiosidade vem a talhe de foice. Já se ouviu muita gente a dizer que a situação financeira do Petro de Luanda só está agora para menos, se não mesmo, de mal a pior, de modo que, nesta hora, os seus dirigentes batem a porta dos gestores da grande firma petrolífera, na ânsia de verem alas abertas para melhores apoios.
E, mais ainda. Em adicional, até vasculham "influência política" para patrocínios de subsidiárias e parceiros da gigante petrolífera angolana. Tudo isto para resgatarem os bons tempos - tempos em que dirigentes petrolíferos bastavam unicamente rodopiar sobre os seus pés, olharem para onde estava a Sonangol... e verses-lhes abrir, primeiro, as postas e, depois, os cordões à bolsa.
A empresa era assim tida como um autêntico saco azul, de modo que quem hoje perde este suporte, chamado Sonangol, chora que chora! Quando não se pensava ainda nas reformas que a empresa está a encetar agora - ora entra administração, ora sai administração - e ,sobretudo, nestes dias em que se fala abertamente da privatização da Sonangol, prevista já para 2020, a vida do Petro de Luanda pode não ser fácil. Pode não ser sossegada.É verdade que pior sorte não se deseja à presente direcção e gestores do Petro de Luanda, mas sabem os mesmos que os tempos, hoje, são outros.
Ainda há dias, um nosso compatriota, que está na administração actual da Sonangol - ele que até já foi figura de prova num dos governos do país - disse o seguinte, a um jornal da praça: "(...) os problemas vividos na Sonangol são extremamente graves, tão graves quanto os do país, até porque foi sempre, e continua a ser, o pilar da economia angolana. O problema é muito grave, sistémico (...\".
Por isso, se suporte e voto de confiança não houver mais da Sonangol, para a direcção do actual presidente do Petro de Luanda, Tomás Faria, não poderá, individualmente falando, pensar logo que colheu fracasso, só por não cantar de campeão do Girabola no seu consulado.Pode sair talvez magoado pelo facto de o seu Petro de Luanda estar a soçobrar, clube que já foi papão de respeito nos tempos dos seus antecessores.
O Petro de Luanda é um grande clube. Tem uma grande equipa de futebol. E se esta direcção um dia cair, por decisão dos sócios ou pressão dos adeptos, não significará que cairá o Carmo e a Trindade. Tomás Faria e pares - aplaudindo a partir das bancadas -só deverão perceber que os mandatos não são para a vida inteira. Nada permanece " ad aeternum"....
Até os grandes castelos, os grandes presidentes - na política ou no desporto - caem, quando o povo ou os adeptos decidem. Há exemplos mil de líderes, Estados e organizações. Historicamente, há milhares de anos, o Império Romano - que foi uma das maiores civilizações dominadoras do mundo antigo - um dia chegou a ruir, depois de um milénio e cerca de 200 anos, com imperadores como Júlio César, Octávio Augusto, Pompeu, Crasso, Marco António e muitos outros!
Claro que Tomás Faria e seus pares não formam um império; não são imperadores, mas devem saber ler os sinais dos tempos. Outro exemplo? Aqui vai: houve no México o exemplo do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que só caiu depois de governar longos 71 anos.A então União Soviética durou 74 anos, depois que marcou a fundo a história do século XX com a Revolução de Outubro de 1917, sob o comando de Vladimir Illitch Ulianov "Leinini". Caiu mais tarde!
É por esta razão lógica que um dia vimos cair o que já era tido como o maior imperador do futebol africano, o camaronês Issa Hayatou, de 1988 a 2017. O Petro de Luanda, repita-se, é um grande clube. Tem uma grande equipa de futebol (e não só). E se esta direcção do Petro um dia cair por decisão dos sócios e pressão dos adeptos, não significará que cairá o Carmo e a Trindade. Tomás Faria e pares poderão, ainda assim, aplaudir a partir das bancadas. Ou não é assim? António Félix

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