Jornal dos Desportos

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Opinio

"O pulmo do Futebol"

23 de Novembro, 2016
A época futebolística deixou de ser magra com a inclusão da Taça da Independência só para os “Seis” das capital, nomeadamente ASA, Benfica de Luanda, Interclube, Petro-Atlético de Luanda, Primeiro de Agosto e Progresso do Sambizanga.

O torneio é alusivo à festa nacional e pretende reduzir o tempo de inactividade, prestando-se mais para aumentar a resistência competitiva dos jogadores ao colocar-lhes nas pernas e pulmões mais 5 jogos na época, do que servirá para os devolver às equipas no peso e forma ideais findo o defeso. Ou será que se presumiu que sendo menor o tempo de inactividade, será menos má a condição física e atlética em pré-época no início do próximo ano?

Seja qual for a presunção, a verdade é que vai ser preciso fazerem algo mais – e espero que não sejam os repetitivos e fúteis estágios no estrangeiro em virtude do comparativo custo/benefício que se seguirá e que reparo há pelo menos duas décadas sem sucesso que se aponte dos clubes, tirando um par de ocasiões ao Interclube e ao Libolo nessa lapso de tempo. Daí que vá ser mesmo preciso fazer mais que este nóvel torneio da “Independência”.

Vai ser preciso estudar melhor a importância da pré-época como medicina interna do Futebol, pois implica um consenso entre clubes e associações em prol de uma dinâmica mais abrangente que os Seis ases da capital. Que seja algo que devolva ao calendário de competição importantes ferramentas de afinação e de potenciação da resistência competitiva ulterior, como costumavam representar o torneio de abertura e a taça de honra na pré-época.

E desse modo não havia nem ricos, nem pobres, pois, o futebol era de todos. Com a elitização da gestão financeira em prol de projectos afastados do fomento, da formação e do desporto feminino a pretexto da escassez de recursos posteriormente desperdiçados na maioria dos casos da temporada, após temporada, é um ponto de reflexão que merece tanta oportunidade quanto o teve o “Torneio da Independência”, que outras APFs não estou a notar imitarem.

O treino físico dentro do futebol Angolano parece ser aquilo que pode começar a mudar o rendimento desportivo procurado e tem que ganhar maior espaço e com isso aumentar a responsabilidade dos preparadores físicos. Nas últimas décadas muito se discute e estuda sobre como avaliar, treinar e qualificar os treinos dos futebolistas. Segundo o especialista Marcos Caquietta, “Para se elaborar um treino, independentemente do desporto que for, precisamos antes de nos focar em sobrecarga, individualidade biológica, parâmetros de avaliação física, entre outros igualmente importantes, e para isso o objectivo central e primordial deve ser elaborar treinos específicos para cada modalidade. Caquietta é dos que defende que o futebolista nunca vai treinar especificamente em caixa de areia, ou realizar corridas longas.

|”O treino de resistência deve ser realizado com treinos específicos com a bola, em campos reduzidos, treinos em velocidade, entre tantos, sempre em alta intensidade, com períodos de recuperação. O treino específico para futebolistas sempre deve ser realizado no relvado, com os atletas calçando as chuteiras e realizando os movimentos parecidos com os executados nos jogos de futebol.

O princípio da especificidade deve ser aplicado em todos os períodos do ano, desde os primeiros treinos até no período preparatório geral, até os últimos treinos do período competitivo. A aplicação de treinos específicos durante toda a temporada de treinamentos é mais que importante, é uma obrigação dos profissionais da preparação física. E os dos nossos emblemas, estarão presentemente e mais que nunca à altura disso?

“É comum observarmos clubes estruturados, com diversos profissionais de alto nível compondo os departamentos médico, fisiológico e nutricional, aplicando treinamentos retrógrados e desfasados com métodos não específicos para o movimento do futebolista em campo, tais como corrida longa contínua ou intervalada, treinos em caixas de areia ou na praia, e exercícios de musculação com aparelhos, em especial em cadeia cinética aberta.

De nada adianta a análise precisa do volume e intensidade do deslocamento do futebolista em um jogo, onde em detalhes é compreendido que apesar do atleta de futebol se deslocar mais que 9 km em um jogo, a fase activa da partida, onde de fato o atleta actua e decide o jogo de futebol, é disputada em uma metragem inferior a 1,5 km, em alta intensidade.

O futebolista permanece andando, caminhando, ou trotando sob leve intensidade cerca de 80 a 85% do jogo. Nessa fase, a fase passiva, é o momento em que os futebolistas actuam sim no jogo de futebol, mas não decidem ofensiva e defensivamente o jogo. Nessa fase os atletas se recuperam dos estímulos fortes, intensos, dinâmicos e especialmente ultracurtos que compõem a fase activa de futebol “ diz o especialista M. Caquietta.

“Os gestos específicos do futebolista são intensos e curtos não ultrapassando 4 segundos de execução. Para cada acção motora de alta ou altíssima intensidade, o atleta de futebol recupera em uma partida em média 90 segundos. Portanto em cima desse panorama, como é possível pensarmos que equipas de futebol ainda se preocupam em correr em linha recta de forma cíclica contínua ou intervalada, se o jogo de futebol é caracterizado por acelerações curtas, desacelerações e gestos específicos com alta intensidade e curtas durações, com um período longo de recuperação?

O futebolista acelera em distâncias máximas de 20 metros em um jogo de futebol, contudo a maior parte dos gestos realizados em aceleração não ultrapassa 10 metros em linha recta. As acções em velocidade na maior parte das vezes acontecem de forma acíclica, com mudança de direcção, se caracterizando por desacelerações e novas acelerações na mesma acção.

“Com esses dados em mãos podemos pontuar que os gestos específicos dos futebolistas em campo são caracterizados por uma reacção rápida e curta com a mudança de direcção, novamente potencializando a necessidade da reacção rápida dos componentes neuromusculares dos futebolistas. Esses gestos rápidos de aceleração e desaceleração são produtos da optimização das derivações da força explosiva, conhecido como um fenómeno natural definido como ciclo alongamento-encurtamento, que tem como regra básica a troca instantânea e precisa da contracção excêntrica para concêntrica, também chamada como ‘pliometria’.

“Essa resposta transitória intensa, rápida e precisa, é caracterizada como a principal característica para a velocidade de reacção e das respostas rápidas, essenciais para futebolistas. Os treinos realizados em piso pouco denso, como a areia, agem negativamente dentro dos componentes neuro-musculares, aumentando a contracção excêntrica e diminuindo a fase de transição entre os dois tipos de contracção muscular excêntrico para o concêntrico.

“O treino em caixa de areia diminui o componente elástico da musculatura do futebolista, ou seja, proporciona ao atleta de futebol, uma perda da velocidade de reacção e das suas respostas imediatas. Para elaborarmos um treino, independentemente do desporto que for, precisamos antes de focarmos em sobrecarga, individualidade biológica, parâmetros de avaliação física, entre outros igualmente importantes, o objetivo central e primordial deve ser elaborar treinos específicos para cada modalidade.

O futebolista nunca vai treinar específicamente em caixa de areia, ou realizando corridas longas. O treino de resistência deve ser realizado com treinos específicos com a bola, em campos reduzidos, treinos em velocidade, entre tantos, sempre em alta intensidade, com períodos de recuperação O treino específico para futebolistas, sempre deve ser realizado no relvado, com os atletas calçando chuteiras e realizando os movimentos parecidos com os executados nos jogos de futebol“, conclui o professor Marcos Caquietta.

Era o momento em que gostaria de homenagear a título póstumo o malogrado preparador físico, professor Mabi de Almeida, quem emprestou à única campanha mundialista de Angola em Absolutos, na Alemanha, em 2006, país esse de que era também originária a escola de Mabi. A par de experiências como treinador de campo, o preparador físico foi acima de tudo um bom programador e que elevou o rendimento do futebol Angolano aos 95 minutos de jogo, como confirmou a campanha 2002-2006 dos Palancas Negras, antes de poder assentar arraiais em Celle, Hannover.

Antes dele e nos idos anos 80, havia sido um jugoslavo, treinador-seleccionador, Skoric, que guindou igualmente o Asa ao seu apogeu depois da Independência, quem havia conseguido colocar os “Palancas Negras” a render mais do que 65 a 70 minutos, antes de sucumbirem a adversários mais competitivos.

Assim e com este “Torneio Independência” espero estar a viver o renascimento do futebol Angolano na óptica da competição e desporto feito a sério como profissionais que se julgam, num augúrio de breve regresso aos torneios de pré-época, tais como o Torneio de Abertura das APFs e a respectiva Taça de Honra, que tragam igualmente a oportunidade de testar e observar jogadores mais jovens habitualmente só vistos no campeonato da categoria e que podem representar talentos e diamantes em bruto do futebol, o que viria dar um sinal positivo e encorajador ao desporto de formação, de que valerá a pena voltar a sorrir. E deste modo espero também que esteja a recomeçar a fisioterapia do Futebol de Angola. * Nota: o presente artigo originalmente em duas partes foi revisto e adaptado para edição única neste jornal.
Arlindo Macedo

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