Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O que feito do nosso legado desportivo?

17 de Janeiro, 2019
Cada ano começamos igual. Sem contas completamente feitas à despesa, nem certezas de subsídio. O cinto foi apertado para todos, pois até os Directores do Estado já só podem viajar em económica. Assim e na senda da eliminação das gorduras do Estado, em que medida se prevê a condigna representação do nosso País e Povo nos palcos mundiais onde o desporto continua a levar a bandeira e o postal de Angola?
No dia em que eu soube que o novo modelo da Liga dos Campeões da FIBA África vai fazer as equipas viajarem três vezes, pelo menos, na fase de grupos e o prosseguimento em competição poderá ascender a sete viagens, atirei as mãos à cabeça e fiz uma leitura tão simples quanto fosse concluir que os putos estão lixados mais uma vez.
Como à data da feitura do orçamento ainda se desconhece o que virá no ano novo como ‘outros encargos’, nem quanto o sector da Juventude absorverá desta vez do orçamento do Ministério, MINJUD, cifra que ultrapassava os 70 por cento e pode voltar a crescer em 2019. O caso é de recente memória, quando a secretária de Estado da Juventude lamentou em público o crédito malparado de mais de 300 milhões de dólares de investimento público...
Não é preciso demorar para adivinhar que se as reservas líquidas não chegarem para os apetites seniores, então os sacrificados serão os cordeiros de sempre, as camadas de formação. E isto não só afecta a crianças e adolescentes sem a devida atenção e cuidado técnico desportivo, nem implica que qualquer treinador ou professor de educação física possa também ensinar um desporto sem primeiro receber uma formação de especialidade.
Voltando ao cinto apertado, antevê-se novamente um ano atribulado para as Finanças públicas e as livranças do Tesouro Nacional se articularem em tempo útil para a prestação quantitativa e também qualitativa do Estado, aos agentes desportivos, seus parceiros e ainda representantes. O ‘modus operandi’ destes pagamentos sofrem frequentemente com atrasos e reservas sobre a lisura das operações financeiras sem adjudicação directa e feitas por intermediários, que arbitram igualmente a situação.
Assim, e desconhecendo-se que subsídio vai usufruir o desporto em 2019, não me há-de surpreender renovados votos de atribulações na linha do horizonte de cada missão desportiva, com a legítima suspeição de que de todos os desportos subsidiados, será o andebol aquele que, apesar dos altos méritos como “A primeira modalidade nacional, das modalidades” em rendimento desportivo, ainda usufruirá da indisfarçável atenção e cuidado pessoal da Ministra dos desportos.
Já devíamos estar cansados de improvisar, embora seja através dessa atribulação toda, que a muitos lares vá chegando comida. Essa engrenagem é como uma correia quando se movimenta, todos saem a ganhar, porém, isso tem de ser entendido como o risco de a missão desportiva começar mal, logo nos preparativos. Sem uma direcção desportiva de facto a vigorar no Ministério, alguma entidade orgânica que velasse pela regulamentação e regulação dos estágios desportivos, providenciando na crise uma gestão estratégica em termos orçamentais e da despesa, então arriscamo-nos a viver outro ano de improvisação, em improvisação.
Assim, a questão que mais me preocupa é a sucessiva hipoteca que engordamos ao adiar sistematicamente a etapa escolar do desporto, que aliás pronunciara o Presidente no seu discurso na cerimónia de empossamento, em setembro de 2017. Apenas meses ais tarde, em 2018, e por uma vez se ouviu que os Ministérios da Educação e da Juventude e Desporto haviam iniciado um preparo conjunto de alguma coisa que só pode ter sido uma máscara para a situação, que felizmente ainda não está posta.
Desta forma, eu creio que fica mais claro como os escalões de formação são os pagadores de factura quando as coisas pioram em casa, logo também no desporto. A vantagem da regulamentação desportiva está em corrigir o que está mal e está mal os clubes descarregarem nas camadas de formação, o excesso de peso e gordura social dos seus orçamentos.
Cada ano que atrasamos a lançar as bases alargadas de um desporto para as crianças, que nos foi prometido desde os primórdios do País, serão até 7 anos de atraso em relação à geografia e relevo desportivo que poderíamos alcançar.
Vamos ver um caso simples. De atenção e de vocação. De diálogos que não acontecem. De absurdos num país mergulhado em necessidades graves e muitas delas, extremas.
O caso passa-se no Huambo, às 16h50, com um sujeito magro e inquieto que não estava a assustar, apesar de se apresentar carregado de razões: ele havia escrito, avisado, anunciado e chegado, vindo de outros dois vizinhos com quem havia acertado irem para ali, na casa do terceiro, que além de estar a meio caminho, haveria de prevalecer como sendo um símbolo nacional que se iria celebrar, se fosse escolhido para oferecer uma formação. Praticamente é oferecer...
Eu não sei se deixaram o homem fumar, nem se ali perto serviam café, mas o homem só me dizia que estava ali à espera desde amanhã, que tinha que voltar a Luanda no dia seguinte de manhã, mas que não queria acreditar que ia voltar sem nada feito. Que era o mais provável, contudo ele havia feito uma SMS a pedir socorro a alguém ligado aos Directores Provinciais da Educação, e da Juventude de Desportos, para receberem o presente que lhes estão a levar.
Assim, é bom irem já retendo as datas seguintes: 5 e 6 de Fevereiro, no Huambo e em local por indicar, e depois, dias 8 e 9, em Luanda, também com local por indicar, vai haver um curso muito interessante e que deve despertar o interesse a todo o professor de educação física, coordenador da modalidade, seja em clube, colégio, administração municipal ou comunal, ou ainda treinador de basquetebol, aproveite para ligar o seu nome ao futuro do basquetebol. Inscreve-te assim que souberes o local, por apenas dois mil e quinhentos kwanzas...
A iniciativa é da Osipipi, conjuntamente com a Associação dos Treinadores de Basquetebol, e isto não é nenhuma publi-reportagem, nem estou a dizer algo que seja comercialmente relevante, bem pelo contrário, estou a fazer um serviço de utilidade pública divulgando essa oportunidade para a redução de um problema que todos enfrentamos quando falamos de futuro, de legado, de obra e de história da nossa passagem pelo Planeta Terra e pela nossa própria terra.
Como defendem os promotores, ambos treinadores da modalidade, tem que se capacitar as pessoas que muito cedo detectarem o talento. A criança começa a praticar desporto aos 8 anos, até aos 12-13 anos, e deste modo são os monitores basquetebol e os professores de educação física aqueles que primeiro entram em contacto com essas crianças.
Porque não dotar essas pessoas de melhores conhecimentos pedagógicos, de conteúdo do treino e de programação, tudo adequado à criança; porque a criança não é um adulto pequeno. A criança é criança e tem a sua especificidade. A ideia é fazer essa formação agora, graças a dois patrocinadores, o Banco BFA e o consultório médico-pediátrico PEANDRA.
Para garantir o êxito da primeira iniciativa privada do género, enlaçando o sector privado com uma associação de treinadores, foi convidada uma celebridade do basquetebol falado em português, com já 32 anos de docência e formadora de formação. A mesma vai viver uma semana intensa em Angola e com o futuro do nosso basquetebol.
Ela chama-se Teresa Barata, licenciada em educação física, e é professora e formadora há 32 anos, durante os quais também foi coordenadora técnica de vários clubes, sendo presentemente seleccionadora de Portugal Sub-14, além de formadora do nível 1 da Escola nacional de formação, da Federação Portuguesa de Basquetebol.
“Espero que me recebam, mandei e-mail, escrevi para eles, disse que vinha, e até agora não consigo falar com eles (16h50). Espero bem que me recebam, já mandei outro SMS ao director da Educação, espero que me recebam, vou explicar a ideia, até o Huambo não vai gastar nada, é só a vontade de querer fazer alguma coisa no Huambo, depois de termos sido já recebidos pelos directores provinciais da Educação e dos Desportos de Benguela e do Bié.
“Estou agora eu aqui de mãos atadas nesta sala de espera...”, ouvi por fim, da mensagem angustiada de um co-organizador do curso que vem mesmo a calhar, ao qual ambos os Ministérios da Educação e da Juventude e Desportos deviam abraçar com os dois braços, pois este é um tipo de parceria raro, com efeito igualmente raro, pois o País precisa de milhares de treinadores de mini-tudo, incluindo ministério.
Arlindo Macedo

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