Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O retrocesso assegurado do nosso desporto

23 de Maio, 2019
Estou indignado. Um dos patriotas que mais fez para Angola chegar aos píncaros no Desporto, afinal não tem direito a galeria de honra no ministério do desporto. Falo daquele que foi o primeiro Secretário de Estado da Educação Física e Desporto de Angola, antigo atleta e recordista angolano, Ruy Mingas.
A sua foto não está na galeria de honra do Ministério da Juventude e Desportos, ao lado das fotos de outros Ministros, incluindo o primeiro deles, na nomenclatura nova adoptada pela instituição, que mudou de nomenclatura, tendo passado de Secretaria de Estado da Educação Física e Desporto, a Ministério da Juventude e Desportos. E a razão invocada repetidas vezes, é que Ruy Mingas só foi Secretário de Estado, e não Ministro (!). Sinceramente, pode? Colhe razão?
A verdade é que os fundamentos, metodologia, gestão desportiva apropriada do sector, pouco mais se manteria nos níveis necessários e profissionais, depois que, após o mandato de José Sardinha de Castro, começaram a suceder-se os Ministros chegados da juventude do partido. Como era de esperar, não só era maior a sua propensão para dossiers da juventude, como aos poucos se foram desfazendo dos pergaminhos do Desporto que nutria o sector.
Então, sobre quais fundações assenta hoje o MINJUD? As que criou, ou as que havia encontrado? É somente uma questão de nomenclatura, não de contradição. Por acaso, se amanhã o desporto for entregue a uma alta-autoridade ou agência especializada do governo – improvável pois muitos militam para chegar a ministro e pastas com tal título fazem falta então – seria crível que a actual galeria de fotos dos titulares do desporto fosse refeita só para conter apenas esse hipotético rol de futuros dirigentes do desporto?
A História não se apaga, é feita por homens e a homens se devem também os proscritos da história. No caso vertente, não passa de uma amostra de imaturidade no processo de edificação de um país, que infelizmente para muitos parece laboratório de experiências baseados em quero, posso e mando.
Os fundamentos do desporto e as fundações que daí nasceram, felizmente, não se devem a políticos da juventude partidária, que tem sido a vaga desde finais dos Anos 90 até ao presente, mas a quadros técnicos e especialistas desportivos que um dia o país teve, e se ainda os tem, parecem não ter voz. Se não cá vivesse e me contassem que, por exemplo, Vitorino Cunha continua no ministério, acreditaria que de conselheiro só deva ter o título, porque não revejo na construção actual do desporto angolano, laivos e lampejos de revolucionária sapiência desportiva.
desaparecessem da galeria as imagens dos ministros dos desportos precisam-se - Paradoxo e contra-senso comum, como se numa família se destrinçasse entre filhos e
enteados. Mais um caso que cria controvérsia e desunião em vez de unidade, e também por isso a nação tarda.
Sinceramente, somos uma sociedade de banga e incongruências de todo o tamanho. Por acaso a história da República Popular de Angola não fará parte da história de Angola, por actualmente esta se chamar só República de Angola? A história não se apaga e por mais que finquem o pé, e à excepção do antigo Ministro, José Sardinha de Castro, que sucedeu a Rui Mingas, é francamente um bico de obra encontrar obra desportiva nos seus sucessores, perfeitamente identificados com a falta de iniciativas duradouras e de crescimento do sector. Até hoje!
O desporto tornou-se um recreio, contudo, a escola pública nem desporto tem. E este é um dos nossos muitos paradoxos, como sociedade e como projecto, num país. Quando há dias li que o antigo seleccionador de basquetebol, Alberto de Carvalho “Ginguba” poderá ter ameaçado o banco que ocupa no Interclube, após anos sabáticos desde que o seu projecto de massificação de basquetebol no Cuando-Cubango fechou portas, a acontecer, virá comprovar que não temos projecto de facto.
Vivemos do momento e, a bem dizer, mais valia entregar o desporto aos estrangeiros que desembarcarem por ar, terra e mar, já que os treinadores e candidatos a monitores, nem a atenção têm do ministério, para fomentar a formação de quadros técnicos desportivos. Não sou xenófobo e nem tenho algo contra os treinadores estrangeiros, que afinal estão a vir dar uma ajuda, além de ganharem a sua vida, embora cada um deles desempregue um angolano.
No entanto e enquanto o mapa desportivo vai secando, inclusive com emblemas do tamanho do Libolo a terem de fechar portas, sem que se notasse um esforço provincial ou municipal, no Kwanza-Sul, para preservar, ao menos, uma equipa sua à escolha e manter a representatividade, aumenta a minha convicção de que existe aqui em casa uma falta de iniciativa, política inclusive, para reverter o quadro, embora e curiosamente, a necessária Direcção Nacional do Desporto tenha sido abolida, para aparecer a Direcção Nacional das Políticas Desportivas.
Isso, assim ouvido ou lido, deve parecer uma grande coisa, porém, não estou a ver ponta de obra começada, e já lá vão anos de existência desse órgão abstracto do MINJUD, à luz dos resultados ou iniciativas desse ente do organograma do MINJUD.
Políticas são coisas de integração e o MINJUD não parece integrado a nenhum programa de lançamento desportivo dos municípios, ou daquilo que o Presidente João Lourenço havia prometido, que era inclusão do desporto no programa oficial de ensino. Até aqui e na minha opinião, isso tem sido um brincar-se aos nomes e fazer-se de conta.
Diz-se que contra factos não há argumentos, porém, acho faltarem-nos ambos, na actualidade, pois o desporto está a empobrecer a olhos vistos – e neste momento as excepções serão o andebol e o hóquei em patins, com alguma esperança apenas latente ainda, no futebol – e das poucas evidências de reanimação chega-nos do Cazenga a linda história de um clube popular, os Formiguinhas, que se espera darem ao país uma mão cheia de craques, em ambos os sexos, daqui a 5 e 6 anos.
No entanto esse esforço e municipalização não foram acompanhados, ou sequer imitados. Inversamente, o panorama promete piorar, com cada vez mais atletas e treinadores a comprometer as oportunidade a angolanos, que não aumentam o desemprego entre treinadores nacionais, como comprometem o crescimento de atletas nacionais.
No entanto, graças a uma política, esta sim, de arrecadação de fundos, por via de dedução da quota, do salário do militar e do agente da polícia, clubes como o Interclube, em primeiro lugar, e o Primeiro de Agosto, em segundo, têm-se feito pequenos novos-ricos, embora com alguma inteligência, que é traço que costuma falta ao novo-riquismo, pois os dois emblemas estão a investir na sua infra-estrutura. Num particular o Inter supera o rival, ao ter parte do investimento feiro no turismo interno.
Mas, em certa medida, isso trata-se mais de economia, do que fazer crescer o desporto, uma vez que não se conhece o clube satélite dos Polícias, enquanto os Militares têm à ilharga o subsidiário emblema da Marinha de Guerra. É que quando o Interclube for o clube mais rico de Angola, ele poderá não ter o melhor desporto, ou ter a maior despesa em ir comprar fora talento e quadros que não fabricar em casa.
Nas actuais condições de crise do mercado, estranha que a Direcção Nacional das Políticas Desportivas não saísse ainda à rua a realizar um workshop sobre como extrair pão, da pedra. Na malha ou tecido desportivo nacional, este momento de crise era importante para lançar nos municípios as experiências desportivas singulares – para não dispersas meios e forças – que mais se adaptassem a criar dois clubes por modalidade em cada município, partindo do escalão infantil.
A explicação de que está-se mal e nas províncias do interior, mais ainda, não passa de uma cantilena para iludir a falta de poupança, pois a nossa administração pública é extremamente dispendiosa, fruto das pesadas e pouco diligentes estruturas organizativas, carregadas de excedentários e mordomias que custam caro ao Estado.
Infelizmente ainda não temos muito a cultura de servidores públicos, mas de autoridades que acabam por pesar no bolso do erário e do contribuinte fiscal. Talvez se vivêssemos mais modestamente houvéssemos de lograr mais possibilidades, oportunidades e realizações. Um desses pesos-pesados da despesa é precisamente o Ministério da Juventude e Desporto (MINJUD).
Assim e adiando sistematicamente o país, ocorre que o equilíbrio das contas leva à morte prematura de muitas iniciativas, por falta de uma política, para começar, de destrinças do que vale a pena, ou não, prevalecer como nado-morto no desporto nacional. Muitos recursos são ainda despendidos com projectos desportivos fracassados e que consomem importante somas que poderiam nutrir desportos com mais pés para andar em frente e bem.
Um país que não consegue praticar a nível nacional atletismo infanto-juvenil, é antes de país de sociedade pouco cultivada e desenvolvida, pois o atletismo é antes de mais, um caso de saúde pública, e se nem se logra mobilizar as crianças, que adoram correr e pular, então que desportos seremos nós capazes de fomentar e desenvolver em Angola? Sinceramente, não se (re)conhecem as políticas de fomento desportivo da Direcção Nacional das Políticas Desportivas do MINJUD!
Também não se fala do papel do desporto na nossa sociedade, nem da importância do desporto para o Estado Angolano. Não há projecto, nem estratégia; apenas há o MINJUD, em vez de haver uma alta-autoridade ou agência de gente competente em desporto, para mobilizar a sociedade para iniciativas desportivas inclusivas, com os meios sociais interessados em aderir, participar e saírem do ostracismo e indigência cultural.
Ainda assim, será importante que isso inclua o desporto federado, como sendo o vértice da nossa pirâmide desportiva. De contrário, até quando vamos teimar manter as coisas assim indefinidas e uma inércia empreendedora e funcional? Arlindo Macedo

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