Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O salrio do Presidente

28 de Janeiro, 2019
Nesta crónica de hoje é para eu considerar que, nos termos do que é urbano e sem receio, é normal as pessoas terem conhecimento que, por exemplo, o nosso Geraldo, 27 anos de idade, foi para o grande Al Alhy do Egipto, com um salário anual de 712 832 000 kwanzas; isto é...no global, corresponde a dois milhões e 300 mil dólares norte-americanos - mensalmente 59 402 500 kwanzas, equivalentes a 191 666 dólares.
E o 1º de Agosto, este clube que está no coração de muitos adeptos, não escondeu nada a ninguém. O \"miúdo\", bom médio, a fazer falta neste Girabola de 2019, foi ao Al Ahly por uma transferência de 600 mil dólares, que correspondem a 185 956 000 kwanzas, referente a quatro épocas e meia.
Mas, há dias, por exemplo, o treinador do Interclube, sem dizer quanto ganha, nem abrir o jogo sobre quanto poderá deixar de receber em termos de salário, disse que vai deixar o Interclube e hoje mesmo reunirá com a direcção, para ficar tudo a pratos limpos.
Nem em 2017, quando entrou e saiu, pela primeira vez, do clube nada transpirou, como acontece noutras paragens onde o valor e peso do salário é normal.
Esse secretismo, penso eu, vem de longe. Mas ao que me parece só é e continua a ser em África; digo na África do futebol e mesmo até na \"África politizada\". Isto é normal?
Vou dar um exemplo: continuo sem conhecer até hoje, qual era o salário oficial daquele que foi o imperador, em 29 anos de poder, um imperador do futebol africano, o camaronês Issa Hayatou, que foi o todo-poderoso presidente da Confederação Africana de Futebol, CAF.
Nesse rol de tempo todo (29 anos é uma vida), esse camaronês acumulou, em nome do futebol africano, uma fortuna incalculável só porque ele era o presidente; só porque ele muitas vezes teceu \"lobbies\"; negociou e decidiu de \"motu próprio\", quando o assunto era dinheiro que não...vinha do seu salário.
Eu considero que, onde há transparência, isto de anunciar ou conhecer o salário de um presidente, sobretudo entre nós e na África toda, não pode ser tabu.
Só não é assim, quando há tentáculos de roubalheiras protagonizados por larápios do nosso tempo, muitos deles, na minha opinião, a superarem já as teias de Al Capone, um dos maiores \"gangster\" que a América do Norte conheceu.
Na África, e sobretudo entre nós, um presidente não é apenas de um clube, não é só de uma federação, não é unicamente de uma autarquia: o Presidente de um Estado, de uma Nação pode ter salários e fortunas mal ganhas. Há exemplos mil ao nosso pé.
Aqui perto da nossa terra, no Congo Democrático, há um grande clube chamado TP Mazembe, que é dono, o senhor Moise Katumb. Há dias concorreu e perdeu na corrida ao Palácio. Tem sede de poder, mas, durante a sua campanha, jamais disse quanto rendia, pelo menos.
Justamente na RDC onde, ao tempo chamado Zaire, Mobutu mandou poderosamente, este que deixou o \"trono\" após o seu derrube.
Uma vez dessas disse que a sua fortuna estava calculada em cerca de 8 biliões de dólares.
Não sei se Mobutu alguma vez jogou à bola, mas dizem que a Justiça Suíça, em tempos, determinou a devolução à sua família, parte dessa fortuna que, certamente, também não resultou do bom \"jogo político\" mas do sangue alheio.
Agora, o meu \"xará\" Félix Tshisekedi, fez bem em mandar soltar todos os presos políticos, muitos deles homens que deram cartas no jogo da bola.
É que, às vezes até - e também temos entre nós exemplos mil temos - mesmo não se estando à frente de instituição estatal ou estadual, há salários que não justificam o \"kipupo\" da fortuna. Abaixo os marimbodos!
Deixem-me regressar ao estrangeiro: como é possível o então presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat, ter tido e deixado uma fortuna estimada em 300 milhões de dólares?
Por isso é que o então Presidente da África do Sul, Jacob Zuma, foi obrigado a devolver parte dos cerca de 14 milhões de euros usurpados do erário público, para o restauro da sua casa particular. E porquê? Porque não proveio - não senhor!- do seu salário.
Vou fazer figas para que, entre nós, as operações resgate e transparência cheguem ao futebol e, até, recuperar justiceiramente as jogadas, muitas delas corrompidas, que aconteceram no CAN de 2010. Há contas por saldar. E a PGR faz bem em mandar \"encerrar fronteiras\" para certos malqueridos.
De novo regresso ao estrangeiro, só para lembrar que, no leme da Federação Internacional de Futebol Associado, já esteve lá o então Joseph Blatter que depois caiu, porque não era honesto. Tinha um salário na ordem de 2 milhões e 400 mil dólares anuais.
Mas o seu substituto, Gianini Infatino, que é menos materialista, mas, mais \"socialista\"; mais \"comunista\", já disse que não quer auferir um salário \"insultuoso\". Será apenas o equivalente a 2 milhões de francos suíços.
Eu acho também, que se à frente da nossa Confederação Africana de Futebol, o ex-presidente Issa Hayatou não fosse tão \"imperador\", não tomaria a atitude que vimos do seu actual substituto, o malgaxe Ahmed Ahmed.
Recusou redondamente receber qualquer salário pago pelo principal organismo de futebol do continente, porque, conforme justificou, \"os salários daquela organização devem ser todos transparentes”.
Com esta atitude, só o comparo mesmo ao saudoso Fidel Castro, ex-presidente de Cuba, nosso país irmão, líder que vivia com um modesto salário oficial de 36 dólares por mês, se comparado com o que auferia Barack Obama, com os seus 400 mil/mês.
Para fechar esta crónica, não posso deixar de confiar que aqui na nossa terra, tudo caminha para a transparência. Até o ex-ministro dos transportes, Augusto Tomás, que às vezes tinha uma palavra a dizer, quando chegava a hora de dar ou não patrocínios ao Atlético Sport Aviação (ASA).
Quem um dia comparou o MPLA, esse partido que um dia foi comparado ao meu Barcelona tinha razão.
Porque, pelo que vejo, vai mudar tudo, até na transparência dos dinheiros do futebol.
Quem alinhar no jogo da batota, a \"maka\" é dele!
António Félix

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