Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O secretrio meu kamba

18 de Outubro, 2017
A pretérita semana desportiva viveu acalentada pelas brasas da ansiedade pelas nomeações que faltavam no MINJUD. As pessoas continuam a acreditar que os nomes podem trazer a diferença, alimentando isso com expectativas, porém, não nos devemos esquecer que, a fazer jus a um dito já popular entre desportistas, ‘os nomes não jogam’.

Realmente, ninguém espera por supremacias tácticas, embora se as possa conjecturar, dependendo do olho sociológico ou meramente político com que os inquilinos do poder olharem para coisa pública, e neste caso a desportiva quando feita à custa do erário.

E nunca se sabe geopoliticamente se as escolhas estão baseadas em vizinhança desportiva, ou até partidária, ou se, tecnicamente falando, as mesmas se baseiam em competências reconhecidas ou em desfrute de uma particular militância na força-mãe, e por isso é tudo muito relativo e sempre algo rectro-influenciado.

Assim sendo, as nomeações podem, mesmo, resumir-se a uma simples maioria de simpatia, ou maior facilidade de articulação de carácter entre um titular de uma pasta e os seus auxiliares imediatos escolhidos.

Seja como foi – e talvez atiçado por essas diferentes conjecturas e contingências –a última semana estava a ser particularmente pródiga em contas feitas de cabeça e com muitos já pensando em que vantagens poder tirar do ‘sorteio das cadeiras ainda vagas’. Mas, conhecidos os novos secretários de estado, fica-se a pensar agora se a escolha foi ou desportiva, ou politicamente relevante.

Realmente os jovens têm galopado posições cada vez em maior abundância, dado que os mais velhos se vão retirando, ou perecendo, deixando campo aberto aos tentáculos da juventude, mesmo se nem sempre se mostrarem adestrados para governar. Contudo, os últimos sinais dão conta de que, na super estrutura, já se considera os 30 anos de idade como sendo política e governativamente maduros.

Existia, por isso, uma mão cheia de nomes de antigos craques, presentemente activos na política. Ainda assim e pela situação crítica do sector do desporto, poder-se-ia pensar em terapeutas de choque como decerto seriam antigos quadros dos primórdios do desporto angolano – em minha opinião a melhor etapa da génese desportiva na nova sociedade que construímos – e donde, num relance, poderiam saltar à vista nomes como os de um Rui Falcão, ou Sardinha de Castro, por terem o ADN dessa velha e pródiga matriz, sem a qual temos estado somente a perder o nosso ‘pedigree’ no desporto.

Quanto aqueles que ainda haveriam de precisar de conhecer os cantos à casa primeiro, foi, no entanto, em quem a escolha recaiu, que agora uns vêem como nepótica, enquanto outros acreditam em uma lógica sequencial, ou seja, a Ministra foi promovida de secretária de estado no mesmo sector, assim como o Secretário de Estado para o desporto proveio do meio, onde se havia destacado como atleta olímpico e repetidas vezes campeão africano.

Assim e no que ao desporto mais interessa, a escolha da Ministra está a agradar aos agentes desportivos, estando a ser considerada uma ‘entrada de pé direito’.O novo Secretário de Estado do desporto, antigo internacional e agora ex-deputado, Carlos Almeida, começa a ser visto mais como um Messias, do que qualquer outro apóstolo. Só que os temos não estão para profecias, mas sacrifício.

O entusiasmo e a garra que traga o nóvel dirigente desportivo do país, seja para fazer a curto, como a médio prazo, serão de facto as principais armas com que o mesmo terá que desbravar mentes e angariar simpatizantes para as mudanças necessárias. Com ou sem alianças, mas com elas de preferência, os novos dirigentes do MINJUD têm que olhar para o sector com olhos de ver.

O importante é terem uma ideia ou noção do estado de crise ocultada do desporto e da própria juventude atípica e ociosa que ultimamente estamos a ver crescer. Um programa com uma profunda reestruturação seria ideal haver, para se poder empreender o projecto que nos falta, mas que por incluir muito trabalho e dedicação, muito preferem descartar e fingir que vai tudo bem.

E infelizmente rareia entre nós esse tipo de ministro e secretário de estado, que pense em começar algo sem medir primeiro se o benefício será ainda do seu tempo, ou chegará na hora do seu sucessor. E realmente a grandes obras, como construir uma sociedade às direitas, têm princípio, mas não fim, por serem uma missão quotidiana: ‘corrigir o que está mal e melhorar o que vai benzinho’.

Foi quando um dia se deixou para essa roda gigante do desenvolvimento, que começamos a cambalear em resultados, depois a andar para trás em práticas outrora de sucesso, tendo acabado por cairmos no sofrível, quando não medíocre, desporto angolano na actualidade.

Infelizmente é preciso reconhecer que a solução que nos resta é repartir do zero, mas em bases novas e orientadas para a auto-sustentabilidade. E esta é a verdade insofismável, ou seja indisfarçável, que parece que a maioria prefere ignorar. Não poucos os que, por teimosia, após tanto escancaramento da verdade, ainda acreditam que outras receitas milagreiras deve haver para se manterem no actual estado de coisas.

Porém e à medida que o tempo passar, só piora. Quem vier para dirigir o desporto sem essa convicção, de que está a ficar pior a cada ano, só terá no final uma anunciada dificuldade em apresentar a público resultados que satisfaçam ou um balanço positivo da sua ‘governação’. No entanto, verdade se diga, não são poucos os titulares de cargos públicos que ainda queiram, isso sim, concentrar-se primeiro nos seus proveitos e ganhos de função.

O maior realce nos pelouros repartidos costuma ir para o seu titular, porém, são os seus coadjuvantes quem terão de colocar a carroça em marcha e o desporto e juventude, em movimento. O seu trabalho, sim, é que será feito com pá e picareta, se quiserem mostrar trabalho. E se não mostrarem, saibam também que nada de particular lhes sucederá; pelo menos, foi como nos habituámos a ver as bênçãos e sucessões no sector desporto.

Por isso, como em qualquer outro sector, a reversão de uma situação vai sempre resultar da estratégia e agenda que elaborarem os secretários de estado. No desporto já estamos cansados de filmes, sendo hora de dar mais movimento ao teatro, pois o mesmo representa mais a realidade, do que a ficção.

Ficção é como tem vivido o nosso desporto. Mas se o mesmo virar um teatro de operações reais, os participantes começarão a entender a nova mentalidade precisa, mais realista, porque é uma vida feita na auto-sustentabilidade, na medida do possível, erguida sempre sobre os resultados anteriores, ou de forma a corrigir e incrementar os mesmos. Mede-se e avalia-se, sem margem para se continuar a similar.

Os governados esperam por resultados, não pelo novo modelo de carro do ministro, ou secretário de estado. E nenhuma resposta é mais séria e promissora, do que aquela que produz resultados de maneira natural, normal, repetitiva e sucessiva, como se quer no desporto.

Sobretudo porque não há dinheiro a rodos como outrora, a ideia da auto-sustentabilidade deve ser a norteadora do processo de normalização da vida desportiva nacional. E ali onde for imperativo, partir do zero é incontornável, mas, também inadiável.

Eis a questão: quem mais na actualidade desportiva está sincera e convictamente disposto a reconstruir? Haverá nesta juventude actual o saber dos Anos 80, quando os motores do desporto eram as forças armadas, as paramilitares e a indústria – sem esquecer a Escola e o INEF – e sem o domínio dessa história será possível reinventar o desporto angolano? Admito que sim, mas mostrai-vos, os mandantes, do que sois verdadeiramente capazes!

A ideia de se refundar o desporto ainda é avia mais lógica e intuitiva que nos resta, para além de mais inteligente. Não há que agradar a gregos e a troianos, mas só a uns, ou a outros. E dos gregos ficámos moralmente fartos, pelo que troianos nos dariam mais jeito nesta hora de necessário patriotismo e com a garra do saber posta nas coisas que fizermos.

O sector vive um momento em que a despesa não se compagina com os resultados e é chegado o momento de a incontornável despesa passar a significar despesa de investimento.

Não é de agora, a conversa sobre a necessidade de haver uma lei da gestão sobre a torrefacção dos duodécimos pelos agentes desportivos que obrigue os mesmos a separar até 40 por cento do orçamento, para investor. Por exemplo, gastar no clube até 40 por cento com o desporto jovem é uma prática que, quando for bem conduzida e monitorada, há-de trazer benefícios em um máximo de três anos. E os mandatos no desporto, até são de quatro anos, ou seja, suficientes para se mostrar sucesso em algo.

Sem esse investimento no trabalho do desporto de formação, haveremos de continuar na cepa torta, a sofrer revés atrás de revés, ocasionalmente salpicados com um título africano cada vez mais raro e espaçado no tempo, assim como cada vez mais em andebol somente, ou, milagrosamente, um orneio de futebol de segunda categoria que faça os angolanos agitar-se; enfim, quanto baste para manter alegres os adeptos e entretida a nação.

Deste modo, um dos grandes méritos de Carlos Almeida, poderá ser o de vir inaugurar uma era de reforço das bases do nosso desporto, trabalhando com as federações e associações provinciais na promoção do desporto infantil e feminino, ao mesmo tempo que instar os clubes a ser mais legais à luz da norma obrigatória para fazerem desporto jovem a sério, competindo às associações provinciais promover e monitorar o mesmo.

Mas não é tudo! O MINJUD tem que pressionar o ministério da educação para o desporto jovem renascer e cultivar-se no seio da juventude estudantil, criando um viveiro donde extrair mais saúde e crescimento dos jovens, assim como a proporcionar uma maior montra para a revelação da talentos que um dia possam vir a dar em craques.

Seria errado – e um mau começo de carreira – se a preocupação do novo Secretário de Estado do Desporto e do seu ministério (MINJUD) deixar-se soterrar pelos problemas postos pelos clubes e federações em relação às selecções e ao desporto sénior, que tem sido o factor predominante nas agendas do desporto e que sabem a prejuízo, cada vez maior.

As selecções e os estágios e prémios têm que parar de ser o ‘ai, Jesus’ ou a menina dos olhos do dirigismo desportivo, onde consabidamente rolam as maiores maquias e se cometem as maiores atrocidades em matéria de uma gestão responsável do desporto.
Sim, em várias modalidades, clubes e federações, os dirigentes estão mais preocupados com ganhos rápidos e quase nada a prazo.

É uma triste constatação, que se repete mais do que se gostaria, mas que explica o desprezo pelo desporto jovem nas agremiações desportivas.

Recordo quando em 1980 fomos ao nosso primeiro Africano de basquetebol, no Marrocos, e voltámos em sétimo lugar, entre 12 participantes. Não foi mau, para começo, mas o país queria mais. E foi assim que no mesmo ano nos oferecemos para organizar o primeiro Africano de basquetebol júnior, que Angola dominou nas duas primeiras edições. No entanto o móbil era fazer dessa equipa aquela que se catapultasse adiante, ao título sénior africano.

E lá chegámos, passados nove anos, em 1989. Então havia sido não uma vitória profética, mas a súmula de um êxito, o sucesso de um sistema. Até ‘putos’ começarem a mexer na receita e darem cabo do carburador que o desporto tinha. O sistema desapareceu tal como os dentes dos seus criadores. E isso foi muito mau.

Eis um trabalho sem dúvida intenso para devolver também à Educação algum protagonismo no desenvolvimento desportivo nacional, que lhe foi inexplicavelmente retirado. E pior que não termos desporto escolar, hoje é não termos professores de educação física porque lhes faltar o instituto que havia.

O lastro de prejuízos com a inopinada mudança foi tal, nos últimos 20 anos, que chegou até à formação de professores e um desporto não se estrutura sem os suficientes e adequados recursos humanos. Que já houve. Que havia, e portanto não há mais; nem tantos quanto houve, nem bons como havia. Fico sem saber se é um empobrecimento do currículo, ou da docência…

O desporto está, portanto, num momento sério da reconstrução nacional. Os tempos de agora e os próximos serão ainda de vacas magras, mas de muito suor e persistência, se pretenderem atingir o sucesso e(re)criar raízes.

E neste trabalho devem ser consumidas as principais energias que trouxer o antigo atleta de alto rendimento, Carlos Almeida, agora de caneta na mão para não assinar mais disparates de estado e poder uma visão de facto para realizar, à Carlos Almeida, um percurso digno de mandato.

Por fim, mas não por menos, o MINJUD tem em mãos despoletar uma concertação social ampla visando uma solução legal para a reforma por que clamam os antigos desportistas, atletas e treinadores. Quando em Janeiro foram recebidas na casa das leis, as angolanas que se haviam acabado de sagrar campeãs continentais de andebol sénior feminino, levaram esse apelo à reforma à Assembleia nacional, tendo ouvido a seguinte resposta do Presidente da casa: - ‘isso tem que partir de vocês, mesmas’.

Admitindo que continue a crescer o número de apelantes dessa reforma dos desportistas, tantos haverá aqueles com 40 ou mais anos de idade, como aqueles de somente uns trinta, porém nenhum com pelo menos 35 anos de carreira, mas aspirantes a serem os reformados mais precoces e sortudos do planeta. Decerto isso iria despoletar gritos no sector da função pública, por exemplo, onde a reforça chega aos 35 de serviço ou 60 de idade…

O bom governante é por princípio um visionário, gestor sensato, administrador de egos à sua volta e descobridor de talentos precisos para olear e pedalar a correia da engrenagem que ele pretende instalar. A ministra parece já ter feito a sua parte, com a escolha dos Secretários de Estado, restando a estes arregaçar as mangas e mostrarem que ideias carregam na cabeça.

Reconstruir não é para todos, tal como emendar. Mas a juventude e o desporto estão mesmo a precisar de quem emende e reconstrua.
ARLINDO MACEDO

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