Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O tamanho da nossa bitola

25 de Janeiro, 2017
Diz a sabedoria popular, raízes podres não dão fruto. Vimos a ignorar sinais dos tempos e opiniões diferentes, algo que se incorporou na divergência dos comportamentos e métodos de gestão feita à maneira de cada um. Desapareceu o temor de ser descarado e desafiante para a ordem e o estado, como quem conhece bem o campo minado em que pisa; como se todos andassem com o rabo preso. E sob o peso de gente assim temos vindo a trocar de tempos e de ventos, pois, decididamente, já não se fazem aqui Angolanos como antigamente.

A celebração do Dia do Desporto é algo que só pode afirmar-se se o fio dos tempos estiver sempre esticados e os feitos e feitores por ele unidos, viverem no conhecimento e memória dos seus contemporâneos e descendentes. Sem essa história não pode haver cultura que resista, nem Angolanos à imagem dos seus progenitores e ascendentes, cujas gerações construíram realmente com as suas mãos os bons tempos que recordaremos sempre enquanto houver memória de quão belos foram os anos primórdios da independência e com quantos se começou a fazer o desporto de rendimento em Angola. Mas essa não é a orientação do Dia do Desporto nos nossos dias, aliás, bastaria contar quantas lendas vivas intervieram e deram aos mais novos e gerações a florir, excertos dos seus tempos de glória e exemplo?

Em pleno mês do CAN, esse campeonato dos da nossa igualha e donde andamos arredados por falta de seguidores da história dos bons exemplos desportivos dos Angolanos, eis que vamos no 15º ano desde que Angola se sagrou campeã Africana de Sub-21, em futebol. E sem pernas para andar em África, estamos mais longe de repetir a proeza de 2006, quando entrámos pela primeira vez no Mundial de futebol. O similar entre esses dois feitos foram os mesmos efeitos que causaram o primeiro, potenciando poder-se atingir o segundo.

E nos bastidores, vão jazendo as boas experiências, apoios, sinergia, até mesmo empatia, entre aqueles que se vão sucedendo e a história que herdaram, como aquela que deixaram. Falta-nos essa capacidade na Angolanidade de aceitarmos como nossos, o passivo herdado; e tratar como sendo para o colectivo, a missão do nosso mandato e o significado de estar a segurar o testemunho. Ninguém quer ser menos que o predecessor, nem benfeitor para o sucessor. É tudo muito egoísta, pessoal, como a vaidade e a tolice. Os traços dos seus desastres perdem-se precisamente na falta do cultivo da história das estórias boas e más do nosso desporto, que devia-se evitar repetir.

E é nesse nexo de herança das responsabilidades – um exemplo, o do povo Alemão pós-nazismo cujos horrores são contados às novas gerações de forma a abominarem repetir isso – aproveitando-se da volatilidade das imagens e memórias da nossa marcha, ora de construção, ora de destruição, que chegamos a um estado em que revivemos o dilema de Angolanizar o domínio do Desporto como havia outrora e até aos Anos 90, entre outras causas pelo facto de actualmente faltar-nos suficiência de ciência e de competência em patamares da administração responsáveis pelo desporto, os quais seriam estruturantes para a harmonia das disposições que regulamentassem a competição nas diferentes modalidades e contribuíssem para a sua difusão e prática.

O fenómeno é tanto mais assombroso quanto abençoado pela indulgência daqueles que na administração e na legislação têm lido com dificuldade os resultados das pautas de decréscimo da nossa realidade, apresentando-nos incapazes de reagir. Servidos por quadros sem o mesmo brio dos de outrora; por suposto, seus pais, tios, e até avós. Sim, nós não somos mais como eles, somos um antigo El Dorado onde se perdeu o traçado rumo ao êxito porque construíram nos terrenos baldios onde antigamente se jogava à bola. Sim, o pano de fundo da nossa história presente do Futebol poderia ser bem esse, mesmo.

Sim, porque estamos outra vez fora do CAN? Porque além desse brio perdido, perdemos a fraternidade com que havias sempre ganho todos os desafios, pois a fraternidade inspirava-nos sentimentos de unidade e de parceria elevados, pelos quais se pautava a nossa educação e crescimento. Perdemos isso; ora porque uns endinheiraram, oura porque outros quiseram assumir o desporto para aparecer, a verdade é que não cegamos lá, enquanto povos mais humildes e em piores dificuldades que o nosso, como a instável Guiné-Bissau, ou o depauperado Zimbabué, chegam lá; e o Uganda, nosso ‘habitué’, ou a RDC, toda ela tecnicamente em guerra, como conseguem estar no CAN?

Todos esses casos comprovam que o futebol supera a crise e conquista aos homens a excelência que há neles; por mais ideologia que se mude na vida, é a cultura de certos valores e práticas criados na juventude, aquilo que nos há-de pavimentar caminho na vida. E nesses países o futebol não se desmorona tanto com a crise, pelo contrário, o futebol ajuda a tirar-nos da crise enquanto factor de mobilização, algo aqui entre nós pouco se tem cultivado também. Então há aqui diferenças sociológicas, antes de mais. E a sociologia do futebol entre Angolanos é realmente um absurdo, tanto que nem se vêem mais jogos entre bairros ou sanzalas, como antigamente; vá lá, o futebol de praia em certas comunidades piscatórias, como na Ilha do Cabo, em Luanda.

Outros países mais modestos e até aflitos, que o nosso, têm o povo mais unido com o futebol porque este lhes transforma vidas, seja através da pequena lotaria ou totobola, aos cromos e postais das equipas e jogadores que se difundem, até mesmo ao único dólar que se poupe para ajudar no interesse colectivo dos fãs do clube, algo que entre nós parece só haver no Palanca; e isso explica em parte as diferenças entre povos, de que atrás havia falado. E este é um dado incontornável sobre o estado de nação em que nos achamos.

Outro elemento diferenciador entre nós, e esses outros povos, a par do sociológico do Futebol, é ainda o cultural do Futebol, aquele saber cimentado após gerações; é forte a presença nesses países de professores de educação física enviados ao abrigo da Cooperação Francesa, para além dos conhecidos centros linguísticos da ‘Alliance Française’. A República de Angola havia atingido esse estágio em finais dos Anos 70, aquando da depois extinta Secretaria de Estado de Educação Física e Desportos, recheada de belos formandos do INEF.

De facto, nesses outros países, a presença contínua dos professores da Cooperação Francesa alicerça desportivamente esses países, não apenas por via das aulas, mas do continuado saber desportivo que os jovens adquirem ao mesmo tempo que a instrução primária e secundária do sistema de ensino nacional. São esses números exponenciais de probabilidades que fazem cedo despontar, nesses sistemas de ensino, os potenciais craques em diversas modalidades, do atletismo ao voleibol.

Estamos a ver o CAN e estivemos a notar a Guiné-Bissau. Em muito ficamos rendidos a ela; a Guiné-Bissau levou aos ombros muitos dos sonhadores Angolanos, frustrados por não lá poder estar o seu país. E no essencial da minha observação, o deles é futebol com ‘pedigree’ de academia e com evolução em países europeus de imigração, particularmente em Portugal, Bélgica, França, Holanda ou Luxemburgo. Eis que se despoleta a questão: - mas como eles têm assinalável presença no futebol internacional e nós, não? Serão eles mais numerosos em crianças, adolescentes e jovens de Angola, lá na França, Inglaterra ou Portugal? Sem estas noções, nem respostas, ser-nos-á difícil andar a par dos outros...

Claro que as comunidades deles são mais interactivas e nacionalistas, mais unidos que desavindos comparativamente aos Angolanos, dispostos por castas segundo os rendimentos e possibilidades de vida no jet set, assim separados por estatutos. E se há coisa onde estatuto só complica, é no futebol.

Por último, mas não por menos, a diferença entre os nossos emigrados, e os outros, é que eles sabem beneficiar dos países que nos acolheram, desde a autarquia à escola, em busca de garantias sociais e condições educativas que o estado deles garante, mas que em Angola se tem vindo a perder tal como se apagam velas da chama da esperança por falta de oxigénio.

Ora, desunidos por regra e torcedores por desforra, eis como os votos a conquistar na nossa praça são difíceis; são os tenores das nossas modalidades desportivas, nas suas respectivas comunidades, aqueles que mais têm que levantar-se e continuar uma missão que têm no Futebol, para lá de pendurar as chuteiras. E para que tais valências não se desperdicem, devem as associações desportivas, como associações municipais, provinciais e federações nacionais, promover a sua reintegração desportiva, como quadros técnicos e eventualmente dirigentes.

Não chegaremos concretamente a mais lado algum enquanto os candidatos que aturamos forem mais interessados em dirigir uma associação para terem visibilidade e oportunidade de vir a estar com o chefe e ter uma possibilidade de chegar ao beija-mão, ao invés desses figurões pretenderem estar no desporto para o servir, sabendo servir ou estar rodeado de quem o saiba. Este era o tipo de dirigentes que tínhamos outrora, em anos que apesar da guerra, foram mais frutíferos ao desporto e à educação física em Angola, até meados dos Anos 90, do que em tempos de paz, curiosamente.

E quando se juntar a isso a falta de manifestação nas bases, isto é no bairro e na comunidade, então o sentimento desportivo estará de rastos; em tal caso será mais difícil ainda motivar os poderes públicos a apoiar iniciativas de interesse público e desportivo, donde se infere que em tempo de paz também estamos pior de sentimentos de mobilização geral comparativamente a quando todos ainda éramos poucos. E sem bairrismo não se chega lá, e esse é o factor motivacional dos Guineenses, incomparávelmente real em relação ao nosso; verdade se diga, o tipo de gestão delituosa que se tornou moda, também desacredita os objectivos e projectos. Há, por isso, não só uma crise de identidade, mas igualmente de credibilidade.
ARLINDO MACEDO

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