Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O tempo e a medida de todas as circunstncias

03 de Maio, 2017
O nosso País abraçou o desporto em 1976 com uma dinâmica de massas que era prenúncio de algum porvir e que efectivamente revelou a juventude poderosa que havia aqui, engenhosa por formação, aguerrida e que demonstrou isso em defesa da integridade territorial e, depois e em crescendo, quando envergava as cores e emblema nacionais em cada vez mais competições internacionais.

Assim e enquanto a reputação militar do país ia de sucesso em sucesso esculpindo a imagem da juventude do país, lá houve uma alma bendita que defendesse que a tropa devia jogar umas peladinhas e então surgiam os primeiros clubes ligados a militares e paramilitares, dizendo-se que era a veia desportiva dos angolanos que pulsava.

As nossas quatro maiores vivências desportivas seguiram expoentes diferentes, no entanto. Se o futebol era forçosamente o ‘idioma’ desportivo em África, outras modalidades houve em que os Angolanos escolheram singrar, como foi caso igualmente do andebol, basquetebol e hóquei em patins. No entanto, outros feitos desportivos mais isolados ilustravam a propensão desportiva do Angolano (e do seu sistema sócio-educativo, esse importante vector de que pouco ou nada já se fala).

Assim e enquanto o futebol não arrancava a sério nos musseques, os clubes criados no asfalto foram sendo pobres actores do chamado desporto-rei, que já não tinha sequer o apoio das iniciativas da escola e do bairro. Ao contrário, o andebol e o basquetebol continuavam de mão dada com a escola, sendo mais frequentes no meio estudantil.

Quando o andebol, primeiramente, depois o basquetebol, entretanto o futebol, começaram a formar os primeiros treinadores, contudo menos expressivo em números na patinagem, o progresso foi mais concreto e hoje são todas modalidades ainda expoentes do desporto nacional de rendimento, enquanto no futebol se assiste presentemente a um recarregamento das baterias.

O futebol foi o primeiro porta-estandarte e simultaneamente o saco de pancada quando se falasse de competitividade – de resto em África só se fazem comparações entre países em futebol – e levou tempo a saborear o sucesso. Primeiramente, a conquista do CAN Sub-21, em 2001, na Etiópia, depois a chegada à Copa do Mundo FIFA, em 2006, na Alemanha, ilustravam um outro patamar que hoje não temos e que se procura resgatar.

Hoje dir-se-ia que somos fruto de heróicas batalhas e de ferozes resistências, tanto quanto nos tornávamos o pavor do resto de África no desporto jogado com as mãos; acredito que com o pé falta-nos ainda entender a força e o sentido do futebol de formação. Já não se crescem craques de outra maneira.

As mãos são uma destreza nossa antiga, mas provinha em grande medida da educação física escolar, por sua vez mãe da nossa adopção desportiva a seguir, quase sempre por via da escola, outras do bairro e da escola, muitos havendo que iam jogar distante do bairro e da escola, para poderem jogar. Mas era uma dinâmica nossa e resultava. Quase todos tinham onde jogar algo. A familiaridade com os desportos de sala e os ginásios era instantânea, para os estudantes dessa vida académica perdida.

Hoje parecemos o contrário, muitos sem saber onde ir jogar o quê. E se entretanto recordarmos que até aos Anos 90 jogávamos nas escolas, hoje interrogar-nos-íamos se estes ‘jogos escolares’ de agora são algo e a mesma coisa, pois nada substitui o desporto no dia-a-dia da escola, ainda que como forma de educação física apenas. Mas os tempos mudaram e as mentes também, embora por vezes me interrogue e sem grande benefício se foram os tempos que mudaram as mentes, ou estas que mudaram com o tempo?

Eu não quero quebrar um compromisso moral de não falar daquilo onde estiver de algum modo envolvido, que é desde recentemente o meu caso em relação ao futebol, porém, a minha opinião não visa fazer ‘política’ nem tomar partido algum, mas enaltecer um par de actos em outros tantos eventos ocorridos recentemente e que espero estarem ainda quentes para valer a pena falar disso.

Finalmente algumas glórias do antigamente foram reconhecidas em vida, todas do futebol como sempre, esperando-se que as outras modalidades com ‘pedigree’ não sintam vergonha da sua falta de originalidade, acreditando que os bons exemplos são para ser seguidos. Muitas dessas velhas glórias não devem partir sem antes deixar um testemunho que nos ajude a divulgar às mais novas gerações o que já foi o futebol em Angola.

Não é a primeira vez que o Movimento Nacional Espontâneo (MNE) faz verdadeiras ‘dádivas’ ao futebol; outrora, no tempo das vacas gordas do Didi, o movimento empreendeu uma dinâmica que teve autêntica expressão de turismo desportivo, galvanizava as selecções de futebol e basquetebol em particular cercadas de seguidores por onde andassem em África – e chegaram até aos Estados Unidos! – e foi um fartote enquanto durou, mas foi algo até ali inédito.

Depois e mais desportivamente, o empenho tido no fomento do futebol pseudo-corporativo através do ‘Girabairro’ e, muito mais significativamente, no reviver do torneio ‘Caculinhas’, trilharam passos que o meu sentir não pode ignorar. E quero finalmente felicitar – nem sei se o Futebol, se o governador de Luanda – pela extraordinária simbiose havida e a excelente ideia de tornar os dois campos de São Paulo, em Luanda, em parte e base de um futuro centro de estágio das selecções!

Depois da Igreja Tocoista, a FAF é a segunda beneficiária do pragmatismo do actual governador da capital, Higino Carneiro, quem poderá estar eventualmente na posse de um mapa de outros pequenos ‘territórios’ da vasta capital onde em um Cazenga, ou um Zango, ou outras praças fortes da população luandense, sobrarem terrenos para as peladinhas onde se possa descobrir a ‘força de futebol’ de um bairro. Poucas, raras vezes ao que sabe ou noticie, o poder ‘administrativo’ – e até neste caso poder executivo – pode dar tanto em tão pouco, ao desporto por nascer. A distorcida, senão ignorada, taxa de facilidades desportivas por número de habitantes é um ‘ratio’ que aqui já não se faz. Mas que é preciso ir minimizando. Mais do que um simples centro de estágio das selecções, o ‘São Paulo’ tem tudo para ser um ‘centro diário do futebol’ onde no intervalo da estada das selecções possa haver ‘detecção’, ‘coaching’, formação técnica, treino de treinadores, formação de formadores, entre outras aptidões.

O facto de a federação ter sido transferida para o seu antípoda – ou seja do outro lado da capital – favorece à federação ter alguma actividade na outra ‘metade’ da cidade. O centro de estágio das selecções pode tornar-se em um bom chamariz. E de 8 saltámos para 80! Seis novos pavilhões multiuso, os primeiros 5 dos quais erguidos em 2007, depois outros 4 novos estádios de futebol construídos em 2010, e eis-nos hoje aflitos para arranjar o que jogar lá dentro.

Para muitos não é tanta a dificuldade de se treinar e jogar lá dentro, mas a de poder pagar para o conseguir. Na lenga-lenga de que era preciso privatizar serviços públicos em parcerias dinâmicas e capazes de dar uma nobreza e dignidade e actividades múltiplas a esses recintos e deste modo potenciar e maximizar o usufruto desse património e etc. e tal, eis que auditorias são precisas para dinamizar essa gestão e verificar entre prós e contras, quem anda verdadeiramente a beneficiar e a lucrar com as melhorias de infra-estrutura desportiva do estado. Não sei quanto o governo provincial de Luanda vai ‘perder’ com a cedência do ‘São Paulo’, como não sei quanto o governo provincial de Luanda lucra com a gestão privada dos Coqueiros, ou da piscina ‘municipal’ de Alvalade; por sorte apareceram novos estádios e piscinas, todavia não devia ser esse o sistema predador ainda em voga. Nem cada vez mais em voga.

Somos uma sociedade estranhamente desportiva. Com cada vez mais infra-estrutura e cada vez menos prática. Não cresce o número dos praticantes de uma maneira que parece uma tendência geral, não se ‘empregam’ os técnicos nacionais, não se consegue regar o desporto para fora de meia dúzia de cidades, e são cada vez mais os cortes orçamentais dentro dos clubes, que não cortam o que é mais fácil e nocivo até para eles, que são as suas pesadas estruturas intermédias e, ainda por cima, quase sempre pouco profissionalizadas.Então é assim que andamos criando novas boas coisas sem nos desprendermos das más.
Arlindo Macedo

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