Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

O velho problema da adulterao de idades no desporto

10 de Janeiro, 2019
O fenómeno da adulteração de idades é antigo e acontece um pouco por todo o Mundo, não se limita só ao desporto, existem pessoas que adulteram a idade por motivos militares, para a obtenção de licença de condução, para estudar e assim, por diante.
Existem pessoas que usam a idade de irmãos mais velhos, ou mais novos, para diversos fins, como foi o caso de um antigo jogador de futebol de um grande clube de Benguela, na década de 60, a quem chamaremos Manelito.
Quando tinha 15 anos, Manelito jogava à vontade entre os mais velhos. Era um defesa central talentoso e impunha respeito aos adversários. Por isso, despertou o interesse de um dos clubes que disputava o campeonato distrital, no tempo do Portugal de Benguela, com o goleador -mor Januário Candengandenga, Miau e outros. Porém, o grande problema de Manelito era a idade. Com 15 anos, ele não podia jogar nos seniores, a menos que os pais permitissem. Os país dele já não faziam parte do Mundo dos vivos. Para resolver o problema, um dos dirigentes do seu novo clube, teve uma ideia “brilhante”.
Como ele conhecia as irmãs mais velhas de Manelito, contactou-as e descobriu que a diferença entre o Manelito e a irmã que ele seguia, era de três anos! Assim, com este dado, o dirigente malabarista usou das suas influências e fez um novo registo, com os mesmos dados da irmã, à excepção do nome, é claro.
Hoje, o homem tem 74 anos, no bilhete de identidade, todavia, na realidade tem 71 anos de idade. Como vemos, neste exemplo real, apenas mudamos o nome da pessoa, ao redor do Mundo existem milhares de casos parecidos.
Na década de oitenta, uma selecção municipal de sub-15 foi jogar com a sua similar da mesma província, que se situa a 30 km, para a taça provincial. No jogo da primeira mão, a equipa visitada venceu, por 4-1.
A equipa visitante precisava de ganhar no jogo de resposta, no mínimo, por 3-0. Em função da qualidade e do volume de jogo apresentado pela equipa visitada, o corpo técnico da visitante viu que não tjnha chance alguma, de vencer o jogo da segunda mão por 3-0.
Para resolver o assunto, o corpo técnico e os responsáveis da selecção, mobilizaram um jovem que na época tinha cerca de 20 anos de idade, embora, aparentasse a idade dos demais jogadores envolvidos na eliminatória.
No jogo de resposta, a selecção venceu por 5-0, com quatro golos do “super reforço”, embora fosse semi-franzino, era mais velho e ainda por cima, muito craque. Os dirigentes, o corpo técnico e os jogadores da equipa visitante, limitaram-se a murmurar: “não pode, este gajo é mais velho…vamos protestar o jogo”
A grande questão, é: como acabar com este fenómeno? É possível acabar com a adulteração de idades no desporto? Em minha modesta opinião, acho, que é muito difícil acabar com este mal.
Para tal é preciso acabar ou eliminar o motivo da sua “necessidade”. Desportivamente falando, as pessoas adulteram as idades, por causa da competição gananciosa. Quer a pessoa seja apadrinhada na trapaça, ou seja ela mesma a auto - patrocinar, a grande verdade é , que são movidos pela desejo ardente de vencer.
Temos, com o exemplo, a corrupção. É, simplesmente, impossível acabar com ela, sem que antes se eliminem os motivos da existência, que passa pelas desigualdades sociais, com a estrema pobreza a ocupar o primeiro lugar, na lista dos motivos da existência da corrupção. O máximo, que se pode fazer e se tem feito, é tomar medidas dissuasoras.
Assim, é importante que tenhamos em mente os motivos, que fazem com que algumas pessoas recorram à adulteração das idades, quando se pensar acabar com ela.
Não nos esqueçamos, que os instrumentos para a inscrição de um atleta, em qualquer instituição desportiva, é o Bilhete de Identidade ou a Certidão de Nascimento.
Os únicos elementos, capazes de provar a legalidade de tais instrumentos, são as instituições que os emitem. No entanto, em tais instituições, também existem desigualdades sociais, que propiciam a tentação do suborno directo ou indirecto.Por outro lado, temos outro factor que se calhar deve ser o principal, que também contribui, fortemente para a trapaça, ou seja, para a adulteração de idades: a falta de valores morais.
Hoje, a humanidade, praticamente não tem boas fontes nem exemplos de conduta moral a imitar e as escassas e fidedignas que existem, são rejeitadas pela maioria dos que influenciam a sociedade.
É necessário ter uma elevada força moral, para dizer não à corrupção ou a adulteração de idades, porque normalmente estes actos vis, são praticados por pessoas que estão em cargos de responsabilidade e automaticamente, transformam-se em exemplo aos demais.
Portanto, quando o que é mau é publicitado como bom, ou quando pessoas de má conduta servem de modelo, então, não se deve esperar um resultado melhor do que uma sociedade moralmente decaída e doente.
Por mais que se lute, por mais que nos esforcemos em acabar com a adulteração de idades no desporto, se não nos focarmos nos motivos principais que fazem com que ela exista, então, todos os nossos esforços serão em vão, pois, estaremos como que a golpear o ar.
AUGUSTO FERNANDES

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