Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Olhar o desporto com diferenas

01 de Fevereiro, 2018
Até domingo passado, o país do desporto viveu em suspense o início de um ano novo, não apenas pela paixão, mas também o espectáculo e entretenimento que proporcionam sempre os grandes desafios aos desportistas de um país.
Acima disso, o CAN de andebol masculino e o CHAN de futebol masculino eram duas competições para em um ano novo aspirávamos por uma nova realidade do desporto angolano, algo empobrecido nas épocas anteriores e que nos dividiram entre más recordações, amargos de boca, e somente escassas excepções, como já eram e continuam a ser o andebol feminino, o hóquei em patins, o xadrez e as ainda pouco abraçadas lutas extremas da EFC.
A similitude dos dois primeiros grandes eventos desportivos do ano é a seguinte: o desporto de alto rendimento quando tem os pressupostos necessários para os contendores angolanos, pode ser bem sucedido. E em ambos os casos, as nossas duas selecções terminaram com boa nota, salvaguardadas as diferenças que houve, num caso uma medalha de bronze de andebol africano masculino com direito a participação no mundial, e noutro um final no Top 8 do CHAN.
No entanto, o balanço desses dois torneios deixou a indicação de que a preparação ainda carece dos melhores pressupostos, quer em termos logísticos e financeiros, quer em termos de regime de estágio para a competição. O que faltou pode resumir-se em melhores condições financeiras para maiores ganhos na preparação pré-competitiva. Quer o presidente da Federação de Andebol, Pedro Godinho, quer o Seleccionador de Futebol, SrdjanVasiljevic, tocaram nessa ferida.
Se nos reportarmos a ocasiões similares e anteriores, concluiremos que em nada teve a ver com a crise financeira e económica do país, pois, em anos anteriores e ainda de fartura dos cofres públicos, houveram os mesmos constrangimentos. Ou seja, a questão das preparações para altos voos do desporto angolano têm já há mais de uma década, falhas conceptuais da importância, ou não, da alta competição para as autoridades de Angola.
Longe e cada vez mais, ficaram os anos e oportunidades que, então, eram dadas ao desporto para se preparar convenientemente as representações do país nas maiores competições continentais, como sejam os CAN, CHAN e Afrobasket, em andebol, basquetebol e futebol.
Ao chegarem até onde alcançaram, os andebolistas e futebolistas sénioresmasculinos de Angola exprimiram a esperança unânime de que da próxima vez merecem e esperam por melhores condições de preparação, se mais apoio institucional houver.
O que a mim me confrange após 40 anos de acompanhamento do desenvolvimento desportivo em Angola é que enquanto ninguém tiver a coragem de definir pública e corajosamente, se o desporto que de alto rendimento que fazemos é de facto de rendimento e para alta competição, ou apenas de entretenimento.
Não me parece o jeito correcto de se estar na alta competição, ao ter de se ficar a implorar pelos meios indispensáveis para se preparar a sério as nossas representações desportivas, que são do país, mais do que simplesmente, das suas federações. É que em mais de 40 campeonatos de África diversos que segui, notei haver em países mais humildes e menos aspirantes do que Angola, um somatório de disposições e disponibilidade que os seus próprios governos abraçavam como se de uma expressão de governação real se tratasse, com estimulação à conquista dos ceptros em causa.
Não foi por sucessivas vezes o caso de Angola, que em pelo menos três ocasiões se havia antes mobilizado para isso (Mundial de andebol feminino de 2007, Mundial de basquetebol masculino de 2010, Afrobasket masculino de 2011). Uma mobilização que, incluindo no rol o CAN de Futebol de 2010, chegou ao ponto de o país investir na construção avultada de estádios e pavilhões gimnodesportivos a preceito, mesmo se acompanhados de criticismo por serem erguidos como ‘elefantes brancos’.
Esse ‘elefantismo’ só foi sublinhado pela alegada dificuldade de se fazer a manutenção dessas infraestruturas, que abriram caminho a uma desvirtuação, que se tem acentuado, de tornar a entrega dos mesmo a parcerias público-privadas, que hoje redundam numa gestão dos ‘elefantes brancos’ voltada para o lucro das sociedades a quem ficaram entregues.
Actualmente, a par das portas trancadas a espaços desportivos que, mau grado o investimento público, não são livremente abertos ao público, sucede ainda às selecções nacionais terem constrangimentos financeiros para pagar pelos treinos nesses recintos, além de se lhes suprimirem alguns jogos de controlo, por os subsídios aos mesmos serem reduzidos e daremprimeiro mil e uma voltas até serem disponibilizados.
Ainda no capítulo das despesas de investimento no desporto, que não são despesismo, nem dispêndio se as mesmas forem vistas na óptica de desenvolvimento, causam que a generalidade das modalidades não sejam escrutinadas entre quem leva, ou não, ambições de conquista, misturando-se no mesmo saco os desportos grandes com os pequeninos. E esse igualitarismo é injusto.
Uma coisa é dar-se oportunidades a todos, e outra é dar-se a todos a mesma medida de oportunidade. Essepersistente problema dos dois pesos e duas medidas tem sido entrave às aspirações mais do que justas, de uns desportos em relação a outros. Assim e com boa nota, são vistos à priori os contratos-programa. Com eles cada um declara a dimensão do seu passo, que é preciso medir no final, se cumpriu, ou não.
Claro está, que não basta declarar aereamente que passo se pode dar; o histórico de cada modalidade deve servir de primeira aferição para avaliar o realismo de cada meta o objectivo traçados. E esta examinação deve ser monitorada pela área técnica do ministério de tutela, que tem idoneidade para avaliar a seriedade de cada projecto e proposta, federação por federação.
A isso, a tutela do desporto nacional deve agregar uma medida-projecto do desporto que o país deseja e tem efectivamente a capacidade de empreender, ou não. E desta forma, ir separando o trigo do joio no desporto angolano.
São esses critérios que urge implementar no desporto, pela ressurgida Direcção Nacional do Desporto, tido que para além dos duodécimos, que mais se assemelham a verbas correntes para a prática desportiva, é necessário aduzir e meter no saco dos recursos financeiros, a margem de melhoria de condições que os mais aspirantes carecem, em comparação com aqueles que apenas vão para participar.
Não se deve colocar no mesmo prato da balança uns e outros, sem diferenciação; os estágios de desenvolvimento dos diferentes desportos, entre nós não são tábua rasa. Por exemplo, o voleibol não pode aspirar hoje ao mesmo estatuto interno do andebol e do basquetebol, contudo, a situação excepcional – que Angola já teve – de haver duas duplas masculinas de voleibol de praia, representa em termos dos jogos olímpicos uma possibilidade de brilhar, que o resto da modalidade ainda não tem.
Assim regidos por um critério de objectivos e possibilidades, o desporto angolano deve ser medido, diferenciado e alocado de verbas consentâneas com o peso e a promessa de cada um. De contrário, o igualitarismo é o que nos aproxima de uma noção de que, para as autoridades do país, não existe um critério de aposta maior ou menor, mas, uma somente uma despesa vista indiferenciadamente como sendo um desperdício anual.
A Direcção Nacional do Desporto deve aproveitar esta questão para emanar uma política que fomente, discipline, regularize e incentive o desenvolvimento desportivo como tal, às distintas federações do país. Dar proporcionalmente mais, a quem mais tem dado. Ainda que nalguns casos, um jogo como o xadrez não seja visto como um desporto total na acepção do esforço atlético (citius-altius-fortius), mas represente ganhos enquanto assim forem valorizados os títulos que, sobretudo os jogadores xadrezistas juniores de ambos os sexos, têm com alguma regularidade trazido para o país.
Só quando em um evento desportivo esteja a brilhar o nome de Angola, é que que o país político tem acreditado no projecto. Então é meritório que esse crédito seja dado à partida, em vez de a meio. Os timings do desporto não são elásticos, nem flexíveis, mas rigorosos como rigorosa tem de ser a métrica da preparação, do estágio e da competição.
Longe estão já os dias em que o desporto também era visto como arma de combate, tal como nós apregoávamos. E bem dito era tal, porque em sã verdade, o desporto é uma arma de combate ao desemprego e alienação da juventude, é um instrumento de educação e valorização de recursos humanos para os atletas e treinadores, e não só era, como continua a ser, um digno porta-estandarte do país, do seu povo e juventude, dando de certa forma ao mundo um espelho cultural de uma nação.
Mas, Angola, país a braços com o desenvolvimento de forças produtivas e de sectores económicos, com realce para o primário, agricultura e pesca, e ainda o secundário, a indústria, é um país a braços com uma juventude galopante e no desemprego, que teria alem da agricultura e energias renováveis, a indústria cultural como maior recurso imediato. O entretenimento em toda a sua transversalidade é uma forma de ir dando aceleradamente emprego aos jovens, e não só.
O desporto é também factor de unidade nacional e de elevação patriótica, e por tal se presta a ser um instrumento político quando é preciso. A dificuldade só está em saber quando esse factor está em alta, ou arrefecido, ou então, se é um factornecessário, ou descartável.
O mercado do desporto não deve ser ignorado, nem desprovido de políticas desse mercado. Tem igualmente a sua procura e oferta, mas é preciso ter regulação. Por exemplo, o disparo dos preços nesse mercado do desporto tem sido um dos mais terríveis contaminantes da saúde económica do desporto nacional, com dirigentes, sobretudo atletas e treinadores, fazendo-se pagar acima dos preços de mercado, mas pagos, ainda assim, por não haver quem ponha a mão no amplificador dessa farra, para lhe moderar o volume.
A indústria do desporto tem que se afirmar em Angola, mas, pelas vias e medidas correctas. O estado iria ganhar com isso uma considerável atenuação sobre a crise de emprego que o país atravessa, além de ganhar em troca uma expressão do engenho e acção humanas, que o país pode ter de sobra, valorizando-se internamente e melhorando a sua imagem além fronteiras.
O desporto angolano precisa de ter nos dirigentes do país os principais carolas. E o nosso Executivo não se deve distanciar de apreciar o valor e papel do lúdico para a sociedade, nem das alegrias de que a nação precisa.
Recentemente o país tomou conhecimento de algumas despesas volumosas que não olharam a meios, nem a medidas, e sem querer questionar objectivamente isso, apenas me sirvo de um termo de comparação para a simplicidade e facilidade de se lidar, ou iludir, a crise em certos momentos.
Tudo isto veio desembocar em um tópico que nem em 2018 acredito que seja tratado com a seriedade que merece: o contrato-programa. Digo isso porque quando se pôs acento nessa figura, não se deve ter usado uma métrica diferente para dar mais, a quem mais merecer, quando se fez o estudo orçamental. E reforço a minha crença nisso porque quando se pôs também acento no desporto escolar como sendo algo premente, já se ia a meio da preparação do orçamento, pelo que não descortino no todo, o montante para essa fatia no orçamento do sector.
Não acredito que haja grande expressão para as condições excepcionais de preparação das selecções sempre que as mesmas tenha chances elevadas de sucesso internacional, tal como admito que as federações tenham de esquartejar o quase invisível para começar a pensar em adiantar a preparação para obter os mínimos e qualificações olímpicas para os Jogos do Japão, em 2020, ou seja, daqui a dois anos.
Atingir determinadas metas não é obra de um ano, mas de um quadriénio.
Ora, do mesmo jeito que a ressurgida Direcção Nacional do Desporto deve promover a ambição desportiva em crescendo, também o MINJUD deve fazer a sua parte política no acarinhamento dos objectivos dos agentes desportivos, sempre que não sejam infundados e extrapolares, e tido que são igualmente objectivos do próprio país, além de serem ganhos para todo o país.
O orgulho nacional é uma medida tão querida quanto o contrato-programa, com a diferença de que o primeiro não tem preço.
Não basta, politicamente, remeter-se à posição de que o que existe para ser tratado ali, seja somente a questão mensal dos duodécimos para os agentes desportivos. Ou o reforço de verba, que tende a ser geral quando sejam feitas as partilhas. As selecções deviam ter uma rubrica à parte e em função do calendário anual de provas
Em muitos bons países Africanos, e não só, o próprio Ministro se empenha em que a missão desportiva que se prepara vá dar certo, pois, a selecção representa para ele uma fábrica de valor que não se prescinde, nem minimiza. Sempre que vi isso num Congo, Cote d’Ivoire, Gabão, Nigéria, Senegal, para deixar alguns exemplos, vi sempre o titular dos desporto levar isso a peito; e em alguns casos perder o gabinete, se o fracasso resultasse embaraçoso.
Vi igualmente e com reconhecido exagero, o general Gueye mandar um avião ir buscar a selecção ivoirense ao CAN do Gana, que não ganharam, tendo aprisionado a selecção no aeroporto de desembarque. O acto impeliu a intervenção pronta da FIFA, mas serviu para ilustrar como o desporto é visto com importância e esmero, ou ainda com excesso de zelo.
Não peço à nossa Ministra um tal extremo, nem por excesso, nem por diferença; mas, peço-lhe empenho pessoal apenas. Pois, perdemos essa marca no nosso MINJUD desde há um par de décadas.

ARLINDO MACEDO

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