Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Oramentos abismais ferem verdade desportiva

23 de Maio, 2019
A velha máxima de que “filho é filho e enteado é enteado “ continua a imperar até no desporto. No Girabola recém terminado e conquistado pelo 1º de Agosto, que assim soma o seu 13º título nacional e o quarto consecutivo, viu-se claramente a supremacia das equipas apoiadas pelo Estado sobre as que não têm o mesmo apoio.
Esta situação está cada vez mais acentuada desde 2014, altura em que se anunciou a crise financeira no país. Equipas como Recreativo do Libolo, Kabuscorp do Palanca, Recreativo da Caála, Progresso do Sambizanga e outras que davam grande luta às chamadas equipas grandes, hoje estão transformadas em meras animadoras, jogando apenas pela permanência no Girabola
Só para termos uma ideia das consequências que advêm das diferenças abismais nos orçamentos dos clubes que disputam o Girabola podemos buscar como exemplo o Recreativo do Libolo. O clube ascendeu à I Divisão em 2006. Em 2011, portanto cinco anos depois, ganhou o seu primeiro campeonato nacional.
Em 2012 bisou e voltou a ganhar por duas vezes consecutivas em 2014 e 2015 respectivamente. Além disso, os Libolenses, muito bem dirigidos por Higino Carneiro e Rui Campos, ainda conquistaram duas Supertaças e uma Taça de Angola.
Durante este período de ouro do Libolo, as chamadas equipas grandes, ou seja o Petro de Luanda e o 1º de Agosto foram relegadas a segundo plano. Aliás , o Libolo pode ser considerado um dos grandes culpados do jejum de títulos que assola os Petrolíferos.
Portanto, com um orçamento saudável, a direcção do Libolo conseguiu montar um dos melhores planteis que este país já teve e com um historial muito curto, os representantes do Cuanza Sul, tiveram o privilégio de jogar entre os melhores clubes de África por via das Afrotaças, fazendo boa figura até certo ponto.
A partir do momento em que a maldita crise começou a reinar, o Libolo, caiu. Com um orçamento magrinho, a equipa perdeu mais de 80% dos seus jogadores nucleares. Como consequência, hoje o Libolo passou de super candidato ao título a um simples animador do campeonato e com grandes probabilidades de desistir da alta competição.
Assim não pode haver verdade desportiva quando uma equipa em pleno Século XXI viaja de autocarro mais do que mil quilómetros, em estradas que na maior parte do percurso estão em estado lastimável para jogarem no mesmo dia, quando a equipa visitada dormiu de estágio e bem repousada.
Não pode haver verdade desportiva quando o adversário entra já a perder, porque psicologicamente está em baixo por não receber salários por seis ou mais meses. Como é que um indivíduo que em seis meses não tem salário pode enfrentar um que todos os meses recebe cerca de 15 mil dólares ou mais?
Isto é equivalente a alguém ir lutar desarmado contra um adversário totalmente armado. Só por milagre é que o homem desarmado pode vencer a batalha. Entretanto, mesmo nestas condições ao longo dos últimos anos temos visto que os nossos jovens de clubes considerados enteados têm muita força de vontade e vendem caro as suas derrotas.
Equipas como o Inter de Luanda, Sagrada Esperança, 1º de Agosto e o Petro de Luanda, são as consideradas as mais favorecidas por ser patrocinadas por instituições do Estado como o Ministério do Interior, Endiama, Forças Armadas e Sonangol.
Estas quatro equipas em 41 anos de Girabola ganharam no total 31 campeonatos. Portanto, é ponto assente que os orçamentos determinam os resultados. Mas o que nós pretendemos é inverter o quadro actual. Por um lado temos de compreender que as instituições acima mencionadas que apoiam os quatro clubes também referidos acima, não podem deixar de o fazer e muito menos podem apoiar os demais clubes. Estes clubes foram criados pelas instituições que os apoiam. É diferente de indicar-se um patrocinador para determinado clube.
Mas que estas diferenças abismais de orçamento entre clubes fere a verdade desportiva é uma verdade inegável, é. Além disso, o nosso futebol perde muito com isso. Ficamos limitados a meia dúzia de clubes, o número de praticantes na I Divisão baixa consideravelmente e a margem de jogadores seleccionáveis também.
Tendo em atenção os danos que as diferenças de orçamentos causam é imperioso estudar mecanismos para ultrapassar este problema. Em minha modesta opinião em primeiro lugar temos de deixar de nos curvar diante da “senhora” crise. A crise é um fenómeno criado pelo homem para dominar outros.
A crise só funciona porque nós acreditamos que para andarmos dependemos de viaturas que funcionam com combustível extraído do petróleo. Mas, na realidade os humanos sempre viajaram muito antes da descoberta do petróleo e da invenção do dinheiro. Isto é para dizer o seguinte: não importa qual seja o motivo da crise financeira. Temos de encontrar soluções para ultrapassá-la. E podemos encontrar soluções.
Acredito que neste país existem muitos bons cérebros com grande capacidade criativa que podem ajudar a encontrar a solução para erradicar maldita crise que afecta não só o desporto como também a nossa vida em geral. Augusto Fernandes

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