Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Os ces mordem na caravana que passa

25 de Outubro, 2017
Este é um momento paradoxal das nossas vidas, quanto mais as desportivas, de tão cheio de apertos, no entanto, prenhes de expectativas.

Os agentes estão a acreditar ainda em fórmulas milagrosas de sobrevivência, mais do que precisar de rever os seus efectivos e tamanho das folhas de salários, pois, é preciso emagrecer os custos, enquanto a sua produção desportiva tem sido francamente …diminuta.

O desporto não pode teimar viver no outro Mercado, dentro do Mercado; afinal, o sector perdeu a chance de ter um papel de elite e não pode pretender existir na mediocridade tal qual, no passado, uma Diamang como sendo um estado dentro do Estado; o desporto come do Orçamento Geral do Estado e se não revir os custos, há-de sucumbir mais ainda. Os dois cenários não vão poder coexistir porque basta o custo de vida crescer, para qualquer reajuste para mais, estourar com as costuras a seguir.

Ora, numa fase de apertar cintos e ajustar tendencialmente para menos, tem que se passar a valorizar o trabalho técnico-desportivo e a dar segundo o que se rende, ou seja, o que se merece.

Haja contratos-programas e que as rubricas contratuais especifiquem os ganhos por rendimento desportivo, afim de obter contra-partidas valiosas face ao dispêndio. Por exemplo, uma das marcas do FCP, dizem, é pagar pouco, mas premiar muito pelos resultados, obtendo daí uma equipa de futebol sempre competitiva e há mais de uma década com padrão europeu medido pela presença na liga dos campeões da UEFA.

E esse seria um bom exemplo para nós. Além de ganharem demasiado bem para o que valem e inclusive para o que rendem, os desportistas – futebolistas em relevo - usufruem ainda dos contribuintes e não são os contribuintes fiscais que deviam, contudo, mesmos e atingir os 35 anos de trabalho, reclamam mais dos contribuintes, ao pretender em tempo recorde uma pensão de reforma quando pendurarem as chuteiras ou sapatilhas ao cabo, se tanto, de vinte anos como atletas federados. O panorama pode melhorar para os técnicos, visto poderem ser até sexagenários.

Assim prevalece no desporto este imbróglio do peso morto, ou seja, da parte não desportivamente activa que pesa na folha de salários; e no fraco rendimento, em geral, dos recursos humanos administrativos que servem o desporto e que resistem à informática e suas vantagens, como quem tem e perde o emprego por causa da máquina.

E eis-nos chegados a um momento relativamente histórico, um ponto de inflexão em que estamos nós e o país.

O desporto precisa de um rumo político. A arma que o desporto foi não merece continuar a enferrujar mais a cada ano e mandatos que passam. A trajectória do país devia merecer mais respeito, reconhecimento e honoraria.

Além disso, o sector e o MINJUD precisam de garantir à sociedade, aos cidadãos e suas famílias, uma educação física que muito poucos têm, mas que quase ninguém reclama. E isso representa culturalmente um atraso e socialmente não deve andar longe de se assemelhar a um crime de lesa-pátria.

O país distorcido precisa de perder a casca velha na metamorfose que passa e assumir além da sua nova roupagem, uma digna postura.

Outra ingente tarefa que me parece ter o ministério é deixar de parecer num defeso constante e fazer-se à estrada, sair da sede e partir à descoberta do país real do desporto e da juventude que vivem em suposta maioria fora do litoral. As delegações provinciais e as associações provinciais são parceiros que merecem esse acompanhamento e não basta para as boas políticas, saber-se do país através de um conselho consultivo. Esse balanço devia também ser constatado in loco.

A falta de alguns pressupostos legais têm permitido que gestores ainda escapem ilesos das suas borradas e trafulhices, razão de sobra para doravante dever fazer-se auditoria às contas dos agentes desportivos, pois, sem uma higienização da área, o desporto há-de se manter em estado febril e a gastar desenfreadamente o que tem e o que nem sabe se vai ter.

Quando há dias via um mini-autocarro com as cores de uma gasosa nacional e depois li que o clube era apenas de voleibol, achei o máximo; é isso, mesmo. O Estado precisa de adequar a legislação ao estado do país, logo, os clubes simples, monodesportivos ou de uma só modalidade, devem ser incentivados e legalizados, pois, eles são a semente do futuro próximo, enquanto a indústria angolana continuar em hibernação.

Como devem saber, os clubes nascidos das principais indústrias, eram a par dos clubes militar e para-militares, as grandes forças desportivas dos Anos 80 e 90, até tudo mudar de figura, contudo, até podia haver mais, mas desaparecia muito menos.

Mas é preciso encarar a realidade, portanto o presente.

É preciso indagar se os regulamentos e normas especiais que visam promover o fomento e salvaguardar o futuro, estarão ou não a ser cumpridos pelos clubes, pois, pelas contas, o desporto está cada vez mais confinado a Luanda e ao futebol.

E é preciso contrariar a lógica de que em Angola, para os desportistas, chega o ‘girachoro’.

Igualmente nestes últimos dias e num barbeiro, local tipicamente precursor das redes sociais, como o cabeleireiro, estava a ouvir alguns jovens empolgados com os jogos do ‘Girabola’ que se avizinhavam e, com tal ênfase, que mais parecia estarmos à beira de um derby PSG-Barcelona ou Real; e a páginas tantas, tinha ouvido tanto disparate junto que me dei conta a pensar em Geovetty, nos dois Manecas, o guarda-redes e o avançado já falecido, e sobrevieram-me igualmente o Ângelo e o Napoleão; e, claro, o goleador Alves, o central Garcia, seu par Lourenço, Eduardo Machado, Vata, Abel, Jesus, Lufemba, Saavedra, ena, mais que uma mão de lembranças rápidas do que era bom e os putos não sabiam.

Antes disso, já Dinis havia atingido os píncaros, assim com o Rui Jordão. Mas, mesmo se fôssemos mais atrás, antes ainda do capitão Justino, haveria a geração do Peyroteo, nomes que ilustram o ‘pedigree’ do futebol angolano, que se tem vindo a perder. À excepção de Mantorras e Akwá, nenhum outro jogador angolano tocou a ribalta, nos últimos 20 anos. Claro, a geração do Mundial (2006) é a excepção, mas eram angolanos adestrados no estrangeiro na sua maioria, incluindo Flávio e Gilberto.

Foi a partir daí, na geração do Manucho, que o futebol nacional mostrou a sua descoloração acentuada. A samakaka da nossa bola estava a perder cor…, ou então, ‘pedigree’, linhagem, hereditariedade, AND, código genético, ou que quer que se lhe quiser chamar, mas eu chamo mediocridade do trabalho e falta de trabalho.

Então e no barbeiro, farto dos disparates que nós toleramos ouvir dos mais novos, perguntei àqueles quatro jovens clientes, como se empolgavam tanto por tão pouco, afinal, até nossos melhores emblemas são …fraquitos, e foi quando os putos me deixaram de boca aberta ouvindo a resposta: - ah kota, porque não deixa só já nós então se entusiasmar com aquilo que temos (!)…

Realmente, o desporto angolano tem hoje o que lhe deram nos últimos anos. Incompetência, oportunismos e deixa andar. P’ró ano tem mais orçamento…

Quando primeiro nos deram técnicos nacionais conceituados – ainda hoje passam a vida a perguntar a Victorino Cunha o quefazer no basquetebol – as coisas foram estruturadas, a metodologia foi aprimorada ao máximo, porém, a génese do MINJUD foi das piores coisas que já se processou no desporto, a tal ponto que até sem o director nacional de desportos ficámos. E o das políticas, que o substituiu, por pouco se afoga em inexpressão.

Depois procurou-se reforçar a concentração do saber, sob a forma de um comité da especialidade, contudo, ainda assim, nada, tem sido só a somar pontos negativos e espera-se, realmente, que haja um ‘basta!’ nesta charada.

Não se espera que o MINJUD faça grande alarde dos seus próximos passos, por isso desejo que não se atrase mais as mudanças e reformas que urge empreender e que não se devem resumir às actas dos conselhos consultivos, mas, sim, às apalpadelas do terreno e a lograr colocar em pé um programa qualquer para estes quatro anos, que resgatem o passado saudável do nosso desporto.

É um facto que sempre há quem torça para isto se manter assim, mormente aqueles que são actores com o papel de sanguessugas, porém, esta é a oportunidade de mostrar que santos de casa fazem milagres e que as nomeações para cargos não são exactamente a forma de se pagar a militância com o usufruto dos cargos públicos. Porque quando se vê obra, até é mesquinho fazer muitas contas.

O pior é sempre o contrário, isto é, montes de contas sem qualquer obra.
ARLINDO MACEDO

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