Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Os criminosos do futebol

17 de Novembro, 2017
Estou por saber como têm reagido os agentes do nosso futebol aos feitos do francês Hervé Renard no futebol africano. Se será com algum sentimento de arrependimento ou com a normalidade de quem julga que ter prescindido dos préstimos deste técnico foi a medida mais acertada alguma vez tomada e que deve, por esta ordem, ser glorificada.
Está claro que sozinho, sem que lhe agregassem a outra componente como matéria prima e condição organizacional, Hervé Renard nada de substância teria feito. Mas, convenhamos admitir, que com a estratégia que ele tinha traçado, se lhe deixassem desenvolver o seu trabalho com a criação de condições ajustadas às suas exigências, a história do nosso futebol( a nível de selecção) estaria hoje escrita com outros adjectivos. Não é que tivéssemos já somado um título africano, não é por aí que aponta o nosso raciocínio. Mas, estaríamos, seguramente, numa posição privilegiada no ranking africano, onde nos últimos anos só fomos descendo em queda livre. O técnico abandonou o projecto simplesmente porque faltou, da parte de quem podia, vontade de aproveitar a oportunidade, até porque vivíamos em tempo das vacas gordas, em que avultadas somas em dinheiro conheceram descaminhos para contas misteriosas, em satisfação de caprichos individuais.
O próprio Hervé Renard é citado como tendo dito, em círculos da sua privacidade, que Angola era uma forte potência económica e desportiva, em face das suas ricas infra-estruturas, propensas à massificação e ao desenvolvimento desportivo, mas que encontrava, paradoxalmente, o seu défice no factor organização.
O técnico, que no acto da sua apresentação, encantado com o projecto `mesa, considerou a Zâmbia, país de onde era proveniente, como atrasado em relação a Angola, \" ils sont en retard\", estou lembrado de ter ouvido, optou por regressar a Lusaka, numa clara manifestação de que convinha trabalhar com atrasados, mas organizados, do que com evoluídos que abominam a organização. Não tardou foi campeão africano; mudou-se para a Costa do Marfim, onde foi igualmente campeão africano. Agora acaba de qualificar a selecção marroquina para o mundial da Rússia.
Em resumo, se pode aferir que na questão treinador o país tinha acertado. Terá faltado apenas juntar a este factor outros adereços. Foi exactamente aqui neste quesito onde pecamos, tão só porque o medo de gastar dinheiro com coisas úteis esteve sempre presente, e na maior dos casos já disponibilizado pelo Estado, este mesmo Estado a quem durante muitos anos certos gestores públicos faltaram à lealdade.
Hoje, olhando para a nossa selecção fica claro que pagamos a factura de uma política desportiva enviesada, que sempre se demarcou dos padrões universais, onde o senso profissional foi declinado a favor do amadorismo, defendido por gente que sob capa de dirigentes desportivos, mas com olho mais virado ao próprio umbigo, que propriamente para aquilo que deve concentrar a sua atenção enquanto gestores.Por isso, a crise do nosso futebol, da selecção propriamente, tem responsáveis, que andam aí, \"na boa\", como se diz, facilmente localizados em locais luxuosos, onde se empanturram do melhor que a gastronomia oferece, regra comum regado com algumas boas doses de Môe Chandon. Esta gente devia ser responsabilizada pelo mal que fez ao futebol. A esta gente vontade de matar o futebol, proporcionando-lhe todo ritual obituário, com um comba à moda do povo axiluanda não faltou.
Talvez nos reste apenas bater palmas por lhe terem poupado a vida, porque moribundo como está, ainda pode sobreviver, bastando, para tanto, uma terapia de choque. Depositemos confiança aos novos gestores, que, verdade seja dita, não se têm poupado a esforços, no sentido de fazer com Angola, futebolisticamente, volte a sorrir. De resto, já se vislumbram acções práticas e concretas para um novo sopro de vitalidade.
MATIAS ADRIANO

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