Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Os desafios do nosso desporto

01 de Março, 2017
Os países mais empenhados no futebol jovem em África estão a competir em sub-20 neste momento e em um país vizinho do nosso ligado por ferrovia. No entanto estamos ausentes em campo, não porque as coisas tenham corrido mal desta vez, mas sim porque continua a correr mal porque o futebol não dá frutos do jeito que vai.

Não sei se a ausência angolana em Lusaka será total, pois daria jeito ter lá um olheiro a fazer ‘scouting’, fosse pela federação, como fosse por uma associação de especialidade, e neste caso a dos treinadores. E entre nós já temos pelo menos duas, a ANTB (basquetebol) e a ATEFA (futebol). Assim, nem que fosse de comboio, do Luau até Lusaka, aproveitando a correspondência ferroviária do Caminho de Ferro de Benguela com a ZambiaRailways, era preciso ‘estarmos’ lá no palco e ver as evoluções.

É sempre providencial saber a quantas anda o adversário e procurar estar sempre um passo à frente dele, extraindo daí potencial vantagem sobre ele. Além disto, fica-se também a saber como e porquê os bons continuam a ser bons e os erráticos como nós penem, apesar de nos podermos gabar que temos do basquetebol e futebol mais caro que se faça hoje em África, sem a esperada contra-partida em evolução do jogo e dos jogadores.

Ora, é por ser uma questão de moral desportiva e de princípio estruturante da prática do futebol, apostarem todos os clubes no futebol de formação (infantis a juvenis) e futebol jovem (cadetes e juniores), o que portanto é não-negociável e foi a própria FAF quem prescreveu, faz já mais de dez anos, que assim como ninguém jogaria mais o ‘Girabola’ sem ser em relvado, também não poderia disputá-lo todo aquele clube que não estivesse inscrito na AFP também em classes jovens.

Hoje, isso parece um tecto falso do futebol. Senão, é esperar-se por haver um campeonato jovem; a maioria dos ‘emblemas giraboleiros’, de quem se depreende ‘ad priori’ ter futebol jovem com a mesma expressão e intensidade que os seus séniores, ou parece que nunca se apuram lá na sua província, e neste caso não evoluem pelo trabalho, ou não trabalham de verdade porque levam uma existência de fachada.

Em Abril e no Madagáscar, lá voltaremos a estar em um CAN Sub-17, curiosamente 17 anos depois do nosso último, que fora um de dois únicos CAN juvenil em que havíamos estado, primeiramente em 1997 no Botswana e na Guiné Conackri em 1997. Como se vê, houve um pico de elevação em finais dos Anos 90 e foi praticamente tudo, como se tivesse sido o canto do cisne do futebol jovem Angolano; é que o cisne não canta e quando grasne um som parecido, de tão raro virou uma comparação com o acto ou acção que dificilmente há-de ocorrer, e mais ainda de se repetir.

Em suma, se assim em putos não chegamos lá, o que eles jogarão quando matulões? É bom recordar sempre e frisar bem que, não tivesse Angola tido a sorte de apanhar o fio da meada a uma geração dispersa de uns quantos João Ricardo, Wilson, Macanga, Gilberto, Figueiredo, Flávio, ou Akwá, e o país não teria hasteado bandeira na Alemanha. E ali o segredo fora somente a capacidade técnicas dos jogadores, de que depende tudo o resto.

Desde o ‘boom’ das academias em finais de 90, que paralelamente desaparecerem os quadros e atletas do futebol jovem dos clubes, e o país não voltou a sentir esse culto genuíno do futebol jovem, e que talvez explique o logro de quem havia trocado o futebol jovem do clube, por uma academia sua ou com melhor salário. Mas, como quase tudo quanto seja extraordinário para esta terra e este povo, tem uma duração efémera.

Abro entretanto parágrafo, para homenagear a iniciativa do torneio jovem ‘Gira-Bairro’, um recreio popular cuja maioria dos talentos revela-se já tardiamente e sem grande margem de progressão deixada, acabando mesmo por não fazer mais que continuar a jogar bola de trapo.

É outro facto que a sociologia dos nossos clubes e localização favorece o acesso dos meninos da cidade, frustrando a ansiedade por estruturas do desporto nas áreas fora do asfalto e de comunidades cujo clube de bairro de outrora sobrevive hoje da venda de finos e realização de farras. E assim, sem grande implantação popular nem na comunidade, os clubes da cidade e dos asfalto perdem diariamente o talento dos bairros de fora do asfalto.

Recorda-se que nos anos 90, Angola já se vinha afirmando com poder na África Austral e atingiu sucesso notável a nível da equipa nacional sénior – é de 1996 o nosso primeiro CAN, na África do Sul -tendo essa geração doméstica vencido a Taça Castle COSAFA em três ocasiões e tornando-se depois em apenas a segunda equipa da região depois da África do Sul a entrar em uma Copa do Mundo, quando chegou à Alemanha em 2006.

Antes disso, Angola havia conquistado o CAN de Sub-21, em 2001, ano em que a CAF reajustou a competição para Sub-20. Mas nós devemos ter achado a alegria da Taça COSAFA Sub-20 difícil de encontrar, apesar de termos conseguido chegar à final por três anos consecutivos entre 2000 e 2002, porém, perdendo tudo isso para a África do Sul e o Zimbabwe (duas vezes).

Mais recentemente, em 2001, fomos novamente finalistas e outra vez derrotados pela Zâmbia, a somar o seu nono título jovem da COSAFA, a que viria a juntar outro alcançado em 2015, pelo que, estando hoje a defender em casa o título também se abeira de uma mais que provável vitória (11). E isso, sim, pela perseverança e preservação, é que é ter-se os pés bem assentes e os créditos bem firmados no futebol jovem.

Foi curioso notar, entretanto, que vários jogadores que acabaram por levar Angola à Copa do Mundo de 2006, haviam tido destaque nos Sub-20 naquela época; o guarda-redes Lamá, os médios Mendonça e Zé Kalanga, e o avançado Mantorras, represerntam bem essa geração e seu potencial. Eles comprovaram o valor da competição regional como ferramenta de desenvolvimento.

De lá para cá, sobreviveram muito poucos da nata dessa conquista do Can Sub-21 de 2001, tal como parece ter-se perdido o afecto pela COSAFA Sub-20. E sem esta prova de maturação e aferição, resta-nos para jóia do nosso futebolzinho aquele CAN da categoria. Desde começo até 2015, em toda a competição júnior oficial de Angola, de um total de 50 partidas de Sub-21 (até 2001) e de Sub-20 (a partir dali)ganhámos 20 e perdemos 22, empatando oito.

Ou seja, um aproveitamento de 45,3 por cento eum saldo negativo de 8 golos (69 marcados e 77 sofridos), com médias por jogo de 1,38 golos marcados e 1,54 golos sofridos. Em uma escola isso equivale a... medíocre.

Entre os últimos revezes que Angola consentiuem futebol jovem na região vimos em 2015 dois países emergentes da zona,nomeadamente o Lesoto – bateram-nos em casa4-1 e em nossa por 1-0 - e as Maurícias, que quase nos faziam o epitáfio ao empatarem em nossa casa a um golo.

E a má safra dos Sub-20 que não ficou por ali; em 2016 fomos goleados pela África do Sul (5-0) e pelo Egipto(4-0), este a contar para o CAN da categoria. Ou seja ainda, apenas embolsámos um ponto em 12 possíveis,só nesses 4 jogos de referência entre 2015 e 2016, mas também só fizemos um golo contra dez sofridos (saldo de -9).

Deve-se realçar neste ponto que, se fossemos medir-nos com os vizinhos, como Zâmbia e Zimbabué – juntos coleccionam 16 títulos da COSAFA Sub-20, o primeiro dos quais com dez – haveremos de reconhecer sermos presentemente um caso já patológico de futebol.

Esses mesmos vizinhos vivem em crise económica há pelo menos década e meia, todavia,mostram resultados que só se explicam advir de um melhor trabalho feito na formação.

Não tem sido apanágio dos nossos emblemas perderem actualmente muito tempo, energia e meios com escalões de formação, pelo que eles também nem vêem nisso qualquer busílis, mas um câncer; e quiçá vários cânceres em cacho e cheios de metástases, se a isso ligarmos a cadeia de custos do futebol sénior e a sua relação custo-benefício, que arromba com a tesouraria do clube.

A carestia do futebol em Angola está associada ao protótipo de gestão dispendiosa, com salários de primeiro mundo.Além da fraca actualização da maioria dos quadros técnicos, amarrados a noções do futebol amador até aos Anos 70, também a forte apetência pessoal e prevalência da intromissão dos dirigentes nos domínios técnicos, como a contratação directa de treinadores e de jogadores, fazem com que esse estilo pessoalista no dirigismo colectivo do futebol consuma a carteira do clube, ou seja o oxigénio sem o qual morrem as células do aparelho, entenda-se do futebol.

Apresenta-se-nos difícil produzir qualquer revelação de talentos se uma vez identificados não se poder depois planificar o seu desenvolvimento e graduá-los aos 17 e 18 anos, a atleta sénior. E sem perder elegibilidade para ainda jogar em sub-20.

Tivesse sido assim com Gelson e Papel, dando-lhes outras bases no futebol, e ambos não estariam a ornamentar o banco de suplente em equipas B de emblemas portugueses.O tema é vasto e merece continuação. Até lá. Arlindo Macedo

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