Jornal dos Desportos

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Opinio

Os efeitos da "crise" no futebol

03 de Junho, 2016
De um tempo a esta parte, tem aumentado a curiosidade dos adeptos e sócios dos clubes, sobre a média dos montantes financeiros em salários e prémios de jogo, atribuídos aos treinadores e atletas, quer nacionais como estrangeiros, que actuam no futebol de Angola. Essa dúvida estende-se igualmente sobre os orçamentos disponibilizados pelos clubes, no geral, e para cada modalidade, para fazerem face às despesas decorrentes de uma época.

No que concerne ao futebol, a recente desistência do Porcelana do Cuanza Norte, do Girabola Zap, por dificuldades financeiras, para além de provocar constrangimentos à calendarização da federação angolana da modalidade, continua a “mexer” com a família do futebol, e com os desportistas em geral. Ao fazer fé em informações que circulam nos meios futebolísticos nacionais, outras formações que participam no principal campeonato angolano, estão na iminência de seguir idêntico destino, por atravessarem igualmente dificuldades financeiras. O Desportivo “04 de Abril” do Cuando Cubango, que neste ano marca a sua estreia na competição, desistiu em tempo oportuno, da Taça de Angola.

Não é de agora que os clubes se debatem com dificuldades financeiras, para manterem as suas equipas na alta-roda do futebol nacional, não obstante a FAF, antes do início da época, ter recebido garantias oficiais dos mesmos, a indicarem que possuíam arcaboiço financeiro para cobrirem as despesas relacionadas com a presente temporada.

Neste particular, é de se ressaltar pela positiva, os esforços desenvolvidos pelos responsáveis pelo futebol nacional, no sentido de que situações como a que se está em presença, que provocam constrangimentos à sua programação e “beliscam” os princípios da verdade desportiva, fossem evitadas.

Convém recordar que de acordo com os regulamentos de competições da FAF, as equipas que desistirem a meio de uma prova, serão penalizadas com três anos sem puderem participar em competições oficiais. As faltas de comparência, são penalizadas com derrotas de 0-3, mas a pergunta que não quer calar, relaciona-se com os jogos que foram efectuados pela formação do Cuanza Norte.

Ao se partir do princípio de que a crise que assola o futebol nacional, “não foi importada”, e não decorre apenas da situação económica mundial, mas também de factores estruturais e organizativos, é ponto assente que a modalidade rainha nacional, ainda vai passar por alguns sufocos.

Na verdade, à excepção do Petro de Luanda, Interclube e 1º de Agosto, que sobrevivem com dinheiro saído erário público, por intermédio da SONANGOL (Petro), Ministério do Interior (Interclube) e Ministério da Defesa (1º de Agosto), bem como o Recreativo do Libolo e Progresso Sambizanga, que possuem como patrocinadores elementos colectivos e individuais ligados a alguns bancos comerciais estatais e privados, as demais formações são obrigadas a fazer das “tripas o coração” para a realização de um jogo, quer na condição de anfitriães como na de visitantes.

Devido aos níveis de inflação galopante que se registam no país, os clubes vão enfrentar dificuldades para a preparação e realização de um jogo, consubstanciadas essencialmente nos estágios, alojamentos, transporte, prémios de jogo, prémios à arbitragem, alimentação, aluguer de campo, policiamento, entre outros. Para que o leitor, construa um juízo de valor, a realização de um jogo, orça em cerca de 4 milhões de kwanzas.

Numa perspectiva de futuro, tendo em conta a possibilidade de a situação conhecer um agravamento, os dirigentes do desporto nacional não devem deixar passar por despercebidos os clamores de dirigentes de algumas agremiações, em pedido de ajuda financeira, alguns dos quais pressionados com ameaças de greves dos atletas, que reclamam os pagamentos dos seus salários.

Referimo-nos ao ASA, que viu recentemente o seu principal patrocinador, a companhia aérea de bandeira, a TAAG, a decretar a contenção de gastos, e ao 1º de Maio, que tal como os “aviadores”, também já ostentou a faixa de campeão nacional. Tanto quanto se sabe, o Kabuskorp do Palanca, um dos clubes que ao longo dos anos, beneficiou de orçamentos folgados, também está a passar por alguns apertos financeiros.

É assim que, enquanto não surge a Liga de Clubes, que entre outros, terá a autonomia de conferir a contabilidade dos clubes, o Estado e outros segmentos da vida nacional, deverão arranjar formas de ajudar as agremiações, do ponto de vista económico, que poderão passar pelo fair play financeiro ou subvenção aos mesmos, em algumas despesas.
Leonel Libório

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