Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Os ingressos e a qualidade do espectculo

29 de Setembro, 2013
Tal intenção decorre do facto de os mesmos considerarem diminutos os seus orçamentos financeiros para fazer face às despesas relacionadas com uma época, cujos gastos têm aumentado à medida que as mesmas acontecem.

O desejo dos representantes dos clubes que em nossa opinião é justo, deve obedecer a determinados critérios, ao mesmo tempo que deverão ser acauteladas as consequências daí decorrentes.

Para que o leitor possua uma ideia, os ingressos para as partidas do actual Girabola estão de uma forma geral, fixados entre 300 e 500 kwanzas, para a bancada geral, ao passo que para os camarotes, os interessados desembolsam entre dois mil e três mil kwanzas, mediante o interesse de cada jogo.

Independentemente da parcela do território nacional em que se disputarem, os confrontos que envolvem os líderes ou os “dérbis” atingem cifras superiores.

Ao comparar-se com o basquetebol, é de se realçar que nos encontros referentes ao campeonato nacional sénior masculino (BAI – Basket) da época passada, os ingressos, na generalidade, foram vendidos ao preço médio de dois mil kwanzas, o que esteve na base do descontentamento de uma considerável quantidade de utentes, na sua maioria jovens, alguns dos quais estudantes, tendo em conta a média dos salários praticados e o custo do nível de vida dos angolanos.

Exemplos podiam ser citados relacionados com outras modalidades, que pensamos ser fastidioso, pelo que a tomada de decisão ou aplicação dos preços de qualquer produto, ao nível do país, são de exclusiva competência da Direcção Nacional de Preços do Ministério das Finanças, depois de receber a respectiva proposta do correspondente sector de actividade.

É assim que como forma de se evitar que surjam choques de competência, ou que as coisas aconteçam sem obedecer aos correspondentes trâmites hierárquicos, os clubes, cujas equipas se submetem às Associações Provinciais, devem por intermédio da federação angolana da modalidade fazer chegar a sua intenção à respectiva área do Ministério da Juventude e Desportos, que por sua vez a endossa ao Ministério das Finanças. Convém recordar que não é de agora que nos batemos sobre este facto.

O tecto máximo deve constar nos regulamentos de competições das federações nacionais. Grande parte encontra-se desajustada em relação à realidade actual.

Tais propostas devem ser enviadas por aqueles organismos, depois de consultadas as associações provinciais, na qualidade de representantes dos clubes.

É certo que se está diante de um direito que protege os clubes, que muitas vezes são obrigados a fazer das “tripas o coração” para pagarem as despesas relacionadas com um jogo que vão desde a preparação técnica, estágio, alimentação, deslocação e hospedagem do grupo de trabalho, aluguer de campo, lavandaria, transporte, prémios de jogo, árbitros, Polícia Nacional e outras forças de segurança, combustível, energia eléctrica, água, confecção de bilhetes e outros, quer seja na condição de anfitriões ou de visitantes.

No meio deste imbróglio, a pergunta que se põe é se o público vai continuar a ir aos estádios e pavilhões, no caso dos ingressos sofrerem um incremento.

Uma questão que deve ser melhor esclarecida relaciona-se com as receitas (?) saídas das transmissões televisivas que, como se sabe, retiram dos recintos desportivos uma considerável quantidade de espectadores. Tanto quanto se sabe, uma boa parte do pagamento das receitas traduz-se em publicidade feita aos clubes, que como é do conhecimento geral, em Angola, ainda “engatinha”.

Outro factor que concorre para o “casamento” entre o público e o espectáculo desportivo, independentemente se o preço dos ingressos subir ou diminuir, prende-se com a melhoria da sua qualidade, assim como devem ser envidados esforços no sentido de que os princípios da verdade desportiva não sejam violados. As condições de acesso e de acomodação do público no interior dos recintos é outra questão que não deve ser descurada.

Noutro desenvolvimento, tendo em conta que o desporto, em particular o futebol, constitui um negócio que envolve montantes financeiros astronómicos, e em função do resultado da crise económica que assola o mundo, à qual Angola não está isenta, aliado ao facto de a maioria dos empresários nacionais e estrangeiros que funcionam em Angola não apostar no desporto, já se vai ouvindo que alguns clubes estão à procura de patrocínios estrangeiros, principalmente para o futebol.

Agora que em Angola começam a surgir alguns empresários de atletas, os clubes devem ser mais ousados nos montantes que solicitarem pelas transferências dos atletas, principalmente para o estrangeiro e sobretudo, os que forem formados nas suas escolas ou academias.

Se nas épocas anteriores e na actual registaram-se greves em algumas equipas, com origem na questão financeira, em caso de o desenvolvimento se mantiver é previsível que esse e outros problemas vão continuar a surgir, sobretudo nos chamados “clubes pequenos”, que sobrevivem maioritariamente à base de receitas e do apoio de empresas patrocinadoras ou dos Governos Provinciais.
Leonel Libório

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