Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Os maus da fita

23 de Fevereiro, 2016
É sistemático nos últimos campeonatos os árbitros assumirem algum protagonismo, superando em certos casos os outros fazedores do espectáculo futebolístico, como técnicos, atletas, seccionista23 enfim. Vezes há em que tal protagonismo resulta de uma má interpretação, acabando os homens do apito apontados como os maus da fita mesmo não o sendo.

É de esperar que no campeonato que agora começa, o quadro não volte a ser pintado com as mesmas cores, e cada qual, técnico, atleta ou árbitro, assuma o papel que lhe compete no jogo, até porque ambos se complementam. Pois não há jogo sem arbitragem e não pode haver arbitragem na ausência de jogadores em campo.

É certo que em muitos casos os árbitros "botaram água", mas também em muitas ocasiões vimos equipas justamente derrotadas, como consequência da larga hegemonia da turma adversária, mas que acabaram por assacar as culpas do revéns ao árbitro. Não é, à partida, de bom tom as equipas ou as suas direcções se exonerarem das suas responsabilidades e levar os árbitros ao crucifixo.

Não há nenhuma pretensão de minha parte de sair em defesa deste ou daquele. O que se deve procurar perceber é que este caso é bastante polémico e exige, em rigor, um tratamento cauteloso em que não devemos abraçar a parcialidade, sendo que neste jogo desportivo os árbitros acabam por ser o elo mais fraco.

Como humano o árbitro é falível. A questão que se põe é que existem erros propositados, que resultam de uma acção maledicente com fins inconfessos. São estes erros que têm pintado carnavalescamente o nosso campeonato. Ainda assim, a culpa não deve recair na totalidade ao árbitro.

É sabido que ao conceder facilidade a equipa A ou B, o árbitro não o faz por sua conta e risco ou por se identificar clubisticamente com esta. Age a mando de alguém, no caso o corruptor. Em resumo, entendo que é descabido chamar nomes aos árbitros, pois estes são só a ponta visível do Iceberg, por trás dos quais se escondem outros implicados, refastelados em gabinetes de fato e gravata.

Façamos do nosso futebol um exercício higiénico, onde não haja lugar para negociatas que penalizem uns em benefício de outros. Um campeonato salutar é aquele em que as equipas conquistam vitórias no campo e não em laboratórios de "engenharias", onde o poder do vil metal assume o domínio da conversa.

Em boa hora o Conselho Central de Árbitros de Futebol de Angola encontrou um meio-termo para as despesas dos seus filiados, desmamando-os da chucha dos clubes como vinha sendo até então. Afinal nestes moldes o arbitro sem ser corrupto, podia por mera questão de consideração à hospitalidade que lhe foi proporcionada, dar um "jeitinho" à equipa caseira, o que também só funcionaria naquelas circunstâncias em que se verifique algum equilíbrio de forças.

Por outro lado, entendo que não é legítimo que os técnicos depois de uma semana intensa de trabalho vejam o seu esforço descompensado por mero capricho de um árbitro. Quem anda no futebol doméstico deve ter conhecimento de técnicos despedidos na aura da chamadas "chicotadas psicológicas", na sequência de derrotas determinadas por arbitragens claramente tendenciosas.

Portanto, há que se pôr cobro a este cortejo de situações que beliscam a honra e o prestígio do nosso campeonato. O Girabola que teve início no passado fim-de-semana abre uma nova era para a nossa arbitragem, e pode ser que as críticas constante aos árbitros conheçam uma redução considerável, longe daquilo que nos foi dado a ver nas últimas edições. A responsabilidade é, no fundo, de todos actores do campeonato...
Matias Adriano

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