Jornal dos Desportos

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Opinio

Os meus Jogos Olmpicos (III*)

27 de Agosto, 2016
Sem uma preparação adequada, a missão olímpica de um país já parte empobrecida, mas nós precisamos de fazer estas figuras e andar nestes papéis? A selecção feminina de Angola dá tão boa imagem do país, e do Povo Angolano, quanto a pode danificar quando as estórias dos “500” vão parar à deliciada imprensa marron, fazendo manchetes dos bifes e quizangos intramuros de Angola. Vende mais que a notícia de qualquer resultado.

Mas, sobretudo, é o desmoronar de toda uma participação surpreendente, que nos deixa desconsolados, pois uma equipa com tamanho potencial e deparando-se com tanta oportunidade, só não evoluiu aquela diferença de quatro golos ou de cinco minutos de resistência porque, independentemente do seu técnico se recusar em algum momento a mandar formar em homem-a-homem, jamais havia tido a oportunidade de desenvolver a velocidade e a resistência através de uma bateria de jogos preparatórios, que faltaram porque, possivelmente, ao contrário do Basquetebol no passado, desta feita o Andebol nem conseguiu improvisar equipas de empregados de hotel para treinar e preparar.

Os estágios são indispensáveis quando houver objectivos, pelo que nos podemos regozijar por a judoca Faia ter conseguido, desta feita, andar dois anos no circuito mundial da federação internacional e, assim, não só ir competindo, como conhecendo as suas rivais. E hoje ela deve ter uma rica história para contar aos seus oficiais e técnicos, a partir deste momento que se retira da competição, finda a sua participação no Rio.

O atirador Paulo Silva, campeão nacional e antigo campeão Africano, por exemplo, assim como os desportos náuticos mereciam igualmente umas horas de mar e de águas revoltas e rápidos antes de enfrentar a realidade e a competição. Em resumo, é preciso definir que o rigor da participação deve ser aquele mesmo antes posto na proposta, depois criar condições e enfrentar as dificuldades já será um caso para coçar a cabeça e encontrar soluções através do marketing desse atleta ou equipa, feita pelos responsáveis desportivos junto de entidades capacitadas e motivadas para realizar alguma acção social ou corporate retornando em benefício do país tanto que este já lhe terá dado a ganhar.

Só que, estas verbas suadas não podem servir para multiplicar viagens nem luxos na miséria, defraudando uma iniciativa positiva e com verdadeiro carácter de missão. Senão e dito por outras e simples palavras, quão séria é a nossa participação olímpica? Vamos sempre lá só para igualar ou melhorar as marcas pessoais, e nunca para subir de degrau internacional?

A presença da República de Angola e do seu desporto de rendimento, nos jogos olímpicos, deve ser o corolário do que de melhor se fez desportivamente no quadriénio, para desse modo aferir a evolução desportiva nacional. Ter portanto objectivos de evolução acima do simplismo de ir apenas marcar presença. Deste modo compensará amiúde levar jovens promessas com créditos firmados e que evoluirão muito mais após um par de semanas em elevado convívio técnico com os melhores do mundo.

E isto aplica-se também aos seus treinadores e muito especialmente aos directores técnicos nacionais das modalidades, os quais elucidarão sempre melhor os técnicos auxiliares. Viu-se vários países a ganhar medalhas com jovens que haviam estreado muitos novos em Londres (2012), tal como reapareceu Joseph Schooling, de Singapura, feito em campeão no Rio, tendo destronado o campeoníssimo Michael Phelps, americano, na final mais rápida da natação, os 50 metros livres, prova que Schooling já havia estreado a competir com Phelps em Pequim (2008). É este espírito evolutivo que é precisa inculcar no investimento das carreiras desportivas a cargo das direcções técnicas das federações, tendo para o efeito que empreender um acompanhamento regular, mais do que circunstancial, dos atletas e equipas. Esta visão e responsabilidade tem que ser tanto do Comité Olímpico, como das federações suas constituintes e responsáveis pelo desenvolvimento da modalidade no quadro nacional.

O Desporto em Angola parece estar a perder a cada ano um pouco da sua melhor essência não só da ascendência, como também do seu nível de alto rendimento, transfigurado que parece curiosamente em um outro tipo de rendimento no desporto, que se diria financeiro. Se assim for, tal deve advir da forma como as federações interpretam presentemente o seu papel e finalidade, parecendo mais gerir recursos financeiros, que humanos e desportivos.

Aliás, repare-se que grande parte do excesso de peso dos encargos financeiros das delegações são habitualmente os oficiais acompanhantes, entre os quais raramente se vê um director técnico de federação ou do ministério da tutela, aqueles cujos relatórios destes jogos do Rio eram agora precisos e necessários para a discussão do balanço e a perspectivação do novo quadriénio olímpico. Ou seja, criar hábitos saudáveis de dar a mão à palmatória em vez de sistematicamente enterrar a cabeça de medo (e vergonha) como o avestruz.
* Continua na edição de amanhã
Por Arlindo Macedo

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