Jornal dos Desportos

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Opinio

Os meus Jogos Olmpicos (I*)

25 de Agosto, 2016
A extinção da chama olímpica iniciou uma nova olimpíada no Planeta, até 2020, quatro novos anos para mostrarmos avanço, estagnação ou retrocesso no processo contínuo da formação de atletas e aumento de desempenho em competição.

Quatro anos que já estão a contar e para os quais a família desportiva e associativa angolana já devia estar a renovar mandatos sob pena de se estar a estorvar o futuro que começou, já faz dias, e em que pelo menos um quarto do orçamento do ano devia servir despesas já no quadro do próximo mandato, ainda que se trate duma reeleição, pois a gestão da coisa desportiva deve ser pautada por prazos e períodos sem delongas nem aproveitamentos indevidos. E, a propósito, como terminou a olimpíada para Angola? Como foi o Rio dos Angolanos?

Confesso que esta foi a minha primeira experiência fora dos Jogos, que sempre fizera no palco do acontecimento, desde 1988, na Coreia, quando conheci o grande João Saldanha, antigo relator e inclusive seleccionador do Brasil, com quem eu e os correlegionários Victor Silva e Luís Costa, meus condiscípulos na caneta do Desporto, que numa ocasião, um daqueles matabichos tardios na vila olímpica, partilhámos a mesa com o brasileiro e a dada altura este saiu-se-nos com esta tirada: - os melhores jogos estão na TV (!).

Realmente os jogos na bancada são uma coisa, no sofá lá de casa, outra. Nos estádios acontece tudo muito rápido e sem repetição de imagens nem comentários abalizados, nem rápidas entrevistas, o que defere para a alternativa da televisão, onde temos tudo isso, quando em vez do estádio, preferimos ficar no centro de imprensa diante dum paredão repleto de monitores de tv e que trazem imagens de cada recinto dos jogos, permitindo registar toda e qualquer actividade.

Além disto, nos estádios não se vê aquilo que aleatoriamente as câmaras captaram para o telespectador, que tanto pode estar em casa, como no centro de imprensa, ou mesmo no estádio, onde a tribuna de imprensa está equipada com monitores, não o público.

Seja como for, estas limitações já não se devem repetir em 2020, nos Jogos do Japão, quando nos estádios ou em qualquer parte pudermos ver TV nos telemóveis do tipo smartphone e então estar no estádio vai ser realmente valorizado e imperdível, contudo, poucos poderão ter o privilégio e o meio de lá estar. O comité Olímpico Angolano ainda não nada perfeitamente nessas águas, a julgar pelo tipo de turismo olímpico gerado, a que certamente não faltariam candidatos, a começar pelos familiares dos atletas.

É que a cada ciclo olímpico continuamos os mesmos anestesiados pelo refrão da mudança na continuidade, que nunca é mudança para melhor, nem continuidade com uma mudança mais forte e capaz de trepar o caminho íngreme do sucesso, tantas vezes atingida outrora e depressa esquecida, ao ponto de repetirmos posturas e atitudes que sempre se pautaram por resultados aleatórios, mas condizentes com o tipo de gestão da preparação dos resultados. Mas, para mim, esta vai ficar como a minha primeira olimpíada fora dela e, particularmente, a olimpíada dos chamados “Quinhentos”.

Puxando à liça o apuramento dos Jogos dos Angolanos, no Rio de Janeiro, temos dum lado os desempenhos melhores, iguais, ou piores, e doutro lado o molho de tudo isso que foi refugado com apenas 53 dos 300 milhões pedidos. E esta segunda vertente do Rio angolano acabou sendo a principal, quando o país acordou por causa dos 500.

Aquilo virou medida, afinal o que valiam 500 dólares, em que medida esse valor foi um insulto para atletas, de que forma ocorreu essa erupção na concentração, tal qual a metáfora e simultaneamente um eufemismo de alguém que um dia lançou e celebrizou o dito “Os Angolanos não sabem, é, ganhar”. Terá que ser sempre na ressaca do apogeu qualificatório das selecções ou dos atletas, que estes aproveitem reivindicar contas mal assadas em casa antes de viajar? E por que será que isso se repete ultimamente a cada grande evento? Será uma táctica de guerrilha de ideias ou uma tampa que salta da panela de pressão?

Ainda assim, e desta feita analisando o facto sob o ponto de vista ético, interrogo-me se será admissível que enquanto os melhores do mundo deixem de lado seus galões de milionários e queiram estar nas suas selecções nacionais como o mais comum dos desportistas, para tal aceitando trocar seus quartos em hotéis de cinco estrelas por camaratas e quartos exíguos de camas apertadas e por vezes curtas demais, porém, aproveitando os mesmos para desfrutar uma experiência e convívio inigualáveis e inesquecíveis, portanto, como conceber que Angolanos tirados do anonimato graças à excelência atingida pela preparação e treinamento usufruídos enquanto subsidiados do Estado Angolano, possam em sã consciência agir de modo a vir encostar o seu país e contribuintes que sustentam também essas missões do estado, por se exigir a estes que paguem ainda mais do que já pagaram para elevar tais atletas àquele momento alto e crítico entre a espada e a parede?

Nenhum atleta criado através do sistema social do desporto subsidiado pelo Estado e chamado a representar o país, poderia atrever-se a exigir deste mais que o prémio previsto de medalha e de record.

Queremos selecções nacionais em toda a extensão dos termos, incluindo selecções de valores, não selecções de gestos feios e de contrasensos e até de uso indevido do valor desportivo pessoal para sustentar o atrevimento de pedir compensação adicional para vestir a camisola da selecção nacional.

E depois a suar como deve ser. Este paradigma não era o nosso, não era a dos Olimpianos de antigamente, que o digam os Angolanos que defrontaram o primeiro DreamTeam de Basquetebol, ou a veterana olímpica Antónia de Fátima “Faia”, ou até José Sayovo, apenas para dar alguns nobres exemplos.
* Continua na edição de amanhã
Por Arlindo Maced
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