Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Os meus Jogos Olmpicos (I*)

26 de Agosto, 2016
Igualmente culpado pela situação apresenta-se-nos o próprio Comité Olímpico Angolano, no seu modelo de gestão e operacionalidade, utilizando uma estrutura de peso antes da estrutura de custos, que inclui luxos na miséria, a começar pelos bilhetes em classes aéreas de prestígio, em detrimento de atletas cujas silhuetas nem sempre se compaginam com os assentos económicos, pois, ao fim de inúmeras reuniões preparatórias, a menos que os bilhetes sejam oferecidos pelo comité internacional olímpico, então por cada tarifa despendida, daria para viajarem quatro. E ao fim de uns tantas viagens, talvez chegasse para terem viajado uns quarenta. E entre estes, alguns técnicos, que habitualmente são preteridos por muitos oficiais diversos, fazendo deste tipo de missões benesses, em vez de investimento desportivo. Outro daqueles esbanjamentos embora parcialmente discutível, é a tradição do comité olímpico organizar visitas pagas, eventualmente também para sponsors, mas sobretudo para VIP nacionais a saldar dívidas pessoais e ajudas assim retribuídas, algo que não resulta barato logo a partir dos bilhetes de passagem oferecidos, representando mais uma vez aquelas despesas que seriam secundárias, sobretudo para quem só conseguira 53, dos 300 milhões.

Ora, como será da próxima vez? E esta é a verdadeira questão do momento, pois o que já lá vai só serve agora de experiência, convindo reformular a representação e a missão, de modo a ser mais concentrada em promover e desenvolver o desporto nacional, determinando o grau de competência, ao invés de as missões poderem degenerar em mais um passeio. Um país que lidar assim com os Jogos, ainda não terá a maturidade desportiva. Nem política, pois certas desventuras nunca se repetiriam. Se a olimpíada é uma marco, tem lógica e forçosamente que ser também um objectivo, um marco e um compromisso. E a representação do país deve levar em conta o progresso assegurado pelos intervenientes, pois, não são preciso jogos olímpicos para se ir tentar superar as marcas pessoais e bater novos recordes, bastaria irem para a pista dos Coqueiros ou a Piscina de Alvalade e fazer corridas. Ir aos Jogos tem de representar uma estratégia e mostrar desenvolvimento. Sim, vimos desenvolvimento duma maneira geral, mas precisamos de ambicionar mais, ali, mas também a nível do continente e da região. Não sei quantas vezes os Angolanos foram nadar no Zimbabwe e na África do Sul, mas sinto que nos falta mais diálogo e menos determinismo e opacidade na abordagem do fenómeno desportivo e na elaboração da equação para a sua definição enquanto factor social e económico de desenvolvimento e progresso.

Amaka angolana das crises com selecções por temas de finanças é uma velha vicissitude, desde o dia em que a mala do dinheiro se tornou mais um membro da delegação, instalado que está o método de sair de casa sem as contas feitas. Os atletas já sabem que com um ameaço em pleno clímax da sua participação internacional, é hora de apertar de novo o patrão, deixá-lo assustado, em pânico, então é uma evidência que esse modusoperandi tem também margem de progressão no desporto. A gestão do orçamento para os Jogos deve igualmente ser discutida em sede devida, com os beneficiários indirectos, ajustando deste modo os orçamentos e abrindo mão de toda a participação fortuita e sem proveito concreto, em detrimento de se subsidiar com essa poupança, a preparação de equipa ou atleta com mais probabilidade de atingir o máximo e melhor resultado da representação nacional. Neste caso, eram já umas sobras para o estágio da selecção feminina de Andebol...

A par desta questão, ressalta também a delonga em se fazer, no âmbito do comité olímpico, um estudo e uma mesa-redonda ou conferência sobre uma estratégia para a República de Angola potenciar o seu futuro olímpico, particularmente nas modalidades individuais e em especial naquelas com forte identidade cultural do seu povo, casos do lançamento do dardo, do tiro com arco e flecha, e do tiro com espingarda e pistola. Nestas armas, era esperado que das forças paramilitares e militares emergissem atiradores de elite, mas, interrogo-me se haverá carreiras de tiro nas suas corporações? E duma maneira vasta também encontramos nas zonas rurais jovens Angolanos anónimos que dariam em potenciais craques naquelas outras disciplinas ligadas à caça, em termos da motricidade e do gesto técnico. De igual modo estranha que um país com mais de mil quilómetros de costa navegável, baixa e arenosa, não tenha o voleibol de praia, nem os desportos náuticos, vulgarizados, a ponto que a maioria dos habitantes do litoral não sabem nadar. Nem a maioria dos jovens Angolanos sabe correr, ou quer correr, saltar e arremessar no Atletismo, que é o básico da educação física, portanto, reflecte um problema social de educação cultural transversal a todo o ensino e a todos os jovens nacionais. Ora, esta era a parte do melhor protagonismo que poderia haver nas nossas organizações juvenis partidárias, que não só desperdiçam este manancial de cegos seguidores entusiasmas e adolescentes a crescer, como também parecem essas organizações estarem mais compenetradas em escalar a vida até atingir o parlamento e sentar nos Lexus. Pois, assim é difícil sair da cepa torta. E para tal muito contribuem também os clubes e associações provinciais, que confundem desporto com futebol, além de deixar morrer o desporto na sua envolvente, habitualmente sob a falácia de que não há meios, porém fizeram-se eleger para improvisar, persistir e edificar. Será que algures entre o comité olímpico, o ministério e as federações, se perdeu o sentido, a necessidade e a tradição da sinergia do nosso antigamente?
* Continua na edição de amanhã

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