Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio

Os Palancas e o CAN'2019

27 de Janeiro, 2017
É certo que a nova direcção da Federação Angolana de Futebol ainda não aqueceu a cadeira. Dai talvez seja pouco sensato fazer-lhe uma série de exigências. Ainda estará, pensamos nós, atarefada com a limpeza das teias de aranha deixadas pelo elenco cessante, e desenfestar a casa com o melhor insecticida que há no mercado, para exorcizar os fantasmas de uma gestão que a família do futebol não mais quer ouvir falar nem de longe nem de perto.

Porém, faz sentido despertar-lhe para determinadas situações, que na visão da maioria, assumem algum carácter prioritário no conjunto de outros afazeres. Toma contornos de alguma preocupação o silêncio que se observa na questão a ver com a contratação do novo seleccionador nacional, para que de forma atempada comece a trabalhar na preparação da fase de qualificação ao CAN'2019.

Ao que é sabido, as qualificativas começam já em Junho próximo, e o tempo nunca foi amigo do homem, ou se alguma vez o foi nunca esperou por ele. Significa que, remetidos neste "deixa andar", quando despertarmos para a realidade já estará o torneio às portas, os outros suficientemente preparados e nós, como sempre, alheios a tudo que gravita à volta do mundo, na estaca zero.

Na verdade, a nossa grande pecha sempre consistiu no factor organização, situação que esperamos venha a ser corrigida na nova administração encabeçada por Artur de Almeida e Silva. As competições de vulto devem ser planificadas e encaradas com maior sentido de responsabilidade. Só em Angola, escapa esta sensação, não se leva a sério a participação da selecção nacional numa competição internacional.

José Kilamba e André Makanga são por enquanto os responsáveis pela equipa técnica. Se no conjunto de estragos, que transformaram a federação numa espécie de Aleppo, a questão "seleccionador nacional" não é prioritária, então que se reconfirme a dupla, para que dentro da legitimidade comece a traçar estratégias que visem potenciar os Palancas Negras e desenvolver já acções com pensamento no torneio qualificativo.

Sabemos que a nova direcção acaba de herdar um fardo pesado, e de certeza que ainda não tem cabeça fria para pensar de forma mais harmonizada nas coisas. Mas ela tem competência para decidir sobre a continuidade da actual equipa técnica ou sobre a contratação de uma outra. A questão financeira pode ser, desde já, um entrave se o pensamento for para um estrangeiro. Haverá que se sair à procura de patrocinadores que viabilizem esta empreitada, o que pode não ser fácil nesta fase do campeonato.

Convirá, entretanto, que Artur de Almeida, Rui Costa e pares não percam de vista que para o público a selecção nacional é o cartão de visita da FAF. O seu desempenho como gestores nunca será avaliado por aquilo que forem fazendo internamente, tal como a regularização dos salários, equipamento do gabinetes e ou pela qualidade da decoração do seu anfi-teatro. Mas pelo crescimento e desempenho da selecção nacional no plano competitivo.

A qualificação para o CAN'2019 pode se converter para esta direcção num golo de antologia. Mas pelos vistos a empreitada não se prevê fácil se faltar rigor na planificação. Veja-se que o Burkina Faso, o mesmo carrasco na corrida ao CAN do Gabão, por capricho do sorteio volta a figurar no nosso grupo. Trata-se de uma selecção que nos últimos anos tem apresentado elevado índice de crescimento.

Receia-se que Angola venha a fazer o mesmo percurso de um passado recente. Ficar três edições ausente do maior torneio futebolístico do continente.
Depois do Burkina Faso'98, como muitos estarão lembrados, falhou as edições de 2000, 2002 e 2004, tendo só voltado à arena em 2006 no Egipto.
Ausente do campeonato de 2015 e 2017 voltará a falhar o Camarões'2019? É nisto que devem pensar os novos gestores da FAF.

Portanto, mude-se de equipa técnica ou não, a questão da selecção nacional deve ser bem avaliada. Voltamos a insistir que a nova direcção herda um fardo pesado, porque se se tivesse deixado Romeu Filemon dar prosseguimento ao seu projecto de reestruturação da equipa, não estaríamos aqui hoje a fazer este exercício de conjecturas, seria menos uma preocupação, porque em termos de trabalho se estaria já muito longe. Mas como investiu-se mais na destruição que na construção a realidade é esta.
Matias Adriano

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