Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa

Opinio
por Norberto Costa

Os trs magnficos da bola nos Cinco dedos de vida(2)

05 de Março, 2018
A audiência, nos disputados jogos no pelado, estava à partida garantida, dada a multidão que se juntava no local. Mas deixemos a voz lúcida do narrador falar, ao dar os dados da captação de um observador social: “Diariamente, muitos desempregados e (incluindo ) reformados concentravam-se à volta do campo da Refrinor entre a padaria Sopão e a fábrica de refrigerantes com o mesmo nome (do campo), para ver (em?) as crianças. Porém, não eram os únicos: de duas em duas horas, a padaria tinha pães para vender, se entretanto como era frequente, não faltasse a luz ou a água ou até se o stock de farinha não esgotasse.”
Na verdade, eram milhares ou pelos menos centenas os que engrossavam o “exército de desempregados” na zona, arredores e cercanias, que precisavam de matar o seu tempo de excessivo folguedo: “Pelas longas esperas, por que passavam os muitos e ruidosos vendedores de pão, transformaram-se num público fiel e entusiasmado dos MA. O futebol da equipa dos caçulinhas era a grande diversão matinal. Era quase tão importante, quanto o pão (para a boca). Todos estes treinadores de bancada, desempregados, vendedores e reformados, conheciam e admiravam os MA.” Aqui, neste particular, o narrador dá-nos uma pincelada da estrutura social de grupo do bairro, uma das expressões do seu lazer/ ocupação é a venda/ ganha pão, a que se dedicam alguns desempregados e velhos reformados, para sustentarem a sua vida mísera e prover os seus, um protótipo das zungueiras dos dias que correm a reclamarem fixação em mercados ou em feiras alternativas.
Quanto às características atléticas, disciplina táctica e inteligência técnica na disputa do lance por parte dos famosos dois manos espirituais, o narrador acresce: “pouco importava os nomes próprios.” O Esquerdinho “ fazia com o seu passe de mestria, e o outro , o marcador de golos de cabeça, tinha elevação e posicionamento bastantes para suplantar os guarda-redes. Uma verdadeira dupla. Faziam tabelinhas e desmarcações que os treinadores ainda não tinham ensinado. Jogavam com alegria, sorria a cada jogada bem sucedida e a cada finta de deixar o adversário caído”, ou seja, estatelado no terreno do jogo, ante à ovação geral que deixa o fintado abalado psicologicamente. Tal circunstância acaba(va), em via de regra, por afectar o moral do conjunto, e em último turno, a manobra da equipa adversária.
Contudo, o brilharete dos dois craques não se ficava por aquele ambiente restrito, ia também espalhar o perfume pelos arredores do bairro, a alternar o espaço de exibição com o campo da Guedal, “ a diferença é que no chamado campo da Guedal o futebol não tinha regras de treinadores, nem esquemas de jogo. Fazia-se uma espécie de peladinha de aquecimento e onde os craques se mostravam. Nada de sistemas de jogos. Nada de tácticas ou de treinadores. Apenas intuição, prazer de jogo, bom toque de bola. Era diversão pura, genuína informalidade”, e como sempre, “muita alegria e boa disposição.” Os dois protagonistas não se cabiam de contentes: “Faziam os olhos dos presentes com as suas fintas e movimentações pelo campo. Dali, feito aquecimento físico e emocional com as palmas do povo”, mais uma vez o aspecto psicológico na atitude perante o jogo e na dinâmica do grupo, factor sumamente influente, acrescido sobretudo à própria performance do clube em campo, para que se acumulassem vitórias, ou pelo menos o empate ao invés da derrota, pois, não se joga só para a plateia, mas e sobretudo com o sentido do golo, pois, só esse garante um resultado triunfal.
Paradoxalmente, aqui entra em cena a teimosia do treinador Firmino, cuja casmurrice lhe vai sair bastante caro na hora do jogo (e no futuro, ‘quando passa de bestial à besta’) à posteriori ao treino, já que as opções tácticas do treinador conservador, apostam num modelo considerado arcaico no caso vertente, acabava por penalizar o rendimento geral da equipa: “Com toda aquela juventude a sair-lhes pelos poros, não denotavam qualquer cansaço por causa da peladinha. Forçados ao habitual 4X3X3 oficial, só um deles jogava. Não havia dupla e por isso, a magia, o pé esquerdo magistral ou a cabeça goleadora desapareciam completamente.” Fixa-se, ainda que “quem os via jogar no campo da Guedal acarinhava como estrelas.”
Assim, o treinador teve de ceder às pressões dos adeptos da equipa e demais admiradores, embora, gozasse da fama de ser intransigente:
“Um dias destes, decidiu chegar mais cedo para ver o tal jogo, que se fazia antes dos seus treinos. E, foi assim, que decidiu mudar o sistema de jogo da equipa”, introduziu uma bem sucedida inovação: o famoso esquema 4X4X2 que resultou na partilha da linha avançada por ambos MA: “Os espectadores mais felizes ficaram, quando vieram os golos e as boas exibições. Era a confirmação de que tinham razão”, no final das contas feitas.
Mas, a arma secreta do treinador da equipa era o Sérgio, que passou a Zeca Pequeno, pois, o pai fora um craque com o mesmo nome, o adjectivo servia para diferenciar o filho do pai (grande): “Havia um maestro por detrás daquela excelência” de avançados, impelidos pela força do DNA do servidor -- a altura, os músculos e as pernas semi-arqueadas, herdadas do seu progenitor, eram a sua marca de referência física, além do talento e das habilidades futebolísticas: o estilo, o toque de passe, as fintas (incluindo uma “finta específica, curta e rápida”), além das jogadas espectaculares típicas da força da genética -- e que desestabilizavam qualquer que fosse a equipa adversária. “Pequeno, era um dos filhos de Zeca, um grande meio campista que a guerra retirou dos campos . A genética tem um rosto inconfundível.” Daí, à invocação dos circunstantes contemporâneos do seu progenitor a interrogarem-se sobre as pronunciadas aparências atléticas de Zeca (Pequeno).
A descrição desce ao pormenor: “Como tinha esse jovem apreendido, se nunca tinha visto o pai jogar?”, para depois eles próprios responderem, na terceira pessoa do plural: aquele miúdo era a reencarnação de Zeca, jogador ímpar de passe matematicamente preciso.” A nossa personagem secundária era o motor da equipa, a fazê-la funcionar em pleno:
“Pequeno era o abastecedor de passes para os MA. Percorria todo o meio campo, recuperava as bolas e iniciava as jogadas de ataque. Tinha um pulmão de incansável. Não fazia sentido incluir numa equipa os MA, sem o seu excelente e regular abastecedor de passes.” Aqui, detecta-se na sua plenitude o mote que dá título ao conto em análise, dado que se articulavam perfeitamente bem, para desgosto dos oponentes: “Entendiam-se como se tivessem jogado sempre os três. Faziam ou passaram a fazer”( atente-se ao pleonasmo) parte de um só pacote. Os MA e o Pequeno. Um tripla imbatível e requisitada. Quanto a este último, o grande armador de jogo, dir-se-ia, na linguagem do teatro das operações militares, que as honras cabem aos generais; ou seja, cabem no decurso da narrativa a quem marca os golos, no caso vertente, o exemplo é eloquente: aos dois atacantes. O trinco acabava na penumbra…
OBS: Na próxima edição, a fechar a nota de leitura para fecho de conversa, fica o não menos interessante sub -tema de linchamento mediático do treinador e da morte súbita do jornalista desportivo que escapou de um correctivo dos adeptos endiabrados e fanáticos, infeliz e desafortunadamente o grande provocador da queda em desgraça do mister Firmino.

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